Evangelho de Marcos,

now browsing by tag

 
 
Posted by: | Posted on: novembro 17, 2012

33º DOMINGO TEMPO COMUM – ANO B

18 DE NOVEMBRO DE 2012

 “Aprendei, pois, a Parábola da Figueira”

Leituras: Daniel 12, 1-3;

Salmo 15 (16), 5 e 8.9-10.11;

Carta aos Hebreus 10, 11-14.18;

Marcos 13, 24-32.

COR LITÚRGICA: Verde

Nesta páscoa semanal, Jesus vem mostrar o plano de Deus a nós. Ele quer que durante a nossa vida nos preocupemos e nos esforcemos para viver o verdadeiro amor a Deus e ao próximo, assim poderemos fazer escolhas corretas e ficar sempre atentos e vigilantes quanto à nossa fé, pois o seu plano de amor é para nos levar definitivamente para perto do Pai.

1. Situando-nos brevemente

Na caminhada do ano litúrgico, chegamos ao penúltimo domingo do Tempo Comum. Como em todos os domingos, celebramos o mistério da morte e ressurreição de Jesus Cristo, com o qual o mundo e a historia mergulham na plenitude dos tempos.

A celebração deste domingo nos motiva a assumir a condição de peregrinos nesta terra, onde tudo é efêmero e provisório. O céu e a terra passarão, a Palavra de Deus não passará. Ele nos pede vigilância e discernimento ativo dos sinais dos tempos, em atitude de esperança pela manifestação gloriosa da majestade do Senhor.

Aguardando a total manifestação de Deus na plenitude dos tempos, vivamos intensamente o presente, nos esforçando em dar o melhor de nós, na esperança de que um mundo novo é possível. Enquanto aguardamos a vinda final de Jesus, não podemos ficar parados. Novos céus e nova terra são possíveis, começando aqui e agora.

2. Recordando a Palavra

Durante o ano B, que estaremos concluindo no próximo domingo, fomos guiados pela evangelista Marcos. Hoje, ao lermos os versículos 24 a 32 do capítulo 13, ficamos preocupados em compreender a boa nova que nos está sendo anunciada.

Jesus está em Jerusalém. Ali, sua atividade gira em torno do templo e do culto. Ele termina com um amplo e enigmático ensinamento , tendo como ponto de partida o templo de Jerusalém. Na Bíblica do Peregrino, p. 2433, encontramos o seguinte comentário:

“Chegamos ao capítulo mais difícil deste evangelho, o chamado discurso escatológico. Difícil, porque fala de acontecimentos futuros mal conhecidos em seu desenvolvimento; difícil, porque se refere a tempos de crise, confusos por natureza, e também porque emprega imagens e uma linguagem marcada pelas alusões enigmáticas, reticências enunciadas, ocultação tática. Para interpretá-lo em seu conjunto (e não nos detalhes) é preciso ter presente: a) a intenção primeira não é satisfazer a curiosidade de agoureiros e de seus clientes crédulos: b) a formação de atitudes é muito mais importante do que a mera informação. Por isso devem-se destacar as admoestações à cautela e à vigilância. Atitudes especialmente necessárias em tempo de crise; c) este estilo de literatura já está presente na literatura profética do Antigo Testamento, por isso, devemos ter presente a história do povo de Israel para interpretá-las; d) toda essa literatura se presta a interpretações e aplicação variadas. Assim, pois, resulta verossímil e provável uma instrução de Jesus a seus discípulos para a crise que se avizinha e para o futuro”.

Este pequena explicação nos ajuda a não nos preocuparmos em entender e explicar cada uma das expressões do evangelho de hoje. É preciso ver mais o “contexto” do que o “texto”.

Através da linguagem apocalíptica, o Evangelista deseja auxiliar a primitiva comunidade cristã na compreensão da destruição da cidade de Jerusalém e de seu majestoso templo, ocorrida no ano 70, e das sucessivas perseguições a que era submetida. À luz dos acontecimentos, havia quem entendesse os últimos tempos como intervenção avassaladora de Deus.

Marcos elabora uma catequese sobre os últimos tempos, o retorno do Filho de Deus e a salvação dos eleitos que perseveraram. Ele tem como objetivo animar e fortalecer a perseverança e a esperança dos seguidores de Cristo. As comunidades devem confiar na “revelação gloriosa do Senhor”. Neste dia, se manifestará a justiça de Deus, os inimigos serão derrotados e os bons glorificados.

Seguindo o estilo das narrativas apocalípticas, o evangelho deste domingo utiliza imagens fortes: “o sol vai ficar escuro, a luz não brilhará mais, as estrelas começarão a cair do céu, e os poderes do espaço ficarão abalados” (vv. 24 e 25). Em meio a todos estes sinais, se manifestarão o poder e a majestade de Deus pela manifestação gloriosa do Filho do Homem (v.26). “Ele enviará os anjos dos quatro cantos da terra, e reunirá as pessoas que Deus escolheu” (v.27).

É a hora do julgamento dos que se opuseram ao projeto de Deus e da salvação de todos quantos resistiram, permanecendo fieis. O evangelho Taz duas sentenças solenes. A primeira se refere à lógica da figueira. Por esta, Marcos ressalta que, face aos fatos e às perseguições, os cristãos devem discernir e esperar, confiantes na ação de Deus. É um aviso de que, dos escombros das estruturas do velho mundo brotarão um novo céu e uma nova terra.

A segunda sentença evoca o desconhecimento “quanto ao dia e a hora em que estas coisas acontecerão” (v.32). “Somente o Pai é quem sabe”. Isto desqualifica as especulações, a curiosidade e os movimentos milenaristas quanto à segunda vinda do Filho de Deus. Assim, o evangelho, mais do que suscitar um clima de terror e medo, enfatiza o aspecto positivo do fim dos tempos: a esperança da vitória e da salvação, isto é, a presença gloriosa e poderosa do Filho de Deus (evangelho).

Há uma pergunta que não quer calar: “mas quando acontecerá tudo isso?” Será no dia 12.12.2012 como alguns estão anunciando? A resposta de Jesus supera toda e qualquer curiosidade e banalidade: primeiro, é preciso ver os sinais do Reino já presentes na história; segundo, confiar na Palavra de Deus, pois os sinais passam, mas a Palavra permanece para sempre; por último, só o Pai sabe dia e a hora, de forma que não cabe à comunidade cristã especular sobre esse assunto.

A realidade da esperança está presente também no apocalipse do Livro de Daniel (1º Leitura). Deus está ao lado e é companheiro dos que praticam a justiça. A vitória final será de Deus e daquele que a ele são fiéis. O profeta Daniel quer infundir animo em seus leitores para que permaneçam fiéis a fé, embora inseridos num ambiente hostil.

O livro de Daniel foi escrito com o objetivo de animar e confortar os judeus fiéis, que estavam sendo oprimidos pela dominação grega dos selêucidas. O rei Antíoco IV queria obrigar os judeus a abandonarem sua religião e seu Deus e adotarem os costumes pagãos.

Quem, diante das perseguições, das catástrofes da natureza, das crises pessoais e sociais, age na integridade e pratica a justiça; quem não prejudica seu próximo; quem honra e teme o Senhor jamais será abalado (salmo responsorial).

A atitude de esperança evidencia-se igualmente na leitura da carta aos Hebreus (2ª Leitura). As comunidades tomadas pelo desânimo, em meio às perseguições, perpetuam o sacrifício de Jesus Cristo. Embora a situação social e comunitária não evidencie o novo, um dia Cristo vencerá, colocando seus inimigos sob seus pés (v.13).

A Carta reafirma a superioridade do sacerdócio de Cristo e acentua o contraste entre o sacerdócio/sacrifício de Cristo, que é único e eficaz, e o sacerdócio/sacrifício da antiga Lei. A oferenda de Cristo é única e verdadeira.

3. Atualizando a Palavra

Não são poucos os cristãos que hoje ficam preocupados com as afirmações o sol “está escurecendo”, a luz “não bilha mais”, estrelas “começarão a cair do céu” e as “forças do céu serão abaladas”. Não faltam visões de anjos, arcanjos, querubins e serafins “subindo e descendo em todas as direções”. Seria esta a mensagem do evangelho de Jesus, hoje proclamando?

Quais ou quem são hoje, “o sol, a luz, as estrelas, as forças do céu, os anjos…”, sinais ou símbolos das realidades que marcam nosso tempo? Os Bispos do Brasil, ao definirem as Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil (2012-2015), descrevem as “marcas de nosso tempo”. Os números 17 a 24 deste documento nos ajudam muito a atualizar a Palavra hoje proclamada.

“DGAE 17: O discípulo missionário sabe que, para efetivamente anunciar o Evangelho, deve conhecer a realidade à sua volta e nela mergulhar com o olhar da fé, em atitude de discernimento. Como o Filho de Deus assumiu a condição humana, exceto o pecado, nascendo e vivendo em determinado povo e realidade histórica (cf. Lc 2, 1-2), nós, como discípulos missionários, anunciamos os valores do Evangelho do Reino na realidade que nos cerca, à luz da Pessoa, da Vida e da Palavra de Jesus Cristo, Senhor e Salvador”.

“DGAE 18: O Concílio Vaticano II nos conclama a considerar atentamente a realidade, para nela viver e testemunhar nossa fé, solidários a todos, especialmente aos mais pobres. Sabemos, porém, que nem sempre é fácil compreender a realidade. Ela é sempre mais complexa do que podemos imaginar. Nela existem luzes e sombras, alegrias e preocupações. Daí a contínua atitude de dialogo, de evangélica visão crítica, na busca de elementos comuns que permitam, em meio à diversidade de compreensões, estabelecer fundamentos para ação”.

“DGAE 19: Estamos diante de uma globalização que não é apenas geográfica, no sentido de atingir todos os recantos do planeta. Estamos, na verdade, diante de transformações que atingem também todos os setores a vida humana, de modo que já não vivemos uma ‘época de mudanças, mas uma mudança de época’. O que antes era certeza, até bem pouco tempo, servindo como referência para viver, vem se mostrado insuficiente para responder a situações novas, ‘deixando as pessoas estressadas ou desnorteadas”.

“DGAE 20: Mudanças de época são, de fato, tempos desnorteados, pois afetam os critérios de compreensão, os valores mais profundos, a partir dos quais se afirmam identidades e se estabelecem ações e relações. Várias atitudes podem, então, surgir nestes períodos históricos. Duas, no entanto, se destacam. De um lado, é o agudo relativismo, próprio de quem, não devidamente enraizado, oscila entre as inúmeras possibilidades oferecidas. De outro, são os fundamentalismos que, se fechando em determinados aspectos, não consideram a pluralidade e o caráter histórico da realidade como um todo. Estas duas atitudes desdobram-se em outras tantas como, por exemplo, o laicismo militante, com posturas fortes contra a Igreja e a Verdade do Evangelho; a irracionalidade da chamada cultura midiática; o amoralismo generalizado; as atitudes de desrespeito diante do povo; um projeto de nação que nem sempre considera adequadamente os anseios deste mesmo povo”.

“DGAE 21: Os critérios que regem as leis do mercado, do lucro e dos bens materiais regulam também as relações humanas, familiares e sociais, incluindo certas atitudes religiosas. Crescem as propostas de felicidade, realização e sucesso pessoal, em detrimento do bem comum e da solidariedade. Não raras vezes, o individualismo desconsidera as atitudes altruístas, solidárias e fraternas. Por vezes, os pobres são considerados supérfluos e descartáveis. Desta forma, ficam comprometidos o equilíbrio entre os povos e nações, a preservação da natureza, o acesso à terra para trabalho e renda, entre outros fatores. É preciso pensar na função do Estado, na redescoberta de valores éticos, para a superação da corrupção, da violência, do narcotráfico, bem como o tráfico de pessoas e armamentos. A consciência de co-cidadania está comprometida. Em situação de contradições e perplexidades, o discípulo missionário reage, segundo o espírito das bem-aventuranças (cf. Mt 5,1ss), em defesa e promoção da vida, negada ou ameaçada por várias formas de banalização e desrespeito. Como não reagir diante da manipulação de embriões, homicídios, prática do aborto provocado, ausência de condições mínimas para uma vida digna com educação, saúde, trabalho, moradia, enfim, da ausência de efetiva proteção à vida e à família, às crianças e idosos, com jovens despreparados sem oportunidades para ocupação profissional?”

“DGAE 22: O discípulo missionário observa, com preocupação, o surgimento de certas práticas e vivências religiosas, predominantemente ligadas ao emocionalismo e ao sentimentalismo. O fenômeno do individualismo penetra até mesmo certos ambientes religiosos, na busca da própria satisfação, prescinde-se do bem maior, o amor de Deus e o serviço aos semelhantes. Oportunistas manipulam a mensagem do Evangelho em causa própria, incutindo a mentalidade de barganha por milagres e prodígios, voltados para benefícios particulares, em geral vinculados aos bens materiais. Exclui-se a salvação em Cristo, que passa a ser apresentada como sinônimo de prosperidade material, saúde física e realização afetiva. Reduzem-se, deste modo, o sentido de pertença e o compromisso comunitário-institucional. Surge uma experiência religiosa de momentos, rotatividade, individualização e comercialização. Já não é mais a pessoa que se coloca na presença de Deus, como servo atento (cf. 1Sm 3,9-10), mas é a ilusão de que Deus pode estar a serviço das pessoas”.

“DGAE 23: Importa discernir os motivos pelos quais uma ilusão tão grave assim acaba por adquirir força em nossos dias. As causas são muitas e interligadas. Dizem respeito às incontáveis carências das mínimas condições que grande parte de nossa população tem para enfrentar problemas ligados à saúde, à moradia, ao trabalho e às questões de natureza afetiva. Dizem ainda respeito às incertezas de um tempo de transformações, que levam algumas pessoas a buscarem tábuas de salvação, agarrando-se ao que mais imediatamente se encontra ao alcance. Assim, surgem os diversos tipos de fundamentalismo que atingem o modo da leitura bíblica e os demais aspectos da vida humana e social. Quando aliado ao individualismo, o fundamentalismo torna-se ainda mais perigoso, pois impede que se perceba o outro como diferente. Este, contudo, é também apelo ao encontro e ao convívio. O amor ao próximo, especialmente aos mais pobres, tende a desaparecer destas propostas, que acabam se tornando uma espécie de culto de si mesmo”.

“DGAE 24: Tempos de transformação tão radicais, por certo, nos afligem, mas também nos desafiam a discernir, na força do Espírito Santo, os sinais dos tempos. Mudanças de época pedem um tipo específico de ação evangelizadora, a qual, sem deixar de lado aspectos urgentes e graves da vida humana, preocupa-se em ajudar a encontrar e estabelecer critérios, valores e princípios. São tempos propícios para volta às fontes e busca dos aspectos centrais da fé. Esta é a grande diretriz evangelizadora que, neste início de século XXI, acompanha a Igreja: não colocar outro fundamento que não seja Jesus Cristo, o mesmo ontem, hoje e sempre (cf. Hb 13,8). A espiritualidade, a vivência da fé e do compromisso de conversão e transformação nos orientam para a construção da caridade, da justiça e da paz, a partir das pessoas e dos ambientes onde há divisão, desafetos, disputa pelo poder ou por posições sociais. Este é um tempo em que, através de ‘novo ardor, novos métodos e nova expressão’, respondemos missionariamente à mudança de época com o recomeçar a partir de Jesus Cristo”.

4. Ligando a Palavra com a Ação Eucarística

A ação eucarística é vivência antecipada da manifestação gloriosa de Cristo, acontecendo hoje, pela prática da fé e da caridade solidária. “Anunciamos, Senhor, a vossa morte e proclamamos a vossa ressurreição, enquanto aguardamos vossa vinda”. Há íntima unidade entre a ação litúrgica e a escatologia, espera da vinda de Cristo. “Maranátha” (1Cor 16,22). “Vem, Senhor Jesus” (Ap 22,20).

“Venha o Senhor, passe o mundo”. Em cada celebração eucarística, renova-se para a Igreja a esperança do retorno glorioso de Cristo. Sempre renovada, ela reafirma o desejo do encontro final com Aquele que virá para realizar seu plano de salvação universal (cf. João Paulo II, Eucaristia e Missão, 19de abril de 2004).

Na celebração litúrgica da comunidade terrena, nós participamos, já a saboreando, da liturgia celeste, que se celebra na cidade santa de Jerusalém, para a qual nos encaminhamos (cf. SC, n.2) como peregrinos.

A eucaristia que celebramos é memória da “volta do Senhor”. Paulo afirma: “todas as vezes que comeis desse pão e bebeis desse cálice, anunciais a morte do Senhor até que ele venha” (1Cor 11,26).

O pão e o vinho, frutos do trabalho humano, transformados pela força do Espírito Santo no Corpo e no Sangue de Cristo, tornam-se o penhor de “um novo céu e uma nova terra” (Ap 21,1), que a Igreja anuncia em sua missão cotidiana. No Cristo presente no mistério eucarístico, o Pai pronuncia a palavra definitiva sobre a humanidade e sobre sua história.

A ação litúrgica (em particular a Eucaristia), ao mesmo tempo em que do presente resgata o passado, projeta ao futuro, inserindo seus participantes no “tempo novo”: “Assim como aqui nos reunistes, ó Pai, à mesa do vosso Filho… reuni no mundo novo, onde brilha a vossa paz, os homens e as mulheres de todas as classes e nações, de todas as raças e línguas, para a ceia da comunhão eterna, por Jesus Cristo, nosso Senhor” (Oração Eucarística sobre Reconciliação II).

Enviado por D. Vilson Dias de Oliveira, DC – Bispo da Diocese de Limeira

Posted by: | Posted on: novembro 10, 2012

32º DOMINGO TEMPO COMUM – ANO B

11 DE NOVEMBRO DE 2012

“Deus ama a quem dá com alegria!”

Leituras: Primeiro Livro de Reis 17, 10-16; Salmo 145 (146), 7.8-9a.9bc-10; Carta aos Hebreus 9, 24-28; Marcos 12, 38-44.

COR LITÚRGICA: Verde

Nesta páscoa semanal, Jesus nos oferece como modelo de vida uma pobre viúva que, em clara oposição com os profissionais da religião em Israel, vive a fé como experiência de confiança em Deus e a manifesta em gestos de gratidão perante os demais. Para ela, como para Jesus, o templo é “casa de oração”, por isso vai a este lugar santo e põe sua vida nas mãos de Deus. Colocando aquelas moedinhas no cofre sagrado, dá tudo para o culto divino e para o bem dos outros pobres. Esta mulher também representa o ideal do discípulo cristão, ela põe em destaque o valor do pobre e seu potencial evangelizador.

1. Situando-nos brevemente

Estamos chegando ao final do Ano Litúrgico. Hoje celebramos o 32º domingo do Tempo Comum. Jesus continua o ensinamento aos discípulos, agora, já em Jerusalém, depois de sua entrada triunfal (Cf. Mc 11,1-11).

A Liturgia da Palavra nos apresenta duas viúvas – a de Sarepta e a que colocou sua esmola no cofre do Templo de Jerusalém. Na 2ª Leitura, estamos em outro Templo, não no de Jerusalém, mas no Santuário que é o próprio corpo de Cristo, simbolizando em sua Igreja reunida.

Fiquemos atentos, na celebração de hoje, a muitas “viúvas” que trazem para nossas celebrações suas vidas, seus sofrimentos, suas dores, suas esperanças. Que nossa assembléia litúrgica esteja aberta a todos que a compõem. Todos os que exercerem algum ministério, nesta celebração, estejam a serviço daqueles que estão dispostos a ouvir a Boa Nova e a oferecer suas vidas ao Pai, por Cristo, no Espírito Santo. Que possamos todos fazer de nossa vida uma oferta agradável a Deus e aos irmãos.

2. Recordando a Palavra

O evangelho deste domingo narra uma das cenas em que Jesus entra em conflito com os chefes religiosos de Jerusalém. Hoje, o motivo do conflito é a ostentação por parte dos doutores da Lei e a oferta dos pobres e pequenos. “Gente simples, fazendo coisas pequenas em lugares pouco importantes, consegue mudanças extraordinárias” (provérbio africano, citado por Dom Moacyr Grecchi, arcebispo emérito de Porto Velho, no XII Intereclesial de CEBs).

Os doutores da Lei (escribas), para não serem confundidos com as pessoas simples do povo e para afirmarem sua presença a uma classe distinta, usavam distintivos e trajavam longas e vistosas vestes. Eles tinham o intuito de atrair a atenção de todos, nos locais por onde passassem, e serem alvo de todos os privilégios.

Exigiam tratamento diferenciado no tocante à saudação, à sua passagem pelas ruas. Requeriam os primeiros lugares nos banquetes e o silêncio obsequioso, quando algum deles falava. Os escribas interpretavam os preceitos do Senhor, as prescrições ao povo de Israel e julgavam, nos tribunais, os que cumpriam a lei.

As viúvas eram o grupo social mais explorado pelos escribas. “Na sociedade antiga a mulher não tinha independência; era membro de uma família e dependente do pai ou do marido. A situação da viúva, portanto, era difícil. Vestia roupa que indicava a sua condição. Não recebia herança do marido. Se ficasse sem filhos voltava à casa do pai. A mulher que não tinha nenhum homem para defender seus direitos era evidentemente vítima das extorsões dos credores e de todo o tipo de opressão. A viúva não tinha sequer um defensor legal e, portanto, ficava à mercê dos juízes desonestos. Os profetas incluíam a opressão das viúvas entre os crimes dos quais acusavam o israelitas” (Diocesano Bíblico, Paulinas, 1984, pág., 968).

Neste contexto, percebemos o quanto o ensinamento de Jesus “mexeu na posição de alguns privilegiados”, como canta Padre Zezinho na canção “um certo Galileu”. De um lado, encontramos, portanto, os doutores da Lei e os escribas, cuja prática não deve servir de modelo para ninguém.

De outro, o exemplo da viúva que deu tudo o que tinha, sem constrangimento. A viúva entrega todo seu sustento numa atitude de total confiança e esperança em Deus “que é fiel para sempre, faz justiça aos oprimidos; dá alimento aos famintos”, conforme cantamos no salmo responsorial de hoje (Sl 145).

O profeta Elias, fugindo das ameaças da poderosa rainha Jesabel, por ter sido considerado culpado da maldição que se abateu sobre o povo, devido à seca prolongada e pela conseqüente fome, encontra hospitalidade em terra pagã. A fome castigava a terra que tinha Baal como “deus da chuva e da fertilidade”.

Elias, escapando da perseguição e da fome, refugia-se em Sarepta, pequeno povoado da Fenícia. É ai, nesta região pagã, que Deus vem em socorro de Elias, por intermédio de uma viúva pobre e pagã. A viúva ia comer o que restava de comida para ela e o filho. A seca serve, então, para mostrar que o Deus de Israel é o verdadeiro doador da chuva. Único e supremo Senhor da natureza, Deus é o Senhor da vida, ele dá o trigo e o azeite também para a viúva pagã e seu filho. Nosso Deus é o Deus da vida e vida para todos.

Muito importante ressaltar a confiança da viúva no Deus do profeta Elias. Ela repartiu o pouco que tinha e seu gesto não ficou sem resposta.

Na 2ª leitura, continuamos ouvindo a carta aos Hebreus. Os versículos de hoje, pertencem à segunda parte da carta (5,11-10,39). Jesus Cristo é o único e verdadeiro sacerdote que exerce seu ministério num santuário que não foi construído por mãos humanas.

Ele se oferece, uma vez por todas, num sacrifício perfeito, como gesto de amor para o perdão dos pecados e, na segunda vinda, para tornar participantes de sua glória todos os que nele perseverarem.

3. Atualizando a Palavra

Diante do gesto da pobre viúva, Jesus chamou os discípulos para conversar e ensinar. Diante da sociedade utilitarista e daqueles que alicerçam suas vidas sobre os critérios da aparência e da generosidade calculada, Jesus nos chama para conversar e ensinar.

Diante deste mundo no qual o dinheiro, o status, o sucesso são mais valorizados que as pessoas e seus sentimentos, Jesus nos chama para conversar e ensinar.

Mesmo no interior da Igreja, contra toda a lógica do evangelho, há aqueles que fazem de sua vida uma corrida em busca de honrarias, prestígio e aplausos. Iludem-se, pois a fama pela fama, a aparência pela aparência, só traz um imenso vazio. No passado, Jesus alertou os discípulos: “Guardai-vos dos escribas”. Hoje ele avisa: “Não se iludam com os modelos de sucesso que existem por ai”.

Jesus reprova nos escribas a cegueira espiritual. Eles eram os especialistas no conhecimento e na interpretação dos preceitos do Senhor. Sua prática, porém, não se conformava com seus conhecimentos e suas interpretações.

Há muitos cristãos que, teoricamente, conhecem muito bem os critérios evangélicos e os preceitos da vida cristã, todavia “fazem o bem, pensando em si”. Na prática comunitária, não mergulham no espírito e, consequentemente, se tornam mesquinhos e intolerantes.

O Mestre alerta seus discípulos para a verdadeira prática religiosa. Esta não consiste na busca de honrarias, no ocupar lugares de destaque nas comemorações públicas, no uso ostensivo de vestes e de sinais externos para chamar atenção sobre si.

A verdadeira prática religiosa brota da generosidade e da humilde dedicação aos pobres e necessitados (Cf. Tg 1,27). O seguimento de Jesus se caracteriza pela doação, pela solidariedade.

Jesus contrapõe ao modo hipócrita do agir dos escribas e ricos senhores do templo a generosidade e a religiosidade sincera de uma pobre viúva. Despojada dos bens terrenos, doa tudo o que possui, demonstrado sua confiança e segurança nas mãos de Deus.

É a generosidade radical. Ela não doou o supérfluo, manifestou uma generosidade gratuita, no sentido da entrega total, sem esperar nada em troca. “Sua humilde esmola vale mais do que abundantes doações dos ricos, pois estes dão do supérfluo, enquanto que a viúva oferece a Deus o que ela necessitava para viver” (J. Konings, Liturgia da Palavra, caminho de fé – Ano B – Jesus o Messias. P.63).

A Liturgia da Palavra de hoje nos faz lembrar que a grande maioria de nosso povo é muito generosa. Basta avaliar a pronta resposta diante de certas calamidades provocadas por seca ou por enchentes. Multiplicam-se as toneladas de donativos.

Felizmente, existem muitas “viúvas de Sarepta”, como a do evangelho, que anonimamente vivem da certeza de que “Deus abençoa quem generosamente partilha seus próprios bens”. Vivem na gratuidade. Não porque ter bens materiais seja uma coisa ruim, mas pelo fato de eles assim cumprirem sua finalidade: serem colocados à disposição de quem deles necessita. A partilha generosa e solidária multiplica as possibilidades de vida digna.

Não nos esqueçamos que, além de nossos bens materiais, é preciso também partilhar nosso tempo e nossos dons pela causa do Reino de Deus. Às vezes, pode ser mais fácil dar em forma de dinheiro, do que mexer em nosso tempo.

4. Ligando a Palavra com a Ação Eucarística

A Eucaristia é memorial da entrega, da oferta total que Jesus faz de si mesmo. Ele faz de sua vida uma oferta a Deus pai e à humanidade. A generosidade das viúvas do Antigo e do Novo Testamento, que doaram tudo que possuíam e a si mesmas, são prefigurações e expressões da atitude sacerdotal de Jesus (cf. 2ª Leitura).

A Eucaristia é ação de graças pela criação, pela ação de Deus na história, pelo próprio dom de Jesus Cristo, que livremente se entrega por nós e por amor ao Pai. A doação incondicional de Jesus é uma ação profundamente humana de entrega, pela qual se expressa o amor de Deus por nós. Ação que nos convida a fazer também de nossa vida uma doação. É essencial ao espírito da celebração eucarística o gesto da solidariedade com os pobres e esquecidos.

“Olhai, com bondade, o sacrifício que destes à vossa Igreja e concedei aos que vamos participar do mesmo pão e do mesmo cálice que, reunidos pelo Espírito Santo num só corpo, nos tornemos em Cristo um sacrifício vivo para o louvor da vossa glória” (oração eucarística IV).

Santo Agostinho afirma: “Cristo se entregou uma vez para que nós nos convertêssemos em seu corpo. Mas quis que fizéssemos desta sua entrega um sacramento cotidiano no sacrifício da Igreja, que, assim, pelo fato de ser corpo de Cristo-cabeça, aprenda a oferecer-se a si mesma nele, e assim se realiza cada vez o melhor sacrifício, ou seja, nós mesmos, cidade de Deus, quando em nossa oblação celebramos o sacramento do sacrifício” (Santo Agostinho, De Civitate Dei 10,6. Citado por José Aldazábal, A Eucaristia, p.261).

A Celebração eucarística, memorial da entrega total de Cristo, é um convite à comunidade para se unir à sua oferta. O gesto de levar o pão e o vinho em procissão até o altar é mais do que um simples rito funcional.

Expressa que toda a comunidade se incorpora efetiva e ativamente ao sacrifício de Jesus Cristo (Cf. SC 48), doando o fruto de seu trabalho. O fruto da Eucaristia, tal como se suplica na segunda invocação ao Espírito Santo, é que nossa assembléia se converta em “oferenda permanente” e em “hóstia viva”.

O rito da coleta de dons e sua procissão ao altar junto com o pão e o vinho, além de simbolizar a vida da comunidade, a gratidão por todas as bênçãos e favores recebidos de Deus, expressa a capacidade de comunhão e de solidariedade das pessoas reunidas em assembleia eucarística. Por esta razão, rezamos na oração do dia “Deus de poder e misericórdia, afastai de nós todo obstáculo, para que, inteiramente disponíveis, nos dediquemos ao vosso serviço”.

Enviado por D. Vilson Dias de Oliveira, DC – Bispo da Diocese de Limeira

Posted by: | Posted on: outubro 27, 2012

Celebração do 30º Domingo Tempo Comum – Ano B

28 DE OUTUBRO DE 2012

“No caminho da fé”

Leituras: Jeremias 31, 7-9; Salmo 125 (126); Hebreus 5, 1-6; Marcos 10, 46-52.

COR LITÚRGICA: Verde

Na liturgia de hoje veremos um Jesus que realiza mais um milagre, curando o cego de Jericó, devolvendo a ele toda a dignidade perdida com a cegueira. Com Jesus começamos a enxergar os fatos e entende-los com os olhos de Deus. Lembramos hoje, o “Dia Nacional da Juventude”, de todos os jovens que sonham por dias melhores e desejam clarear sua visão, sair da margem da estrada e caminhar rumo ao verdadeiro sentido da vida.

1. Situando-nos brevemente

Estamos no último domingo do mês de outubro, em que a Igreja propõe aos fiéis uma reflexão sobre sua tarefa missionária. Ela nos fala da missão evangelizadora ad intra e ad extra, isto é, seus destinatários são aqueles que, junto a nós, deixaram de participar ou que se afastaram da Igreja, bem como a missão que acontece em regiões onde existem grandes desafios devido à pobreza, à perseguição ou mesmo indiferença aos valores do evangelho.

Na próxima sexta-feira, estaremos celebrando o Dia de Finados, dia de visita aos cemitérios e orações pelos fieis defuntos.

Neste domingo, em alguns municípios, realiza-se o 2º turno das eleições. A política sempre é um desafio para a evangelização, pois esta deve se traduzir em valores que nascem da vivência de nossa fé em comunidade.

A liturgia do domingo passado apresentou a passagem dos filhos de Zebedeu. Jesus alertou os discípulos sobre a tentação da ambição dentro da comunidade, e sobre as dificuldades próprias da missão que ele veio cumprir.

Continuamos hoje a leitura do Evangelho de Marcos, com a cura do cego Bartimeu, o que nos apresenta um modelo de fé. Neste modelo, vemos uma ligação entre o cego e a libertação de todo o povo de Deus.

2. Recordando a Palavra

Jesus está a caminho de Jerusalém, já falou sobre o que lhe aconteceria em Jerusalém. Ele refaz o caminho dos israelitas na tomada da terra prometida, passando pelo Jordão e por Jericó para ir a Jerusalém (cf. Comentários da Bíblia do Peregrino).

O contexto é messiânico, isto é, tempo para Deus restaurar Israel. O cego, que está à beira do caminho e clama por Jesus, ajuda a revelar este momento de Deus no meio do povo.

A primeira leitura fala do “resto de Israel”, constituído de cegos e coxos, grávidas e as que deram à luz, em favor de quem Deus age, revelando-se como um Pai.

O cego que grita: “Filho de Davi, tem piedade de mim”, reconhece em Jesus o messias. Por isso, esta declaração de fé ajuda o discípulo a compreender a subida de Jesus para Jerusalém e sua missão aí realizada.

A maneira como o evangelho nos apresenta a cura do cego reforça a idéia de um modelo de fé a ser seguido.

Modelo porque Bartimeu, a partir da fé, enfrentou a admoestação e a repreensão da multidão que acompanhava Jesus. Ela pedia que Bartimeu se calasse. Ele, porém, gritava cada vez mais forte, pois suas esperanças em Jesus se fundavam no conhecimento da Palavra de Deus e nos testemunhos que lhe traziam deste homem.

Modelo ainda pelo fato de jogar para trás o manto que dava ao cego o direito à mendicância. Mostra que ele buscava uma nova vida e que ele não estava acomodado na segurança representada pelo manto, pois aquilo que Jesus podia lhe ofertar era mais importante.

Por último, o cego é modelo de fé pela palavra de Jesus que diz: “vai, tua fé te curou”. Jesus reconhece o valor daquela declaração de fé que se baseia numa proclamação messiânica. Assim, diante da palavra que o torna liberto, o cego escolhe o seguimento, pois em Jesus, Deus está a realizar o Reino, a restauração de Israel.

A 2ª Leitura pode ser vista também a partir do contexto de Deus que realiza suas promessas de vida em favor do povo. Jesus é apresentado como um sumo sacerdote cuja origem não está ligada à descendência levítica.

Ele traz o novo, pois não está vinculado àqueles que controlam Jerusalém e se apropriaram das esperanças do povo. Um sumo sacerdote não sujeito ao pecado, capaz de instaurar e realizar o sacrifício único e eterno, agradável a Deus para a vida de todo Israel.

3. Atualizando a Palavra

A Palavra de Deus, neste domingo, nos apresenta as atitudes que levam o cego Bartimeu a ser um modelo de fé para a vida da comunidade.

Podemos verificar que o conhecimento da palavra de Deus e das promessas que alimentam a vida do povo de Israel leva o cego a reconhecer Jesus. Este fato deve também nos mover a buscar não só conhecer a palavra de Deus, mas a fazer dela um alimento para a fé, para podermos reconhecer a presença e a ação de Jesus hoje, entre os homens e na comunidade dos fiéis.

Podemos verificar que a situação adversa do cego não foi empecilho para seu crescimento na fé. A “desgraça” na qual estava mergulhado é a condição para que alimente a esperança e cresça na fé. A fé, portanto, nos é mostrada como capaz de trazer respostas de vida, de nos fazer olhar com outros olhos uma realidade que é rejeitada ou desprezada pelo mundo.

A liturgia nos apresenta o conteúdo da fé em Jesus como Messias. Facilmente chamamos Jesus, o Cristo (= Messias), porém, cabe perguntar-se, na prática, se aceitamos o fato de que a fé em Jesus inclui esta restauração da vida do povo, como a cura do cego, a saúde ao doente, a liberdade ao oprimido…

A cura do cego mostra a estreita relação entre a fé por ele professada, a história e as esperanças da comunidade, povo de Deus. Isto permite perguntar se nossa fé também está fundada na esperança e na vida do povo, se nossa fé compartilha as esperanças da comunidade, da Igreja.

A partir de Jesus, que caminha para Jerusalém, com a missão de restaurar o povo de Deus, somos desafiados a promover a ação restauradora e redentora de Deus. Para tal, é preciso vencer a acomodação da comunidade, preocupada em repetir ritos ou salvaguardar as leis.

Bartimeu nos mostra que a fé cristã não combina com acomodação e individualismo. A fé cristã é essencialmente comunitária. Ela nasce da ação de Deus em favor da vida de seu povo. O lugar do cristão é o caminho da comunidade dos fiéis conduzida por Jesus, lugar onde a presença de Jesus continua a agir, transformando sinais de morte e descrença em sinais de vida e de fé.

A Palavra de Deus, neste domingo, pelo relato da cura do cego, nos mostra a fé em Deus como abertura a um projeto, um plano, uma ação de Deus, presente na história. O fiel reconhece, em Jesus, Deus que o acolhe. Pela fé em Jesus, percebe-se alguém participante e testemunha da ação de Deus, agindo na comunidade em favor da vida do povo.

4. Ligando a Palavra com a Ação Eucarística

A comunidade cristã, povo sacerdotal, participa, de forma plena, consciente e ativa, da celebração do mistério pascal de Jesus Cristo, único e eterno sacerdote. Ele preside nossas assembléias e torna-se presente no meio de nós.

Ele, cabeça de seu corpo, que é a Igreja, “ora por nós como nosso sacerdote; ora em nós como nossa cabeça e recebe a nossa oração como nosso Deus. Reconheçamos nele a nossa voz, e em nós a sua voz. E quando algo referente àquela humilhação, aparentemente indigna de Deus, não hesitamos em lhe atribuir, já que não hesitou em fazer-se um de nós…” (Santo Agostinho).

Com confiança renovamos a fé no Senhor que nos tira da escuridão, nos liberta do medo e nos traz de volta à vida. Sem ele, nada podemos, por isso, já no início da celebração, pedimos: “Deus eterno e todo-poderoso, aumentai em nós a fé, a esperança e dai-nos amar o que ordenais para conseguirmos o que prometeis….” (Oração do Dia).

Na celebração da Eucaristia, oferecemos o pão que dá vida e o cálice da nossa salvação. Com Jesus, entregamos ao Pai nossa vida (cf. oração eucarística para a missa com crianças).

Diz a Sacrosanctum Concilium: “que os fieis aprendam a oferecer-se a si próprio, oferecendo a hóstia imaculada, não só pelas mãos do sacerdote, mas também juntamente com ele e assim, tendo a Cristo como Mediador, dia a dia, se aperfeiçoem na união com Deus e entre si, para que, finalmente, Deus seja tudo em todos” (48).

Que o Senhor faça de nós, povo gerado pela aliança, instituída por Cristo, uma oferenda perfeita. Saibamos, na vida e na celebração oferecer nossos corpos como hóstia viva, santa e agradável a Deus (cf. Rm 12,1).

Enviado por D. Vilson Dias de Oliveira, DC – Bispo da Diocese de Limeira

Posted by: | Posted on: outubro 19, 2012

Celebração do 29º Domingo do Tempo Comum – Ano B

21 DE OUTUBRO DE 2012

“Entre vós não deve ser assim”

Leituras: Isaías 53, 2a.3a.10-11; Salmo 32 (33); Hebreus 4, 14-16; Marcos 10, 35-45.

COR LITÚRGICA: Verde

Ser discípulo de Jesus é diferente da lógica deste mundo e do poder político, que só pensam em si mesmos não nos outros. Ser discípulo de Cristo é colocar-se a serviço dos outros, principalmente dos mais necessitados. É pelo serviço em favor da vida que o cristão realiza fielmente a vontade do Senhor. Lembramos também o “Dia Mundial das Missões e da Obra Pontifícia da Infância Missionária”. Como cristãos, somos chamados a uma ação missionária no estilo de Jesus, anunciando o Evangelho como servos, numa atitude de despojamento e simplicidade e dando testemunho da nova maneira de viver que combina com o projeto do Reino.

1. Situando-nos brevemente

Estamos no penúltimo domingo de outubro, Dia Mundial das Missões, da Obra Pontifica da Infância Missionária, quando fazemos a coleta para as missões. É importante relembrar a participação e o compromisso missionário de todos os membros da Igreja. “Na Igreja de Cristo, todo batizado é missionário”. Em conformidade com o lema Aparecida, todo discípulos é necessariamente missionário: “discípulos missionários em Jesus Cristo, para que nele nossos povos tenham vida”.

Vamos nos aproximando do DNJ (Dia Nacional da Juventude), uma oportunidade para refletir sobre o envolvimento com a JMJ 2013 (Jornada Mundial da Juventude), no Rio de Janeiro, e com seus preparativos, através das pré-jornadas, sob encargo de cada Diocese.

Na Liturgia deste 29º domingo, vemos novamente um anúncio da Paixão e celebramos o verdadeiro significado do poder e do reinado de Cristo, que se traduz em serviço. Jesus inverte a lógica humana e explicita a lógica de Deus, pela qual os últimos são os primeiros; os que se elevam são humilhados; quem se humilha é exaltado; os que querem ser grandes devem se tornar servidores de todos.

2. Recordando a Palavra

A primeira leitura nos apresenta uma parte do texto sobre o Servo de Javé. O texto completo, talvez explicitasse melhor a dimensão de seu exemplo de serviço. Contrasta a concepção de êxito humano com aquilo que Deus considera como êxito: por meio do sofrimento e por assumir a culpa dos homens (cf. v.11), “cumprirá a vontade do Senhor” (v.10).

Este é o Servo de Javé, aquele que “ofereceu sua vida em expiação” e que “fará justos inúmeros homens” (cf. vv.10 e 11); que não apresenta beleza, nem poder, nem triunfo, mas ao contrário, aos olhos do mundo é desprezado e motivo de vergonha (cf. texto completo dos versículos 2 e 3). Portanto, a primeira leitura nos apresenta dois elementos: primeiro, o exemplo o servo que agrada a Deus e, segundo, o contraste existente entre esse modelo e a ideia humana de eleição.

O Salmo responsorial retrata a graça de Deus que nos vem como dom, por meio da confiança: “sobre nós venha, Senhor, a vossa graça, da mesma forma que em vós nós esperamos!” (v.22). Eis o êxito do Servo de Javé, isto é, sobre ele veio o favor de Deus, cumpriu-se com êxito a vontade do Senhor, pois, em meio ao sofrimento, confiou em Javé até as últimas conseqüências, oferecendo sua própria vida.

A mesma temática de fundo está contida na segunda leitura, apresentando Jesus como aquele que “foi provado em tudo como nós” (v.15) e que é, portanto, próximo dos seres humanos e não distante ou cheio de poder. Em confirmação disso, temos o texto de Filipenses 4, a “kenosis”, ou seja, o despojamento, ou a proximidade de Deus para com os homens, assumindo nossa condição humana.

De fato, o trono de Deus não é o trono de opressão ou de majestade avarenta, mas é trono de graça, do qual todos os que se aproximam com confiança recebem a misericórdia e o auxílio, no momento oportuno.

No evangelho, Marcos narra (na versão mais longa) o episódio ocorrido na subida para Jerusalém, após o terceiro anúncio da Paixão de Jesus (Mc 10, 32-34). Deveríamos esperar dos discípulos uma atitude de preocupação ou mesmo uma tentativa de impedir Jesus de ir em direção à sua morte. Ao contrário, porém, eles revelam total incompreensão das palavras de Jesus e uma busca humana de poder e destaque.

Os discípulos ainda pensavam o Messias como um libertador, com um reinado que lhes soava como um governo político. O próprio pedido dos dois irmãos possui caráter de exigência: “queremos que faças por nós o que vamos pedir” (v. 35), o que parece revelar certa soberba da parte de ambos, ao se considerarem dignos de tal posto diante dos outros discípulos.

O cálice e o batismo se referem à sorte ou ao futuro de Jesus, que é de sofrimento e morte. Tiago e João, no entanto, não pensam nisso e entendem seu cálice como cálice de vitoria e de realeza e se declaram dispostos a dele beber.

Finalmente, Jesus se dirige taxativamente a todos os discípulos: “entre vós, não deve ser assim” (v. 43), não deve haver tirania, nem opressão, nem uso do poder para esmagar os outros. Jesus inverte a lógica do poder humano, e o desloca para o serviço e a humildade: “quem quiser ser o primeiro, seja o escravo de todos” (v.44).

3. Atualizando a Palavra

A Palavra deste domingo questiona a lógica humana do poder e reprova, tenazmente, toda forma de soberba, opressão ou carreirismo discriminatório. Prova as instâncias que exercem poder sobre o significado de sua existência: existem para o serviço a ser prestado ou para si mesmas?

Para o cristão, ser grande significa colocar-se a serviço; trabalhar em prol dos outros. A autoridade provém da humildade.

Diante de toda concepção mundana de poder, a Liturgia nos propõe pelo menos duas dimensões do exemplo de Jesus. A primeira: a do Servo de Javé, que carregar a culpa de outros para torná-los justos. Isso reporta ao evangelho, quando Jesus afirma que o “Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar sua vida em resgate para muitos“ (cf. v.45). A segunda: o que motiva a atitude desse servo. Ela aparece na segunda leitura, na qual Cristo é o sumo sacerdote que se compadece das fraquezas dos seres humanos e se permite ser um de nós, provado como nós.

Não são, portanto, o poder e o destaque que tornam alguém grande aos olhos de Deus, mas o quanto cada um é capaz de compadecer-se do outro e colocar-se a serviço dele.

4. Ligando a Palavra com a Ação Eucarística

Toda a celebração deste domingo está envolta pelo tema do serviço e da entrega ao outro. A exemplo de Jesus Cristo, somos vocacionados a servir, como reza a oração inicial: “dai-nos a graça de estar sempre ao vosso dispor, e vos servir de todo o coração”.

As leituras também remetem à maior obra de serviço realizada por Jesus: sua oblação ao Pai, no altar da cruz, que se faz presente na Eucaristia, sob as espécies do pão e do vinho oferecidos. Reza a oração sobre as oferendas: “dai-nos, ó Deus, usar os vossos dons servindo-vos com liberdade, para que, purificados pela vossa graça, sejamos renovados pelos mistérios que celebramos em vossa honra”.

De fato, os dons de Deus nos foram concedidos não para nosso egoísmo ou vaidade, mas para o serviço. O gesto de servir com liberdade concede a verdadeira felicidade, pois, na doação de si, o ser humano encontra a realização.

Igualmente, a oração depois da comunhão nos educa a respeito de nossa relação com o poder e os bens temporais: diferentemente da lógica do mundo do ter mais, para poder mais, para gozar mais, ela nos ensina que os bens terrenos devem ser auxílio para conhecermos os valores eternos.

Enviado por D. Vilson Dias de Oliveira – Bispo da Diocese de Limeira

Posted by: | Posted on: outubro 6, 2012

Celebração do 27º Domingo do Tempo Comum – Ano B

07 DE OUTUBRO DE 2012

“Portanto, o que Deus uniu o homem não separe”

Leituras: Gênesis 2, 18-24; Salmo 127 (128); Hebreus 2, 9-11; Marcos 10, 2-16.

COR LITÚRGICA: Verde

Nesta celebração pascal, Jesus deixa claro o valor da união entre o homem e a mulher, que unidos em matrimônio, constituem uma unidade, e que nas dificuldades do dia-a-dia lutam mais ainda pelo seu amor eterno, para que não seja abalado. Ele também acolhe e abençoa as crianças, que são as maiores vítimas de uma sociedade injusta, e sofrem as conseqüências de uma família sem estrutura.

1. Situando-nos brevemente

Estamos no início de outubro, mês missionário, do Rosário e também um mês político, pois, nas eleições para prefeitos e vereadores, escolheremos aqueles que governarão nossas cidades, nos próximos quatro anos. Quantas vezes já ouvimos falar que a Igreja não deve se meter na política e sim cuidar da religião, das coisas de Deus, o que nos parece certo, se entendermos por política as diferentes concepções e maneiras de se governar, próprias dos partidos políticos.

No entanto, se política for a arte de governar e conduzir uma cidade, nação ou estado, então, como cidadãos, temos não só o direito, mas também o dever de participar. Por isso, votar é, antes de tudo, a participação de todo cidadão, seja ele cristão ou não, visando à construção de uma sociedade menos injusta e mais igualitária. Sem dúvida, a luz do evangelho é fundamental nesta luta de participação democrática.

As leituras do 27º domingo do Tempo Comum apresentam uma temática sempre atual: a união matrimonial. Fruto do amor de um homem e uma mulher, o matrimônio aparece como projeto de Deus para o ser humano na busca da realização e da felicidade. Esse amor fiel, construído e fundamentado na doação e na entrega, será para o mundo um reflexo do amor de Deus para como ser humano.

Os textos bíblicos situam o debate em seu verdadeiro horizonte, trazendo a intenção originária do Criador. Essa forma enfatiza a fidelidade no matrimônio, proibindo explicitamente o divórcio. Fidelidade é um valor imprescindível no casamento cristão. O adultério é a ruptura de uma relação que deve ser concebida não como um simples contrato legal, mas como uma disposição de vida, uma aliança estável, à semelhança daquela que o mesmo Deus fez com seu povo, alimentada pelo amor e não pela lei.

Entremos em comunhão com a Igreja que hoje, em Roma, inicia o Sínodo dos Bispos sobre a nova evangelização para a transmissão da fé cristã.

2. Recordando a Palavra

O texto proposto pelo Gênesis situa-se no chamado “Jardim do Éden!”. Lugar criado por Deus para o homem, obra prima de suas mãos. Um ambiente de felicidade onde, aparentemente, todas as exigências da vida humana são contempladas. A história de Adão e Eva é classificada como uma narrativa didática das origens.

Para surpresa de muitos, todos os nomes aqui são simbólicos, revelando uma realidade humana. Cada um tem um significado. Adão, do hebraico, Adam que significa humanidade, ser humano. Esta palavra pode estar ligada também com a palavra hebraica adamá, que significa terra. Eva, do hebraico, Hawah que quer dizer mãe de todo os viventes.

O texto manifesta o desejo de Deus em criar uma companheira para o homem. O homem não estava plenamente realizado, faltava-lhe alguém com quem partilhar a vida.

Deus colocou, nas mãos do homem, chamado aqui de Adão, os animais e as aves. Pelo fato de falar que Adão lhes deu o nome, dá a entender que Deus lhe atribuiu também a autoridade sobre tudo o que foi criado, ou seja, participação na obra da criação.

Adão deu um nome para cada animal criado por Deus. Porém, entre os animais e aves criados, ele não encontrou uma companheira, uma auxiliar. Da costela (lado) de Adão, Deus então cria a mulher.

Nosso texto termina com um comentário próprio do autor: “por isso, o homem deixará pai e mãe para se unir à sua esposa, e os dois serão uma só carne”. O homem não foi criado para viver sozinho, mas para viver em contínua relação.

A segunda leitura, da Carta aos Hebreus, foi escrita para os cristãos abalados na fé, por causa da perseguição judaica e romana, e desapontados com a demora da volta de Jesus, pois com Ele viria a salvação.

O autor procura animar esses cristãos, apresentando um Jesus Sacerdote, que tem compaixão de seu povo e que é capaz de doar sua própria vida em favor de cada um.

Esse Jesus, motivo de escândalo para os judeus, é aquele que aparece coroado de glória e honra. Feito menor que os anjos e considerado maldito, por ter pendido no madeiro da cruz, é ele agora motivo de contradição e escândalo.

Jesus, mesmo sem ter pecado algum, provou a morte para que ninguém mais morra. Doou-se no lugar de todos. A vida, extirpada na cruz, alcança sua plenitude, a salvação para todos. Ele tinha consciência que precisava da entrega total, como um cordeiro no matadouro, para que a humanidade fosse salva.

No final do texto, Jesus e cada um de seus resgatados formam uma única pessoa. É pelo sangue derramado de Jesus, que cada um pode chamar o outro de irmão.

No evangelho, Marcos nos leva a uma análise sincera do matrimônio e da opção preferencial de Jesus pelos pobres. Os fariseus que conheciam muito bem a Lei de Moisés, os costumes e a tradição, questionam Jesus, com a má intenção de colocá-lo em contradição.

A pergunta – é permitido ao homem repudiar sua mulher? – nada mais é do que uma tentativa de colocar Jesus em contradição frente à Lei, dando-lhes assim motivos para condená-lo. Eles já sabiam a reposta, mas queriam saber se Jesus estava do lado de Moisés ou confirmava ser um deserto da Lei.

Jesus responde à pergunta dos fariseus com outra pergunta e confirma que, na Lei de Moisés, havia realmente a possibilidade de se fazer a carta de divórcio. No entanto, esta carta se justificava devido à “dureza dos corações”.

Usando das palavras do próprio Gênesis, Jesus qualifica e consagra a união matrimonial, afirmando que Deus os fez homem e mulher. Estes deverão deixar seu pai e sua mãe para se unirem e não serão mais duas pessoas, mas uma só.

Conclui, então, Jesus, dizendo que o que Deus uniu o homem não pode separar. Esta frase conclusiva da argumentação de Jesus soa como um ditado popular da época, hoje, um provérbio muito usado.

Com o v.10, começa uma nova cena, Jesus se encontra em outro lugar, mas a temática é a mesma. Interpelado agora pelos discípulos, continua ensinando e se dirige primeiro aos homens: “quem despede sua mulher e se casa com outra, comete adultério”. Depois, fala às mulheres: “e se uma mulher despede seu marido e se casa com outro, comete adultério também”.

No v.13, surgem novos personagens: as crianças. Os discípulos repreendiam os adultos que traziam crianças para que fossem tocadas por Jesus. Provavelmente, eram crianças marginalizadas pela sociedade judaica.

Jesus indignado com os discípulos, chama-lhes a atenção, afirmando que o Reino de Deus é destas crianças e quem não for capaz de se tornar como uma delas não fará parte dele. É preciso que os adultos sejam puros, desprovidos de malícia, como as crianças, para que a experiência do Reino aconteça.

O texto termina com Jesus abençoando as crianças, isto é, dando a elas a dignidade e a atenção que, provavelmente, não recebiam na sociedade e, talvez, nem na própria família.

3. Atualizando a Palavra

A liturgia proposta para este domingo é uma reafirmação da vocação de todo ser humano: o amor. Sem ele a vida não deixa de ser uma experiência de solidão que condena qualquer um à triste experiência da morte. Como diz São Paulo: “sem o amor, nada sou”.

A primeira leitura oferece segunda narrativa da criação do homem e da mulher. O autor nos faz entender que o ser humano só encontra sua plenitude na relação com o outro e, neste caso, o outro é o diferente da própria vocação: homem e mulher.

Não há amor sem partilha, doação, seja no contexto espiritual ou material. Por isso, Deus fez para o homem a mulher e para a mulher, o homem. Ao ser tirada da costela (do lado) do homem, Deus igualou a mulher à dignidade de seu companheiro, ambos participantes de sua criação.

A afirmação do homem: “Esta é realmente osso os meus ossos e carne da minha carne”, exclui toda possibilidade de controle, domínio, desigualdade de um sobre o outro. Se todos somos iguais diante de Deus, desde a criação, devemos também, na prática cotidiana, demonstrar essa realidade.

Na segunda leitura, da Carta aos Hebreus, há destaque para a condição de debilidade assumida por Jesus, levando-o à morte de cruz para nos revelar a grandiosidade de Deus. Como sermos indiferentes a tão grande gesto, ao ponto de duvidarmos de sua existência e de sua presença em nossa vida? Ao assumir a natureza humana, Jesus nos aproximou do Criador e nos indicou o caminho que devemos seguir para integrar a família de Deus.

A atitude de aceitação incondicional do projeto do Pai, assumida por Cristo, contrasta com o egoísmo e a autossuficiência de Adão. A obediência de Cristo trouxe vida plena ao homem. A desobediência de Adão trouxe o sofrimento e morte à humanidade.

O exemplo de Cristo nos convida a viver na escuta atenta e na obediência radical às propostas de Deus. Quando o homem prescinde de Deus e de suas propostas, decidindo que é ele quem define o caminho a seguir, fatalmente cai em projetos de morte, em suas mais variadas manifestações. Quando o homem escuta e acolhe os desafios de Deus, aprende e entende o verdadeiro sentido de sua criação.

O evangelho nos apresenta o projeto ideal de Deus para o homem e para a mulher: a vivência de um amor forte e indestrutível, capaz de sobreviver a todas as tensões, fraquezas e dificuldades. Apesar da fragilidade que o amor humano pode manifestar, a garantia desta qualidade está na presença de Deus que é AMOR.

Muitas vezes, as preocupações com bens materiais, como o dinheiro, com a realização profissional e outras mais fazem com que o ser humano acabe descuidando dos valores próprios de toda relação humana e familiar, não tendo mais tempo para o que é verdadeiramente importante. Às vezes, só quando não mais dá tempo para mudar, é que se vê o equívoco.

Atualmente, a constante mudança dos valores em nossa sociedade, apresentada principalmente pelos meios de comunicação social, dificulta a fidelidade dos esposos. Em muitos casos, uma simples dificuldade já serve de motivo para a separação. Existem uniões que já começam praticamente pensadas para durarem determinado tempo: sem o sacramento, com separação de bens…

A separação será sempre o fracasso do amor. Só o amor eterno, manifestado em um compromisso indissolúvel, está de acordo com o que o Criador nos ensinou, respeitando desta forma seu verdadeiro projeto.

4. Ligando a Palavra com a Ação Eucarística

Hoje, a Eucaristia nos faz entender que o matrimônio é uma relação estável e permanente e que o amor deve ser a única razão desta união. Neste sentido, o homem e a mulher tornam-se imagens de Deus que é essencialmente amor.

Nesse amor, o casal será capaz de encontrar a luz e a força para superar os diversos obstáculos próprios do dia a dia da vida conjugal. A fidelidade permanente dá estabilidade ao casamento como instituição, fator essencial para a procriação.

Mesmo diante de projetos bem pensados e desejados, a vida humana carrega marcas de contradição. Nem sempre as pessoas, apesar de seu esforço e de sua boa vontade, conseguem ser fieis aos ideais prometidos.

Neste sentido, como comunidade cristã, devemos usar muita misericórdia e compreensão, sem cultivar o desejo de julgar aqueles que, por diferentes motivações e realidades, não conseguem cumprir o projeto de amor assumido. Em nenhuma circunstância, as pessoas divorciadas devem ser rejeitadas ou afastadas da comunidade cristã.

As crianças que Jesus nos apresenta no evangelho deste domingo são modelos a serem seguidos. Que em nossa simplicidade consigamos vencer tudo o que possa nos separar de Deus, do próximo e, como conseqüência, do Reino por ele desejado.

Nós rezamos na oração eucarística IV: “Nós proclamamos a vossa grandeza, Pai santo, a sabedoria e o amor com que fizestes todas as coisas: criastes homem e mulher à vossa imagem e lhes confiastes todo o universo, para que, servindo a vós, seu Criador, dominassem toda criatura. E, quando pela desobediência, perderam a vossa amizade, não os abandonastes ao poder da morte, mas a todos socorrestes com bondade, para que, ao procurar-vos, nos pudessem encontrar”.

Anunciando e proclamando este grande mistério, na celebração e na vida, renovamos nossa relação profunda com Deus, Uno e Trino, com as pessoas, com toda a criação e, de maneira particular, com os pequenos e pobres, como nos ensina Jesus no evangelho.

Enviado por D. Vilson Dias de Oliveira, DC – Bispo de Limeira

Posted by: | Posted on: setembro 29, 2012

Celebração do 26º Domingo do Tempo Comum – ano B

30 DE SETEMBRO DE 2012

 “Quem não está contra nós, está a nosso favor”

Leituras:

Números 11, 25-29;

Salmo 18 (19);

Tiago 5, 1-6;

Marcos 9,38-43.45.47-48.

COR LITÚRGICA: Verde

Muitas vezes julgamos que Deus só age dentro de uma instituição ou de um determinado grupinho. Esta idéia está errada. O grande projeto de Deus se realiza no círculo dos considerados “fieis seguidores” ou fora dele. Que possamos entender, no dia da BÍBLIA, que o bem não tem fronteiras e que Deus age em todo universo.

1. Situando-nos brevemente

Estamos celebrando o último domingo do mês de setembro. Neste dia, recordamos, de uma maneira toda especial, a Bíblia. Nenhum outro livro conseguiu ser traduzido em tantas línguas e chegar a tantos povos como a Bíblia, na qual encontramos a Palavra de Deus. Mesmo escrita há séculos, consegue ser sempre atual e importante para qualquer momento de nossa vida.

A liturgia deste 26º Domingo do Tempo Comum se apresenta com uma serie de ensinamentos, que manifestam a essência da Bíblia. Claramente, podemos ver, pelas palavras de Jesus, que ninguém pode autodenominar-se dono da verdade e muito menos se sentir como exclusivamente único na promoção do bem, em nome de Deus.

Temos que ser capazes de reconhecer e aceitar a presença e a ação do Espírito de Deus, através de tantas pessoas boas não pertencentes à nossa instituição, que talvez não pratiquem os mesmos ritos e devoções por nós praticados, nem professam a mesma fé, mas que também são sinais vivos do amor de Deus neste mundo.

2. Recordando a Palavra

O livro dos Números é um dos que compõem o Pentateuco, escrito provavelmente por Esdras e Neemias, ele registra as tradições herdadas por Moisés. É conhecido por este nome por fornecer uma lista de dados de cada tribo do Povo de Deus e relatar, de maneira especial, a rebeldia do povo hebreu contra Deus, por não ter o suficiente para comer.

Moisés estava cansado de liderar o povo hebreu sozinho, as dificuldades eram muitas e constantes. Não poucas vezes, o povo se desviou e passou a adorar e seguir outros deuses. Moisés começou a se sentir impotente e viu a necessidade de repartir a responsabilidade que estava sobre si.

Orientado por Deus, separou 70 anciãos, os quais, depois de ungidos pelo Espírito de Deus, o ajudariam a tarefa de conduzir o povo pelo deserto, compartilhando com ele os encargos da liderança. Esses anciãos eram os líderes dos grupos, das tribos, dos clãs.

O número setenta, dentro da tradição judaica, simboliza a totalidade. Isto significa que, entre esses 70 anciãos, havia representante de todos que ali estavam sob a liderança de Moisés. Os anciãos foram ainda mais respeitados, quando o povo soube que o mesmo “Espírito” que estava sobre Moisés, também sobre eles fora colocado. Desta forma, todos puderam profetizar, ministério antes exclusivo de Moisés.

Dos 70 anciãos, só sabemos o nome de dois. Eldad e Medad. Detalhe importante, pois significa que faziam parte do grupo, mas não estavam presentes no momento da recepção do Espírito. Quando também começam a profetizar, Josué crê se tratar de um abuso intolerável, que colocava em risco a hierarquia estabelecida.

No entanto, a resposta de Moisés é a resposta de quem não está preocupado com o controle e o poder, mas com a vida e a felicidade do seu povo: “Estás com ciúmes por causa de mim? Quem me dera que todo o povo fosse profeta e que o Senhor infundisse o seu Espírito sobre eles”.

Queriam proibir-lhes de falar só porque não estavam na tenda, quando o Espírito fora derramado. Será que só as profecias proferidas pelas pessoas que estavam no grupo eram verdadeiras: Deus não tem a liberdade de dar seus dons para a pessoa que quer? Para Moisés, quanto mais pessoas profetizarem, melhor!

A carta de Tiago chama a atenção dos ricos devido ao poder e ao dinheiro acumulados ilicitamente. Faz um convite aos ricos, talvez até um modo estranho: a chorar e gemer por causa das desgraças que estão por cair sobre eles.

O autor contempla o final dos tempos e descreve, com violência, a sorte que esperar aqueles cujo objetivo principal na vida foi o de acumular bens. Servirão eles para alguma coisa quando chegar o destino final?

Esses bens, nos quais os ricos depositam toda sua segurança e esperança, perderão o valor: “as vossas riquezas estão apodrecidas e as vossas vestes estão comidas pela traça. O vosso ouro e a vossa prata enferrujaram-se …” (v.v.2-3a) ou, ainda mais, as injustiças praticadas contra os pobres servirão como testemunha de acusação. O destino dos bens perecíveis é a destruição. Quem tiver os bens materiais como sua referencia primeira não terá acesso à vida plena.

Na segunda parte (vv. 4-6), o autor refere-se à origem desses bens acumulados pelos ricos. Não há dúvidas de que, neste caso, a riqueza provenha da exploração dos pobres. Como exemplo, o autor cita o não pagamento dos salários devidos aos trabalhadores que trabalharam nos campos dos ricos (vv.4).

Trata-se de um pecado que a lei condena veemente e que Deus castigará duramente, pois não pagar o salário do trabalhador é condenar à morte a ele e a toda sua família (vv. 6).

Naturalmente, Deus não pode compactuar com tal injustiça e, por isso, não ficará indiferente ao sofrimento do pobre e do oprimido. Os ricos, vivendo no luxo e nos prazeres à custa do sangue dos pobres, estão preparando para si próprios um caminho de castigo sem fim.

No evangelho, retomamos a temática da 1ª Leitura. Os discípulos, movidos possivelmente pelo ciúme, ou então por direito e privilégio autoconcedidos, proíbem uma pessoa que expulsava demônios de fazê-lo em nome de Jesus, simplesmente por esta pessoa não pertencer ao seu grupo.

Jesus parece nem se importar muito, mas confia que ninguém pode usar seu nome para o bem e, em seguida falar mal dele. Tão verdadeiro que o v.40 se tornou um ditado popular: “quem não é por nós, é contra nós”.

Aparentando um corte, logo em seguida Jesus começa outro assunto. No v. 41, afirma: “aquele que der um copo de água a um discípulo, por causa do meu nome, não ficará sem recompensa”. No v.42, repreende severamente qualquer tipo de escândalo: “é melhor amarrar uma pedra de moinho ao pescoço e se jogar no mar do que escandalizar um destes mais pequeninos”.

A partir do v.43, o tema continua sendo o escândalo. No entanto, trata-se do escandalizar a si mesmo. Disse Jesus: “se tua mão te leva à queda, corta-a! É melhor entrares na vida tendo só uma das mãos do que, tendo as duas, ires para o inferno, ao fogo que nunca se apaga”. A mão é símbolo de quem rouba o que os olhos cobiçam. Mais grave ainda, com ela podemos tirar a vida.

No v.45, afirma: “se teu pé te leva à queda, corta-o! É melhor entrar na vida tendo só um dos pés do que, tendo os dois, ser lançado ao inferno”. O pé é a imagem de quem opta e segue o caminho do mal, é por ele e com ele que podemos condenar nossa vida e a de outros.

Em seguida, no v.47, fala do olho: “se teu olho te leva à queda, arranca-o, pois é melhor entrar no Reino de Deus tendo um olho só do que ir com os dois ao inferno”. Os olhos representam aquele que cobiça, e que, por isso, causa a maioria dos males.

Em todos os três casos, está em jogo a gravidade de se perder a salvação.

3. Atualizando a Palavra

A liturgia deste domingo nos coloca, mais uma vez, no contexto do ensinamento de Jesus a seus discípulos, enquanto caminhava para Jerusalém. Apresenta alguns elementos importantes que precisam ser continuamente recordados. Tanto a primeira leitura quanto o evangelho nos recordam que Deus não é propriedade de ninguém. Nenhuma igreja, instituição ou hierarquia possui o monopólio do Espírito, nem pode contratá-lo e, muito menos, acorrentá-lo.

O Espírito, porém, está em todos aqueles que, pela prática dos valores ensinados por Jesus, estão abertos e dispostos a assumir o caminho que leva à verdadeira construção do Reino de Deus, que não é comida nem bebida, mas amor, paz, justiça, solidariedade, partilha.

Nossa comunidade deve ser capaz de promover o dialogo e saber valorizar as ações boas de outros grupos. Devemos fazer o bem, porque somos cristãos e a fé em Cristo nos leva a tal atitude, não porque ele ou ela pertencem ao nosso grupo.

Neste sentido, os discípulos se mostram um tanto limitados no entendimento do Reino. No domingo passado, estavam interessados em saber quem seria o maior. Hoje, demonstram fraqueza ao querer calar alguém que também faz o bem, mas não participa oficialmente do “grupo eleito”.

São dificuldades que fazem parte de nossa vida e do dia a dia de nossas comunidades e paróquias. A comunidade não pode ser uma seita nem nosso agir, simplesmente proselitista. Temos que aprender a reconhecer e nos alegrar com os gestos de vida que acontecem à nossa volta, mesmo quando esses gestos resultam da ação de não crentes (ateus como alguns se auto definem), ou de pessoas que não pertencem à instituição Igreja.

O verdadeiro cristão não tem inveja do bem que outros fazem, não sente ciúmes se Deus atua através de outras pessoas, mas esforça-se, cada dia, por testemunhar os valores do Reino e alegra-se com os sinais da presença de Deus em tantos irmãos que lutam por construir um mundo mais justo e fraterno.

É possível que, por trás dessa preocupação dos discípulos, não esteja o bem do próximo, mas interesses pessoas e até institucionais. A postura de Jesus evitou que a comunidade se fechasse em si mesma. Hoje poderíamos até dizer que sua orientação tendeu a um discurso ecumênico.

Para reafirmarmos essa postura, é interessante lembrar que, há 50 anos, o Concilio Vaticano II reconheceu a ação do Espírito Santo, no movimento pela unidade dos cristãos.

Em nossas comunidades, existem pessoas com qualidades exemplares, capazes de muitos gestos de doação, entrega e serviço ao próximo. Em contrapartida, porém, vemos outros que ainda mais querem proteger o espaço conquistado. Eles fazem de tudo para as coisas continuarem iguais e até mesmo, se considerarem necessário, afastar pessoas que poderiam qualificar nosso agir.

A parte seguinte do evangelho nos coloca diante do problema do escândalo dos pequenos na comunidade. É importante entender que “os pequenos” não são necessariamente as crianças, mas os excluídos, os pobres, os doentes, os órfãos, as viúvas e os estrangeiros.

Originariamente, o sentido da palavra “escândalo” significa “pedra de tropeço”. Então, ai de quem for essa pedra e for causa de tropeço. Ela pode ser até mesmo certas atitudes que não permitem o crescimento da comunidade. Esta é uma advertência especial aos líderes que são os primeiros responsáveis pela comunidade.

A radicalidade exigida por Jesus não deve ser considerada no âmbito físico. Usando imagens e linguagem tipicamente semitas, Jesus manda cortar e jogar fora tudo o que possa causar problemas, seja no contexto pessoal ou comunitário, mesmo se isso exigir uma atitude drástica, a fim de não sermos motivos de queda para ninguém.

4. Ligando a Palavra com a Ação Eucarística

A Eucaristia nos exorta e por ela aprendemos a não colocarmos em primeiro lugar os bens materiais, pois são passageiros e não asseguram a vida eterna, muito pelo contrário, podem ser causa, e na maioria das vezes o são, de injustiças, divisões e mortes.

A caminhada para Jerusalém, no Evangelho de Marcos, é um grande ensinamento de Jesus para quem quer segui-lo como discípulo. Passo a passo ele vai mudando o pensar dos discípulos, marcado pelos valores da sociedade vigente, e vai semeando os valores do Reino.

Hoje, ele nos desafia a praticarmos o verdadeiro ecumenismo, o diálogo inter-religioso, a aceitação do diferente e a revermos nosso modo de agir e pensar, para que a experiência cristã de comunidade seja uma amostra real dos valores do Reino de Deus.

O Espírito de Deus sopra onde quer, para quem quer e sobre quem quer. Não se deixa condicionar por normas ou interesses pessoais ou de grupos que queiram tirar vantagens. Como Moisés, estamos convidados a reconhecer a presença de Deus nos mais variados gestos proféticos de tantos que, em nome de princípios e da própria fé, são capazes de ser um sinal de vida nova.

Cristo oferece-se livremente como vítima de “reconciliação”. Participando do seu mistério pascal, nós nos reconciliamos conosco, com os outros e com o mundo.

Em sua Exortação Apostólica, o papa Bento XVI afirma: “… as nossas comunidades, quando celebram a Eucaristia, devem conscientizar-se cada vez mais de que o sacrifício de Jesus é para todos; e assim, a Eucaristia impele todo o que acredita nele a fazer-se ‘pão repartido’ para os outros e, consequentemente, a empenhar-se por um mundo mais justo e fraterno” (Sacramentum Caritatis, n.88).

E o Papa continua: “Não podemos ficar inativos perante certos processos de globalização que, não raro, fazem crescer desmesuradamente a distância entre ricos e pobres em âmbito mundial. Devemos denunciar quem dilapida as riquezas da terra, provocando desigualdades que bradam ao céu (cf. Tg 5,4)…” (Sacramentum Caritatis, n.90).

Participar da mesa, na qual o alimento da verdade é repartido “leva-nos a denunciar as situações indignas da pessoa humana, nas quais se morre à míngua de alimentos, por causa da injustiça e da exploração, e dá-nos nova força e coragem para trabalhar, sem descanso, na edificação da civilização do amor …” (Sacramentum Caritatis, n.90).

 Enviado por D. Vilson Dias de Oliveira, DC – Bispo da Diocese de Limeira

Posted by: | Posted on: setembro 22, 2012

25º DOMINGO TEMPO COMUM – ANO B

23 DE SETEMBRO DE 2012

“Quem é o maior?”

Leituras: Sabedoria 2, 12.17-20; Salmo 53 (54); Tiago 3, 16-4,3; Marcos 9, 30-37.

COR LITÚRGICA: Verde

Nesta Eucaristia Jesus nos mostra que a grandeza da sociedade não está na riqueza e nem no poder, mas no serviço sem pretensão e interesse. Este serviço faz com que cada um de nós nos tornemos servos uns dos outros, pois para Deus não somos maiores ou menores, somos todos iguais.

1. Situando-nos brevemente

Animados pela celebração do mês da Bíblia, na qual encontramos a palavra por excelência, que se diferencia das que normalmente ouvimos, queremos orientar nosso agir tentando entender, a cada domingo, o que Deus nos fala. À medida que nos aproximamos do Tempo Comum o anúncio da Paixão é uma realidade muito próxima.

A liturgia deste domingo apresenta a palavra como luz para nossa vida e nos coloca diante de duas realidades que, continuamente, nos interpelam e exigem nossa opção: a “palavra do mundo” e a “palavra de Deus”. Convida-nos a pensar no modo como nos situamos na comunidade cristã e na sociedade e até que ponto esta palavra é capaz de orientar nosso agir.

Jesus denuncia e pede que tenhamos cuidado com o poder com as tentativas de domínio sobre os outros, com os sonhos de grandeza, com as manobras para conquistar honras, lucros e privilégios, com a busca desenfreada por títulos e posições de prestígio, pois são atitudes que revelam uma vida segundo a “palavra do mundo”.

Jesus nos convida a uma opção de vida que manifeste o que ele mesmo é, tendo nos deixado como testamento: um coração simples e humilde, capaz de amar e acolher a todos em especial os excluídos, sem necessidade de retribuição e reconhecimento público.

Não há meio termo, Jesus é claro e exigente: quem quiser segui-lo deve acolher sua proposta e, consequentemente, seus desafios. Como Igreja devemos estar dispostos a testemunhar nossa fé por meio de atitudes que manifestem a verdadeira palavra que é Caminho, Verdade e Vida.

2. Recordando a Palavra

O texto do livro da Sabedoria que nos é proposto, na 1ª Leitura deste domingo, reflete o destino dos justos e o dos ímpios. O autor apresenta os raciocínios dos que se identificam com a lógica incoerente dos ímpios, destacando principalmente suas manifestações de desprezo para com os justos.

Pode-se perfeitamente ver uma crítica às atitudes incoerentes dos ímpios, mostrando que suas condutas corruptas e imorais manifestam uma vida fundamentada na autossuficiência, no egoísmo, em valores que privilegiam o ter, colocando em primeiro lugar a ambição e o poder, prescindindo da presença de Deus.

Mostra que não há sentido na conduta dos ímpios, pois suas atitudes geram violência, divisão, conflito, infelicidade, escravidão e morte. Assim, o autor convoca a uma vida fundada na justiça e a firma valer a penas ser justo e manter-se fiel aos valores da fé até o fim.

Na segunda leitura, Tiago, depois de convidar os cristãos à autenticidade e à coerência da fé, enumera alguns aspectos que precisam de atenção por parte dos que crêem. Estes aspectos dizem respeito aos dois tipos de palavras já mencionados.

O cristão, pelo Batismo, faz sua opção de seguir Jesus Cristo. Assume uma postura de vida fundamentada em valores que são próprios da palavra de Deus, em contradição aos diferentes valores chamados “do mundo”: “inveja, rivalidade, desordem, guerra e toda a espécie de más ações” (Tg 3,16).

A pessoa, assumindo valores que não são de Deus, fica dividida e, automaticamente, divide a comunidade, levando-a para a destruição. São Tiago convoca a um sério exame de consciência, propondo uma mudança na maneira de pensar a própria vida.

O evangelho segue a mesma lógica. Neste sentido é interessante unir a primeira parte do evangelho com a primeira leitura e a segunda parte com a segunda leitura, ou seja, para o “mundo”, ser o primeiro, o maior, significa ser o mais importante, aquele que, frente aos demais, procura uma posição de destaque. Para “Deus”, nas palavras de Jesus, maior é aquele que se coloca a serviço: “Quem quiser ser o primeiro será o último de todos e o servo de todos”.

Mesmo diante de uma possível morte, as palavras de Deus deixam transparecer a tranquilidade própria de quem sabe aonde vai, da missão que recebeu e a serena aceitação destes fatos que irão se concretizar num futuro muito próximo.

Jesus tem consciência da missão que recebeu do Pai e está disposto a levá-la até o fim, mesmo se isto significa uma morte humilhante na cruz. Ensinamento fundamental para os que querem seguir a Cristo e participar na construção de um mundo novo. Desanimar, parar, não ser fiel ao proposto e assumido não constrói nada.

Diante do anúncio da Paixão, o silêncio toma conta dos discípulos que não entendem e tem medo de perguntar. Não entendem que o caminho da vida passará necessariamente pela morte. Como entender que o aparente fracasso possa ser sinal de vitória e a morte marco de uma nova vida?

Mas o ensinamento central de Jesus parte da pergunta aos discípulos: “que discutíeis pelo caminho?” Ele sabe do que se trata, mas quer ouvir deles, de suas próprias bocas, qual era o verdadeiro interesse de seus corações, o objetivo principal do seguimento. A cena mostra que é na intimidade com ele que vamos aprendendo certas coisas com relação à palavra. Não serão chavões, manchetes, slogans sobre Jesus que nos farão entender o que Deus quer de nós.

3. Atualizando a Palavra

Os “ímpios” descritos pelo autor da 1ª leitura são os que, além de não aderirem aos valores de Deus, ainda zombam dos costumes e dos valores religiosos, por considerarem essas práticas religiosas inadequadas para os dias de hoje, ou seja, não compatíveis com a modernidade.

Os justos, com sua prática de vida, acabam por ser uma espécie de empecilhos aos ímpios que se sentem continuamente questionados. Estes reagem, atacando os justos e colocam Deus a prova para ver até onde ele permite o sofrimento dos que o temem.

O Livro da Sabedoria nos oferece uma palavra de ânimo, muito oportuna para nossos dias, pois todo justo será recompensado e sua vida experimentará a plena e definitiva vida que Deus reserva para aqueles que escutam suas palavras, aceitam seus desafios, trilham seus caminhos e se comprometem com a construção de um mundo mais fraterno, lutando pela justiça e pela paz.

Quem optar viver segundo a “palavra de Deus” não terá facilidades, nem viverá em um romantismo mágico pelo qual tudo acabará em alegrias e grandes realizações. Estará, porém, sujeito a críticas, a perseguições, a incompreensões e até ao próprio fracasso. Entretanto não serão as situações contrárias que farão com que desanimemos na prática da justiça.

O texto que nos é proposto na carta a São Tiago leva o cristão a fazer uma sincera análise sobre as origens das discórdias que destroem a verdadeira vida das comunidades cristãs. O autor exorta a comunidade para que não perca os valores cristãos autênticos e coloque em prática a palavra de Deus, que se encontra, de maneira privilegiada, em Jesus Cristo, fazendo de suas vidas um dom de amor aos irmãos, traduzido em gestos concretos de partilha, serviço, solidariedade e fraternidade.

Vigiemos para que nosso coração não esteja ocupado por ambições, invejas, orgulhosos, competição, egoísmo, que nada mais criam que divisões e nos impedem de entrar na vida plena.

Jesus teve dificuldade de fazer com que entendessem. Ainda hoje podemos ter essa mesma dificuldade. Não temos tempo para saborear e entender a palavra de Deus, pois nossas preocupações podem estar sobre outras realidades.

Será que não ficamos falando tantas coisas que não são tão importantes ou fundamentais? Por isso, a dinâmica de Jesus é muito importante: sentou-se, chamou mais perto, tomou a criança como exemplo… Sempre vai educando os discípulos sobre que tipo de messias é e como quer que sejam os que se dispõem a segui-lo. O evangelho é um contínuo ensinamento, mas a cegueira dos discípulos persiste. Quem quiser segui-lo deve dispor-se a servir.

Assim como no tempo de Jesus, o interesse de saber quem é o maior toma conta de muitas rodas de conversar e orientam as ações de muitas pessoas hoje, determinando as prioridades e os investimentos.

Neste dia, cabe uma pergunta: em que estamos investindo nosso tempo, nossas energias, nosso dinheiro, enfim, nossa própria vida? Em realidades passageiras que, aparentemente, podem ser importantes, pois vivemos em uma sociedade capitalista e imediatista, ou em ações que conscientemente constroem pessoas, famílias e um mundo que proporcione o prazer de uma vida integral?

Jesus nos convida a abandonarmos nossos sonhos egoístas e orientarmos nosso agir para a essência de sua proposta.

No Reino de Deus não há uma escala hierarquizada de pessoas que possam ser umas mais importantes que as outras, mas há uma proposta de amor que se realiza no próximo. Algo difícil para nossos dias. O próximo, neste caso, está simbolizado pela criança que é sinal dos que são os últimos.

Assim, a proposta de Cristo deve começar pelos que são últimos: os sem direitos, os fracos, os pobres, os indefesos, os facilmente manipulados, tal como eram as crianças em seu tempo. O maior é aquele que ama e serve.

4. Ligando a Palavra com a Ação Eucarística

A Eucaristia celebrada nos leva a atualizar, em nossa vida, os mesmos ensinamentos deixados por Jesus aos discípulos na “caminhada para Jerusalém”. Ensina que os valores do Reino são os gestos concretos e que o projeto do Pai não passa por esquemas de poder e de domínio.

A ação litúrgica é múnus, serviço de Jesus Cristo para glorificação do Pai e salvação da humanidade. Em cada celebração eucarística, ele se faz Servo e se doa inteiramente para que “nos tornemos um só corpo e um só espírito”, “um só povo em seu amor”.

Com Cristo, o ministro, em nome da assembléia agradece ao Pai: “E vos agradecemos porque nos tornastes dignos de estar aqui na vossa presença e vos servir”; serviço de louvor agradável a Deus, que se expressa no empenho leal no serviço aos irmãos desanimados e oprimidos.

Na celebração eucarística, cada dia Jesus levanta-se da mesa, cinge a cintura com uma toalha, lava os pés de seus discípulos (cf. Jo 13, 1-5) e nos transforma em testemunhas da esperança e fonte de unidade e de salvação para muitos.

O interesse autêntico e sincero pelos problemas da sociedade, que nasce da solidariedade para com as pessoas, é sinal privilegiado do seguimento daquele que veio para servir e não para ser servido. Uma comunidade insensível às necessidades dos irmãos e à luta para vencer a injustiça é um contratestemunho, e celebra indignamente a própria liturgia.

Na Eucaristia, Deus manifesta a forma extrema do amor, que derruba todos os critérios de domínio que regem as relações humanas e afirma de modo radical o critério do serviço: ”Se alguém quer ser o primeiro, seja o último de todos e o servo de todos!” (Mc 9,35).

Neste 25º Domingo, em que relembramos a discussão dos discípulos sobre qual deles era o maior, e fazemos memória da entrega total de Jesus ao Pai, que veio para servir, fazendo-se menor entre os pequenos, o Espírito Santo renova em nós a certeza de que não seremos confundidos em nossa esperança.

Ele faz passar de uma mentalidade triunfalista e prepotente para a busca do verdadeiro poder que vem de Deus e que nos leva a viver a alegria do serviço gratuito aos pobres.

Enviado por D. Vilson Dias de Oliveira, DC – Bispo da Diocese de Limeira

Posted by: | Posted on: setembro 18, 2012

O ímpio e o justo

O ímpio tem uma lógica contra a vontade de Deus. Ele não se preocupa com o bem comum. Seu objetivo é satisfazer desejos egoístas, contrapõe-se ao modo de pensar e de proceder da pessoa justa, inclusive perseguindo-a em suas atividades. O justo teme a Deus e faz tudo respeitando os direitos e a justiça com as pessoas.

A inveja e as preocupações egoístas causam desordens e todo tipo de más ações na vida. É a prática dos injustos, dos hostis às leis e contrários aos princípios orientadores de Deus. Reina a prepotência, a afronta ao justo com calúnias, perseguições, podendo chegar até à morte. As consequências muitas vezes são drásticas.

Não é fácil a mudança de mentalidade de quem passou por um tipo de formação que marcou profundamente o seu modo de agir. Sendo na ambição pelo poder, uma mudança vai depender de exigências fortes. Pois, a ideologia dos poderosos é atraente. Com isto a prática do serviço ao outro é trocada por disputas egoístas.

Na visão cristã, seguindo as orientações de Jesus, podemos dizer com o Evangelho: “Se alguém quer ser o primeiro, seja o último de todos e o servo de todos” (Mc 9, 35). Entre o ímpio e o justo existe uma grande distância, que só vai ser superada quando houver abandono do “ser maior”, tornando-se “servidor” das pessoas.

Devemos entender que a sabedoria vem do alto, vem de Deus como proposta justa para uma boa convivência e respeito entre as pessoas. As diferenças egoístas causam insatisfação, sofrimento, lutas, guerras, cobiças, insensatez etc. Como podemos sonhar com um mundo fraterno se existem atitudes injustas por todo lado!?

Podemos nos orientar através de duas lógicas, a do ímpio, ou a do justo. Isto fica evidente no nosso modo normal de proceder. Sabemos da dificuldade de ser justo numa sociedade marcada por tantos sinais de corrupção, de injustiças e de morte. Aí não está o reino da sabedoria que vem do alto, não é o Espírito de Deus como fonte do bem.

Dom Paulo Mendes Peixoto – Arcebispo de Uberaba.

 

Posted by: | Posted on: setembro 15, 2012

Celebração do 24º Domingo do Tempo Comum – Ano B

16 DE SETEMBRO DE 2012

“Se alguém me quer seguir, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e me siga” (Mc 8,34)

Leituras: Isaías 50, 5-9a; Salmo 114 (115); Tiago 2, 14-18; Marcos 8, 27-35.

COR LITÚRGICA: Verde

Jesus é um messias diferente, pois anuncia a sua Paixão. Confia totalmente no seu Pai, por isso enfrenta todos os desafios de sua missão: incompreensão, perseguição, solidão e morte. Assim quem se comprometer com Jesus entra no caminho da vida no qual está presente a morte e a ressurreição.

1. Situando-nos brevemente

O mês da Bíblia que estamos trilhando, instituído em 1971, tem como meta instruirmos fiéis sobre a Palavra de Deus e difundir o conhecimento das Sagradas Escrituras. Já dizia São Jerônimo que ignorar as Escrituras é ignorar o próprio Cristo.

A implantação desse mês temático colaborou na aproximação do Povo de Deus com a Bíblia. Cresce a consciência e o esforço para a necessária animação bíblica de toda a pastoral. Propondo o estudo e a reflexão do Evangelho de Marcos para este mês, a Igreja deseja reforçar a formação e a espiritualidade de seus agentes e fiéis, no seguimento de Jesus Cristo.

Na caminhada litúrgica que fazemos, nos reunimos para celebrar a Eucaristia no 24º domingo do Tempo Comum, em que os discípulos de Jesus são interrogados pelo Mestre sobre quem dizem que ele é. Pedro responde categoricamente: “Tu és o Messias!” A partir do contato que estamos tendo com o Evangelho de Marcos, o que podemos afirmar da identidade de Jesus? Certamente já temos respostas muito oportunas.

2. Recordando a Palavra

No evangelho de hoje, Jesus, saindo para além das fronteiras da Galileia, ao norte, realiza com os discípulos um levantamento de como está a compreensão das pessoas e dos discípulos a respeito dele mesmo. Ouve as respostas, mas proíbe-lhes severamente de falarem a alguém a seu respeito. Eis um episódio no mínino curioso. Depois fala abertamente a respeito de sua paixão, morte e ressurreição.

Pedro reage tomando Jesus à parte para repreendê-lo. Jesus, voltando-se, olha para os discípulos e repreende Pedro: “Vai para longe de mim, Satanás! Tu não pensas como Deus, e sim como os homens”.  Em seguida, reúne a multidão juntamente com os discípulos e lhes diz: “Se alguém me quer seguir, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e me siga”. A renúncia de si mesmo, a cruz e o seguimento integram a vida e a missão dos discípulos missionários de Jesus Cristo.

Como Jesus pôs em prática sua missão? Assumiu-a com confiança no Pai. Assim como o “servo de Javé”, assumiu-a com docilidade e obediência. Confiante em seu Auxiliador, o “servo de Javé”, resiste, não desanima, porque ao seu lado está o Senhor Deus, Aquele que o justifica.

A fé, nos lembra São Tiago, se não se traduz em obras, por si só está morta. O que cremos, celebramos e rezamos precisa ser comprovado na prática. Nossas atitudes, nossos gestos e realizações expressam a maturidade de nossa fé.

3. Atualizando a Palavra

Na semana que passou, celebramos a Festa da Exaltação da Santa Cruz e a Festa de Nossa Senhora das Dores. O sofrimento é uma coisa que os homens e mulheres de nosso tempo procuram, de muitos modos, diminuir, abreviar e até eliminar. O que dizer então do luto? Abreviam-se, em geral, cada mais o tempo dos velórios, misturam-se elementos diversos para tornar esses momentos o menos traumático possível.

O salmo 114 (115) expressa a confiança em Deus que é amor-compaixão. O senhor liberta a vida da morte, enxuga dos olhos o pranto e os pés do tropeço. Qual o limite de nossa confiança em Deus? Além das palavras do salmista, a liturgia deste domingo nos apresenta as palavras do “servo de Javé” e o primeiro anúncio da Paixão feito por Jesus.

O Evangelho que hoje ouvimos constitui a parte central do Evangelho de Marcos. Jesus, no caminho, interroga os discípulos para saber o que o povo e eles mesmos conseguiram entender a seu respeito. Depois de ouvir aquilo que é opinião do povo, dirige-se diretamente a eles. Pouco antes, Jesus os repreendera porque estavam como que cegos, que “tem olhos, mas não vêem” (8,18), e seus corações endurecidos não lhes permitem entender sua verdadeira identidade.

Pedro é muito exato em sua resposta: “Tu és o Messias”. A imposição do silêncio por parte de Jesus se deve, certamente, à idéia distorcida que Pedro e os demais discípulos têm a seu respeito, o que se comprova mais adiante na outra reação de Pedro.

Jesus, anunciando sua Paixão, o modo como o Pai realizará N’Ele sua obra salvífica, deseja eliminar todo mal-entendido. Vejamos se também nós, ao basearmos o crescimento do Reino de Deus em fama, triunfo, aplausos alcançados, templos cheios, não estamos seguindo os critérios dos homens.

Quais seriam as palavras de Jesus para nós, seus discípulos hoje?

4. Ligando a Palavra com a Ação Eucarística

Sob o olhar misericordioso de Deus, criador de todas as coisas, experimentamos constantemente em nós a sua proteção. A ação de seu amor é mais profundamente sentida, quando o servimos de todo o coração em nossos irmãos e irmãs.

Nossa fé, como a dos discípulos, é fraca, mas Jesus não desiste. A cada domingo, ele nos reúne junto dele, comunica-nos sua Palavra e nos torna, como seus seguidores, companheiros de caminhada em direção à cidade de Jerusalém, onde o mistério da cruz será revelado em todo o esplendor, de tal forma que podemos cantar: “Caminhamos na estrada de Jesus”!

Celebrando a memória de seu sofrimento, morte e ressurreição, Jesus nos associa à sua cruz redentora, apesar de nossas cegueiras e fragilidades na prática das obras da fé. Hoje, torna-se cada vez mais pesada a cruz do testemunho autêntico de fé e do seguimento.

Em muitos ambientes sociais, é pesada a cruz do testemunho autêntico de fé e de seguimento. Em muitos ambientes sociais, é pesada a cruz da identidade da fé católica; a cruz dos conflitos familiares; a cruz das intrigas entre lideranças; cruz da incerteza e da carência de dignas condições de vida; a cruz da fome, do desemprego, da falta de saúde, da exclusão.

Na ceia eucarística, tomamos parte na ceia do Cordeiro que, morrendo, destruiu a morte e, ressurgindo , deu vida nova a todos. Jesus, conduzido ao matadouro, é o Messias não violento. A assembléia que se reúne para celebrar a Eucaristia é, ela mesma, a reunião do povo que, por força da fé, se empenha nas causas da não violência e da concórdia entre as pessoas. É o povo que o Cristo resgatou quando, por sua morte, destruiu o muro que separava o povo pagão e o povo judeu e assim estabeleceu a concórdia (cf. Ef 2,14-18).

Participar da mesa, comer do pão e beber do cálice, Corpo e sangue do Senhor, entregue por nós, é participar de seu destino: do sofrimento, da morte na cruz e da glória da ressurreição. “O cálice da benção pelo qual damos graças é a comunhão no Sangue de Cristo; e o pão que partimos é a comunhão no Corpo do Senhor” (Antífona da comunhão).

 Enviado por D. Vilson Dias de Almeida, DC – Bispo da Diocese de Limeira

Posted by: | Posted on: setembro 1, 2012

Celebração do 22º Domingo Tempo Comum – ano B

02 de setembro de 2012

“Recebei com humildade a Palavra que em vós foi implantada” (Tg 1,21b)

Leituras: Deuteronômio 4, 1-2.6-8; Salmo 14 (15); Tiago 1, 17-18.21b-22.27; Marcos 7, 1-8.14-15.21-23.

COR LITÚRGICA: Verde

Que a celebração de hoje não seja apenas um conjunto de gestos e palavras que fazemos e dizemos com os lábios, mas o louvor que brota de nossos corações agradecidos pela misericórdia de Deus em nosso favor, apesar de nossas infidelidades. Peçamos de um modo especial ao Pai pela nossa Pátria, para que a “independência” possa ser uma realidade em nosso país.

1. Situando-nos brevemente

Nesse primeiro domingo no mês de setembro, com toda a Igreja no Brasil, queremos destacar e valorizar ainda mais a Bíblia, o livro da Palavra de Deus. Para este mês temático, a Igreja no Brasil propõe o aprofundamento do Evangelho de Marcos. Que seja um mês de muito proveito para todos!

Em cada Celebração Eucarística, o Senhor nos convida para participarmos das mesas da Palavra e da Eucaristia, estreitando assim os laços que nos unem a Ele e aos irmãos e irmãs. Nossa semana é marcada pelo encontro com Deus e com os irmãos, no Dia do Senhor.

“O Domingo é o dia em que a família de Deus se reúne para escutar a Palavra e repartir o Pão consagrado, recordar a ressurreição do Senhor na esperança de ver o dia sem ocaso, quando a humanidade inteira repousar diante do Pai” (CNBB, Guia Litúrgico-Pastoral. 2ª Ed. Brasília: Edições CNBB, 2007, p.9).

Ainda no decorrer dessa semana, celebraremos o dia de nossa Pátria. São inúmeras as situações que nos desafiam na construção de uma pátria verdadeiramente livre e para todos.

2. Recordando a Palavra

Após o discurso do Pão da Vida (João 6), retornamos ao Evangelho de Marcos. Domingo passado, os discípulos, que escutavam Jesus, disseram: “Esta palavra é dura. Quem consegue escutá-la?” Diante dos ‘murmúrios’ dos discípulos e do fato de muitos deles terem voltado atrás e não andarem mais com ele, Jesus disse aos doze: “Vós também quereis ir embora?“ Simão Pedro, em nome do grupo, respondeu: “A quem iremos, Senhor? Tu tens palavra de vida eterna. Nós cremos firmemente e reconhecemos que tu és o Santo de Deus”.

Hoje, Jesus se encontra diante de fariseus e mestres da Lei, enviados de Jerusalém à Galileia para observá-lo, juntamente com seus discípulos. Jesus é questionado pelo fato de alguns de seus discípulos comerem o pão com as mãos impuras, descumprindo assim a tradição dos antigos.

A resposta de Jesus, citando o profeta Isaías, se dá num tom acusatório: “Vós abandonais o mandamento de Deus para seguir a tradição dos homens”. Dirigindo-se à multidão, Jesus chama a atenção de que o torna o homem impuro não é o que entra nele vindo de fora, mas o que sai de seu interior. “De dentro do coração humano” é que saem todas as coisas que tornam o homem impuro.

A primeira leitura é de uma parte do livro do Deuteronômio, escrita na Babilônia, durante o exílio de Israel. Israel perdera a liberdade, a honra, a terra de seus pais, o templo onde prestava culto a seu Deus e recorda saudoso o tempo do reinado de David e de Salomão, quando era uma grande nação. Mas nem tudo estava perdido. Restava-lhe um precioso dom de Deus: a Lei.

Moisés falou ao povo, dizendo: “Agora, Israel, ouve as leis e os decretos que eu vos ensino a cumprir, para que, o fazendo, vivais e entreis na terra prometida pelo Senhor Deus de vossos pais. Nada acrescenteis, nada tireis, à palavra que vos digo, mas guardai os mandamentos do Senhor vosso Deus que vos prescrevo. (…) neles está a vossa sabedoria e inteligência perante os povos” (Dt 4, 1-2.6).

A proximidade de Deus e a justiça de suas leis e decretos tornam Israel conhecido e admirado perante os outros povos.

Como assembleia reunida em nome do Senhor, cantamos com o salmista: Senhor, quem morará em vossa casa e no vosso monte santo, habitará? O próprio salmo nos aponta uma resposta: É aquele que caminha sem pecado e pratica a justiça fielmente; que pensa a verdade no seu intimo e não solta em calúnias sua língua.

Durante cinco domingos, na 2ª Leitura, acompanharemos textos da carta de São Tiago. Trata-se de uma obra muito rica em conselhos práticos. O tema de hoje refere-se à Palavra de Deus. Tiago convoca sua comunidade e todos nós com estas palavras: Recebei com humildade a Palavra que em vós foi implantada, e que é capaz de salvar as vossas almas. Todavia, sede praticantes da Palavra e não meros ouvintes, enganando-vos a vós mesmos.

Aponta para a necessária docilidade à Palavra. Não é suficiente, contudo, a escuta atenta. Faz-se necessário “praticar a Palavra”. A religião pura e sem mancha diante de Deus Pai, nos diz ainda, consiste em assistir os órfãos e as viúvas em suas tribulações e não se deixar contaminar pelo mundo. A escuta da Palavra de Deus, portanto, deve despertar o comprometimento com as pessoas mais necessitadas.

3. Atualizando a Palavra

A palavra que ouvimos na celebração de hoje é uma palavra que liberta e que comunica vida. A escuta e o cumprimento da lei de Deus são apresentados como um caminho de vida e libertação. Jesus corrobora isso, ensinando que é o esquecimento do mandamento de Deus e o apego às tradições dos homens o que perverte o coração humano.

Os fariseus e alguns mestres da lei se aproximaram e se reuniram em torno de Jesus, observando-o. Também nós, tantas vezes por tantos motivos, nos reunimos em torno de Jesus. De que modo observamos a prática de nossos semelhantes, discípulos de Jesus Cristo? Acaso nos consideramos fieis cumpridores de sua palavra? Que direito isso nos dá de julgarmos as atitudes de nossos semelhantes?

Longe dos seguidores e seguidoras de Jesus deve estar todo tipo de culto exterior e vazio! Ouvir e praticar são o refrão que se repete, constantemente, na liturgia de hoje.

Israel era um povo admirado pelas demais nações por ter um Deus tão próximo e uma lei tão justa. E nossas comunidades cristãs, porque motivos são admiradas e respeitadas? Realizamos, através das comunidades e de outras organizações, coisas importantes para os indivíduos e para a sociedade, em diversos campos como os da educação, da saúde e da assistência social? As atividades subsidiárias um dia podem não serem mais necessárias. Então, o que sobrará para essas organizações? Restará sempre o tesouro mais valioso que é a Palavra de Deus, o Evangelho.

4. Ligando a Palavra e a Eucaristia

A Palavra ouvida se faz presença na ação eucarística! Aquele que é anunciado, proclamado na Palavra, se torna presença na Eucaristia.

“Todo dom precioso e toda dádiva perfeita vêm do alto; descem do Pai das luzes”, nos diz São Tiago. Ao celebrarmos a Eucaristia, reconhecemos que tudo o que é bom provém de Deus. Manifestamos o nosso desejo de que ele mesmo alimente, em nós, o que é bom, para assim guardamos aquilo que dele recebemos.

Com nossos corações inundados pelo amor de nosso bom Deus e de laços estreitados com ele, pela escuta atenta de sua Palavra, nos unimos ainda mais ao participarmos da mesa do Corpo e do Sangue do Senhor. Mergulhamos mais perfeitamente nessa comunhão, quando a Eucaristia alimento da caridade, nos faz reconhecê-lo e servi-lo em nossos irmãos e irmãs.

“De fato, o cristão não só celebra a Eucaristia, mas também deve ter uma vida eucarística, prolongando seu mistério e seu dinamismo, ou convertendo em obras de caridade e de justiça o que celebrou no sacramento, anunciando e testemunhando no mundo e na sociedade aquele amor de entrega, aquela solidariedade e novidade que experimenta na reunião eucarística” (Texto do Congresso Eucarístico de Sevilha, n.32).

Enviado por D. Vilson Dias de Oliveira, DC – Bispo da Diocese de Limeira