Cristo Rei

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Posted by: | Posted on: novembro 25, 2012

Celebração do 34º Domingo Tempo Comum – ano B

25 DE NOVEMBRO DE 2012

“Venha a nós o vosso Reino!”

Leituras:

Daniel 7, 13-14;

Salmo 92 (93), 1ab.1c-2.5;

Apocalipse 1, 5-8;

João 18, 33b-37.

COR LITÚRGICA: branca

Neste último domingo do ano litúrgico celebramos a festa de Cristo Rei do Universo. O Reino de Deus é um projeto de vida oferecido à humanidade, já neste mundo, e não somente para depois da morte. Aceita-lo é assumir o projeto de Deus rejeitando o que se opõe à verdade. Hoje é também o “Dia do Leigo” chamado à missão profética, sacerdotal e real de Cristo para transformar o mundo no “reino da santidade e da graça, reino da justiça, do amor e da paz”.

1. Situando-nos brevemente

Com a solenidade de Jesus Cristo, Rei do Universo, encerramos o Ano Litúrgico. Jesus Cristo é o Alfa e o Ômega, o começo e o fim da história da salvação.

A festa de Cristo Rei foi instituída, como celebração litúrgica, pelo Papa Pio XI em 1925. O Papa fixou o último domingo de outubro como data da festa de Cristo Rei, tendo em vista, sobretudo, a festa subseqüente de Todos os Santos, “a fim de que se proclamasse abertamente a glória daquele que triunfa em todos os santos eleitos”.

A reforma litúrgica do Vaticano II transferiu a data do último domingo de outubro para o último domingo do Tempo Comum. Desse modo, concedeu à celebração um significado mais amplo, sublinhando a dimensão escatológica do reino em sua consumação final. Com esta mudança, Cristo aparece como centro e senhor da história, Alfa e Omega, Princípio e Fim (cf. Ap 22, 12-13).

É a Festa do Cristo “Kyrios”. “O Cordeiro que foi imolado é digno de receber o poder, a divindade, a sabedoria, a força e a honra. A ele glória e poder através dos séculos” (antífona da entrada).

A Igreja no Brasil comemora hoje o dia dos leigos, os missionários do Reino de Deus nas diferentes áreas e atividades que tecem a vida humana, religiosa e social. Louvamos a Deus por tantas mulheres e homens que vivem profundamente sua vocação batismal, colocando-se inteiramente a serviço da Boa Nova, anunciada, vivida e celebrada.

Neste último domingo do ano litúrgico, louvemos e agradeçamos ao Senhor por todas as graças e bênçãos recebidas de sua bondade, ao longo da caminhada do ano que passou. Hoje, em todas as dioceses do Brasil, fazemos a abertura da Campanha para a Evangelização, que é realizada no 3º domingo do Advento.

2. Recordando a Palavra

O Evangelista João situa a realeza de Jesus Cristo no relato da Paixão para evidenciar o modelo de sua realeza, em total contraste com os outros modelos. Jesus é rei, porém, de modo diferente das demais formas de poder.

O diálogo de Pilatos com Jesus dá início ao evangelho deste domingo. Jesus, depois ser interrogado e rejeitado pelo poder religioso, é conduzido ao governador romano Pôncio Pilatos, representando o poder político de então. “Tu és o rei dos judeus?” (v.33). À pergunta do governador Jesus responde, indagando: “Você diz isso por si mesmo, ou foram outros que lhe disseram isso a meu respeito?”

Os judeus desejam conseguir de Pilatos a condenação capital para Jesus: declarando-se rei, Ele se colocaria em oposição a César. O governador teria que condená-lo se não quisesse perder os favores do imperador romano. Eximindo-se de qualquer responsabilidade, Pilatos quer se inteirar sobre o que Jesus fez para ser entregue ao poder romano. “O que fizeste”? Jesus não responde, mas retoma a resposta da pergunta anterior: “O meu reino não é deste mundo”.

Esta afirmação nem sempre foi interpretada. Ela não quer dizer que o Reino de Jesus não se preocupa com as coisas da terra, ou que os cristãos não devam se preocupar com as coisas do mundo. Quando Jesus diz – “o meu reino não é deste mundo” – ele revela sua procedência e não seu lugar de atuação. Jesus rejeita todo tipo de realeza que tenha como base a força e o poder. “Meu Reino não é daqui”.

Estranhando a realeza de Jesus e sem saber direito o que perguntar, Pilatos reconhece: “Então tu és rei?” Na visão do governador, como pode ser rei alguém que não tem exércitos, armas, riquezas e ambições políticas? A postura de Jesus, condenado à morte, solitário e fraco, pobre e despojado de qualquer poder questiona os dogmas do império e inquieta seus governantes.

“Você está dizendo que eu sou rei. Eu nasci e vim ao mundo para dar testemunho da verdade …” (v.37). Jesus é um rei diferente dos poderosos do mundo. Sua resposta a Pilatos revela a função de sua realeza: dar testemunho da verdade, sendo fiel à vontade do Pai até as últimas conseqüências, isto é, a morte da cruz.

E “o que é a verdade?” (v.38), pergunta Pilatos. Jesus se cala! A palavra hebraica para designar a verdade é emeth que significa “fidelidade plena”. A realeza de Jesus se exerce no domínio da verdade isto é, na fidelidade ao projeto do Pai e não na mentira, no ódio, na opressão, próprios dos reinos terrenos. A verdade é a revelação do ser de Deus, que é amor.

A segunda leitura é tirada do início do livro do Apocalipse. É um livro escrito para animar as comunidades perseguidas. Na leitura de hoje nos é apresentada uma síntese da vida e da ação de Cristo. Ele é apresentando com três títulos messiânicos: a testemunha fiel, o primeiro a ressuscitar dos mortos e o soberano dos reis da terra. Os três títulos são uma confissão de fé e indicam o mistério da vida, morte, ressurreição e ascensão do Senhor.

Daniel, na primeira leitura, descreve uma visão: vê alguém “um como filho do homem”, que vem sobre as nuvens até o tribunal do ancião. Ele vem do alto, entre as nuvens, isto é, vem do próprio Deus. As feras vêm do mar (cf. início do capitulo 7 de Daniel), o filho do homem vem do céu. Indica, portanto, um novo reino. No contexto de Daniel, este “filho do homem” é o povo de Deus. No contexto da festa de hoje, é o próprio Jesus Cristo, Rei do Universo.

3. Atualizando a Palavra

Nas celebrações litúrgicas, estamos habituados a cantar hinos a Cristo Rei. “Rei divino que a terra desceste. Vindo a nós se seu trono de glória. Alcançaste fulgente vitória sobre a culpa, origem da dor! Reina, reina nas almas no mundo. Rei dos reis, Jesus Cristo, Senhor!” E outros hinos como: “Jesus é meu Rei e Senhor”, levantai-vos soldados de Cristo, para frente marchai a vitória…”

Reconheçamos com sinceridade: não é fácil vencer a tentação do triunfalismo. As influências dos tempos de cristandade ainda repercutem e revelam sua força, em muitas manifestações eclesiais e litúrgicas. Hoje o estandarte de Cristo Rei tremula em meio a muitas outras bandeiras da sociedade.

É importante deixar claro que realeza de Cristo não se confunde com a realeza deste mundo. Suas conquistas não se medem pela quantidade de indivíduos batizados, pela eficiência das estruturas e das instituições eclesiais, pela grandiosidade das igrejas, pelo temor que as autoridades eclesiásticas às vezes impõem.

O reino de Cristo conquista novas fronteiras pela atitude de serviço, pelos gestos de doação solidária em favor dos mais fracos. Ele se manifesta no respeito de uns pelos outros, no encontro, no diálogo que instaura relações de comunhão.

Talvez devêssemos retomar a pergunta de Pilatos: “tu és rei?” Que rei Jesus é hoje para nós?

“Eu nasci e vim ao mundo para dar testemunho da verdade”. Jesus Cristo é reconhecido como Senhor (Kyrios) e Rei porque realizou (e realiza) a missão de salvar, perdoar, reconciliar, libertar, curar, dar a vida, anunciar a Boa Nova do amor do Pai e da esperança.

Nesta perspectiva, celebrar hoje a festa de Cristo Rei é reconhecer que Ele é o ponto de convergência da história, da atividade e da peregrinação terrena da humanidade. O Cordeiro que foi imolado, agora é motivo da alegria de todos os corações e plenitude total dos anseios. Por isso podemos proclamar: “Jesus Cristo, ontem, hoje, sempre, Aleluia!”.

Jesus afirma: “meu reino não é deste mundo”. De fato o reino de Cristo não é do estilo político dos governos terrenos. Jesus mesmo nos ensina a rezar: “venha a nós o vosso reino”.

O senhorio do Cordeiro imolado e vitorioso é reconhecido e perpetuado hoje, no mundo, através dos cristãos e das comunidades eclesiais, não tanto por privilégios e influências sociais, quando pela presença e serviço, qual fermento na massa, em favor da verdade, da justiça. Da justiça, da fraternidade, da convivência no amor, na paz e na liberdade. “Após o Concílio, a teologia cristã insistiu de forma enfática sobre a necessidade de assumir a missão não como ‘implantação da Igreja’, mas também como ‘serviço ao mundo’, ou mais propriamente, ao Reino de Deus e à Paz que este traz à humanidade” (CNBB, Missão e Ministério dos Cristãos leigos e leigas. DOC. 62, N.47)

Pelo batismo somos convidados a reinar com Cristo pelo serviço, pelo perdão, pela reconciliação, enfrentando o desafio da cruz a fim de que todos tenham dignidade e paz.

Neste dia da festa de Cristo Rei, a Igreja comemora o “Dia do Leigo”. Recorda seus membros que, pelo batismo, são em Cristo sacerdotes, profetas e reis, inseridos nas realidades da cultura, da política, do comércio, das ciências, da economia, da ecologia, da vida conjugal… A presença e a atuação de leigos cristãos podem transformar essas áreas em espaços fecundos para os valores do reino de Deus.

4. Ligando a Palavra com a Ação Eucarística

Pela celebração litúrgica deste ultimo domingo do ano litúrgico, nos encontramos com o Senhor, nosso rei e juiz, que, por sua palavra nos julga, nos purifica e nos torna participantes do banquete de seu reino. Experimentemos antecipadamente o júbilo dos convidados à ceia do reino que seu amor preparou.

Como povo sacerdotal, nos reunimos para celebrar a memória sempre viva e atual do Senhor.

Hoje, na celebração eucarística, Cristo vive conosco sua Páscoa redentora, para que nos unamos intimamente a ele, recebamos a força do Espírito Santo, a fim de sermos testemunhas fiéis da verdade e chegarmos ao Reino eterno e universal.

Assim rezaremos no prefácio da festa de hoje: “Ele, oferecendo-se na Cruz, vítima pura e pacifica, realizou a redenção da humanidade. Submetendo ao seu poder toda criatura, entregará à vossa infinita majestade, um reino eterno e universal: reino da verdade e da vida, reino da santidade e da graça, reino da justiça, do amor e da paz”.

A Palavra de Deus, que escutamos e acolhemos com docilidade em nosso coração, nos revela que o Reino de Deus está realmente no meio de nós, como grande dom do amor de Deus à humanidade.

A Eucaristia que celebramos é memorial do Cristo vitorioso que se mostrou fiel no amor até as últimas conseqüências da morte na cruz, sem jamais ceder às artimanhas do poder e da violência. Ele é Rei vitorioso “porque sempre se mostrou cheio de misericórdias pelos pequenos e pobres, pelos doentes e pecadores, colocando-se ao lado dos perseguidos e marginalizados. Com a vida e a palavra anunciou ao mundo que sois Pai e cuidais de todos como filhos e filhas” (oração eucarística para diversas circunstâncias –IV).

A ação litúrgica deste domingo de Cristo Rei é expressão da aliança de Deus com seu povo, isto é, expressão maior da comunhão do Reino.

Enviado por D. Vilson Dias de Oliveira, DC – Bispo da Diocese de Limeira

Posted by: | Posted on: novembro 24, 2012

FESTA DE CRISTO, REI DO UNIVERSO

Marcel Domergue

por Instituto Humanitas Unisinos (IHU)

O poder do Cristo se exerce suprimindo do universo a própria raiz da violência. É preciso, aqui, entender a violência, em sentido bastante amplo, como a tentativa de fazer substituir por nossa vontade a liberdade dos outros. Mas como será possível reinar sem se impor?

1. O poder.

A expressão “Cristo Rei” é, na verdade, um pleonasmo. Mas significa que o Cristo de Israel assume um poder universal sobre a humanidade e sobre a natureza à qual a humanidade está vinculada. Não há nada de mais inquietante do que a possibilidade humana de uns pesarem sobre a liberdade dos outros; de uns dirigirem os outros. Com que direito? A que título? A humanidade, desde sempre, tem inventado sistemas para designar quais devam ser os detentores da autoridade: se por herança, por eleição… Pois parece ser indispensável haver uma autoridade, para poder se conter os riscos da violência nascidos da selvagem competição. Cada um de nós aspira, de fato, a deter algum poder, porque, além de outras vantagens, isto nos dá segurança com respeito à nossa importância, ao nosso valor, e nos põe no centro das atenções. Existe, sim, uma busca pelo poder. Como dizia um político: “uma vez experimentado o poder, não se pode mais passar sem ele”. O poder é uma droga que faz o homem esquecer a sua fragilidade. A busca pelo poder vicia, porque o que justifica o poder é, antes de tudo, “a desigualdade”; ou seja, a superioridade. E uma superioridade que deve ser real: a de quem sabe mais, é mais inteligente, tem maior espírito de decisão… Coisas todas que podem justificar o exercício um poder sobre os outros, ao menos provisoriamente, e, melhor, sendo aceito este poder. Todos nós exercemos poderes, em virtude de nossas competências ou responsabilidades: poderes que exercemos dentro dos nossos domínios e à medida de nossa condição (em casa, na família, na profissão, etc.). Qual seria então o poder do Cristo?

2. Qual poder?

Jesus disse a Pilatos que a sua realeza não é deste mundo. Significa que não lhe foi conferida pelos homens. Não a recebeu nem de sua nação nem dos chefes dos sacerdotes. Significa também que não a exerce como os outros soberanos normais. Ele não tem guardas nem exércitos e não faz “sentir o seu poder”. A sua realeza não é, enfim, da mesma natureza que as outras: não visa a conter nem reprimir a violência possível nas relações humanas, projeto este que supõe o exercício de uma violência superior, o exercício da sujeição. O poder do Cristo se exerce suprimindo do universo a própria raiz da violência. É preciso, aqui, entender a violência, em sentido bastante amplo, como a tentativa de fazer substituir por nossa vontade a liberdade dos outros. Mas como será possível reinar sem se impor? É o que Jesus responde a Pilatos: “Vim para dar testemunho da verdade“. E o que é a verdade? Num certo sentido, é o próprio Deus, mas podemos tentar ser mais precisos: para o homem, a verdade é o que o faz existir realmente, o que o põe em direção à sua criação. A mentira, pelo contrário, é o que o engana, levando-o a uma via sem saída e a enredar-se em impasses. Existe, pois, uma conivência entre o homem e o testemunho do Cristo: a verdade se impõe (poder) porque ela é a própria vida do homem. Como diz Paulo (2Cor 13,8): “Não temos poder algum (…) exceto pela verdade”.Verdade que ultrapassa quem a anuncia. O que justifica o poder do Cristo é que Ele convoca o homem à sua plena realização.

3. Qual tomada do poder?

Cristo toma o poder – em parte, mas é fundamental – através de uma demonstração: submetendo-se à violência (submissão que é o contrário do poder). Ele mostra publicamente que o poder verdadeiro não é poder-dominação, manifestando assim a vaidade e a perversidade das condutas que visam a dispor-se dos outros. Este aniquilamento do Cristo foi apresentado por João como um “elevar-se”: o Cristo crucificado foi levantado da terra e, naquele momento, os olhares todos se voltam para ele. Ele atrai todos os homens, porque a verdade atrai tudo o que em nós existe de verdadeiro. Por que a palavra “demonstração”? Porque Jesus põe a nu, diante dos nossos olhos, o pecado do homem, a sua mentira, e a verdade do amor. Ele não nos impõe a verdade, pois isto seria voltar às atitudes de violência que são o contrário da verdade; sem sentido, portanto. Ele nos mostra a verdade: “Todo aquele que é da verdade escuta a minha voz” (Jo 18,37) e se torna seu discípulo. Esta é a Realeza do Cristo, não semelhante a nenhuma outra, uma vez que se apresenta sob a figura do contrário da realeza. O senhor é aquele que se faz o servidor e só pode ser senhor quem se faz servidor.

 Fonte: CEBI – Centro de Estudos Bíblicos – www.cebi.org.br
Posted by: | Posted on: novembro 23, 2012

Meu Reino não é deste mundo? (João 18,33-37)

Edmilson Schinelo e Ildo Bohn Gass

Para Jesus, a morte se mostrava iminente. Talvez lhe restasse apenas uma saída: fazer o jogo do poder, oferecido por Pilatos. Isso significaria abandonar o projeto que tinha assumido e proposto a seu grupo de seguidoras e seguidores. A conversa é tensa e Jesus pouco fala. O mundo de Pilatos não é o seu.

É assim que a comunidade joanina nos descreve o confronto entre dois projetos: o “mundo” e o “Reino”. Ao ser indagado, Jesus assume a sua realeza. Mas esclarece: “Meu Reino não é como os reinos deste mundo” (João 18,36).

Na história da interpretação dos textos joaninos, com certeza essa é uma das frases que mais serviu para manipular a proposta de Jesus. Muitos a interpretaram como a afirmação de que a missão de Jesus foi “salvar almas para depois da morte” e não salvar vidas. Seu Reino foi jogado apenas para o céu (o pós-morte), como se Jesus não tivesse dito em sua oração: “venha o teu reino, seja realizada na terra a tua vontade, como é realizada nos céus” (Mateus 6,10).

Meu Reino não é como os reinos deste mundo   

Nos escritos joaninos, o termo mundo significa tudo o que se opõe ao projeto de Deus. Uma tradução mais adequada da resposta de Jesus a Pilatos poderia ser: Meu reino não é como (de acordo com, conforme) este mundo. Ora, as comunidades joaninas sabiam muito bem como era o mundo de Pilatos, representante do Império Romano na Judeia. O mundo do Império impunha seu poder pela força das armas e pelas negociatas e artimanhas, entre relações desleais, corruptas e corruptoras. A proposta de Jesus é outra, seu Reino não compactua com este mundo.

O Reino de Jesus se apoia no poder serviço (João 13), que não busca prestígios, mas que doa sua vida até a morte na cruz para que a vida aconteça em plenitude (João 10,10).

Jesus é rei, mas de outro projeto político

Muitas vezes, a frase em questão também é utilizada para justificar a postura de gente que afirma que “política e religião não se misturam”. No intuito de justificar seu comportamento religioso teoricamente apolítico, pessoas e grupos também “espiritualizam” a leitura do movimento de Jesus: enquanto “rei espiritual” dos judeus, o Mestre almejava anunciar uma mensagem de paz totalmente espiritual e religiosa. Infelizmente, não raras vezes, muitos dos que defendem essa postura, se líderes religiosos, vivem atrelamentos vergonhosos com políticos e empresários. E, se políticos ou empresários, quase sempre pedem as bênçãos de um líder religioso para suas ações e seus empreendimentos financeiros. Justificar o sistema com elementos e símbolos religiosos não seria, portanto, juntar religião e política. Questionar o sistema por meio da fé, isto seria.

A proposta de Jesus é uma proposta religiosa, de vivência de uma espiritualidade radical, que não se contenta com a superficialidade, mas vai até raízes mais profundas. Por essa razão, uma proposta altamente política. Ele mesmo, no capítulo 17, roga ao Pai pelos seus: “Eles não são do mundo, como eu não sou do mundo. Mas não peço que os tires do mundo, mas que os guardes do Maligno” (João 17,14b-15).

Quem é da verdade, escuta minha voz  

A concepção hebraica de verdade difere da mentalidade greco-romana. Enquanto para Aristóteles “a verdade é a adequação do pensamento à realidade”, para um hebreu autêntico, verdadeira é a pessoa fiel ao projeto de seu Deus e de sua comunidade. Verdade é sinônimo de fidelidade.

Em sua conversa com Pilatos, Jesus não tem receio de afirmar: “Vim ao mundo para dar testemunho da verdade” (João 18,37). Testemunhar a verdade é doar a vida até as últimas consequências. É fidelidade ao projeto amoroso do Pai.

“E quem é da verdade, escuta a minha voz”. Quem decide viver a verdade, o amor fiel, adere ao projeto de vida que vem do Pai, tal como a ovelha, ao ouvir a voz do seu pastor, segue-o pelo caminho (João 10).

Para a comunidade joanina, romper com os reinos deste mundo é assumir uma forma de espiritualidade que estimule relações alternativas, de justiça e de ternura, de partilha e de paz. A paz, fruto da justiça e não a paz imposta pelas armas dos impérios deste mundo (João 14,27).

Ildo Bohn Gass e Edmilson Schinelo são Assessores do CEBI.

Fonte: site do Centro de Estudos Bíblicos (CEBI) – www.cebi.org.br

Posted by: | Posted on: novembro 22, 2012

Cristo Rei

O Ano Litúrgico, constituído por diversos ciclos, termina com a Festa de Cristo Rei. Jesus nasce com o título de Rei e é agora proclamado pela Igreja como Rei do universo. É o cume de um reinado que foi manifestado num amor extremo, selado na cruz e na glorificação eterna.

Numa visão, o profeta Daniel contempla o trono de Deus e seu juízo sobre o mundo. Ele vê também alguém como “filho de homem” sobre o trono (Dn 7, 9-14). Nos Evangelhos, a expressão “filho de homem” refere-se a Jesus Cristo, àquele que veio do alto para construir o Reino de Deus.

Devemos entender que não são os poderes do mundo que determinam a história, mas sim, aquele que é o Senhor da história, fazendo triunfar o seu Reino. Isto significa que a última palavra sobre o mundo pertence a Deus. É até uma questão de fé e certeza de que as forças do mundo são meramente passageiras.

O centro da história é Jesus Cristo, que veio como Rei, caminha como Rei e termina seu ciclo na terra como Rei. É o mesmo que dizer: “aquele que é, que era e que vem”. Ele é o cumprimento da Aliança feita por Deus com Abraão lá no passado, que só acontece no gesto de doação total na prática do amor.

Mesmo dizendo que o Brasil é o maior país cristão do mundo, Jesus continua sendo o grande desconhecido pelo nosso povo. Desta forma, não criamos paixão por Ele e agimos de forma desregrada, sem compromisso social e ferindo a dignidade das pessoas. Não conseguimos perceber que o amor cristão implica defender a vida do outro, que tem o mesmo direito que nós.

Jesus nunca impôs seu poder através do uso da violência desumana, porque não tinha pretensões egoístas. Sua ação ia além dos limites do mundo e passava por uma prática de testemunho coerente e visível aos olhos da sociedade de seu tempo. Com isto Ele instaurou um reinado que contradiz com os poderes mundanos.

Dom Paulo Mendes Peixoto – Arcebispo de Uberaba.