Bento XVI,

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Posted by: | Posted on: julho 23, 2013

Mensagem para a XXVI Jornada Mundial da Juventude 2011 – Madrid

A mensagem que segue foi feita por Bento XVI, em 2011, para os jovens que estavam em Madri, na Espanha, na ocasião da Jornada Mundial da Juventude do ano passado. Mas vale a pena ler e refletir com ela.

Bento XVIReflexão Espiritual de Bento XVI

Queridos amigos, em todas as épocas, também nos nossos dias, numerosos jovens sentem o desejo profundo de que as relações entre as pessoas sejam vividas na verdade e na solidariedade. Muitos manifestam a aspiração por construir relacionamentos de amizade autêntica, por conhecer o verdadeiro amor, por fundar uma família unida, por alcançar uma estabilidade pessoal e uma segurança real, que possam garantir um futuro sereno e feliz. Sim, a procura de um posto de trabalho e com ele poder ter uma certeza é um problema grande e urgente, mas ao mesmo tempo a juventude permanece contudo a idade na qual se está em busca da vida maior. Trata-se apenas de um sonho vazio que esvaece quando nos tornamos adultos? Não, o homem é verdadeiramente criado para aquilo que é grande, para o infinito. Qualquer outra coisa é insuficiente. Read More …

Posted by: | Posted on: fevereiro 12, 2013

Bento XVI, um Homem de Deus!

Eu, assim como muitos católicos, fui surpreendida pelo anúncio da renúncia do Papa Bento XVI. Confesso que não esperava essa atitude dele. Mas sou solidária a ele diante de seu gesto magnânimo. E afirmo que esse gesto demonstra que Bento XVI é mesmo um Homem de Deus.

É muito fácil para qualquer ser humano ser seduzido pelo poder. Nós somos frágeis e limitados. O poder nos seduz pelo sabor de vitória sobre os demais, pelo gosto doce do status adquirido, pelas mordomias recebidas, mesmo que na simplicidade. Até Jesus foi tentado por ele.

Alguém que, a exemplo de Jesus, é capaz de abdicar do poder, com plena liberdade, em benefício de um povo, é alguém que merece toda a admiração desse povo. E alguém que de fato se deixa mover pelo Espírito Santo.

A atitude de Bento XVI exigiu grande dose de humildade, de entendimento, de sabedoria, de fortaleza, de discernimento, de piedade, de temperança, de fé, de esperança e de caridade. Um grande amor ao Povo de Deus. Somente alguém movido pelo Espírito poderia unir tantos dons para assumir a responsabilidade de se reconhecer limitado para o exercício da missão e romper com uma tradição milenar.

O gesto de Bento XVI traz consigo a Luz que vem do Alto, a graça que vem de Deus. Não é uma atitude de covardia, ao contrário é um gesto de fé infinita. Ele certamente deixou-se abandonar nos braços de Jesus e ser acariciado pelo amor de Maria antes de anunciar sua renúncia, pois que ninguém mais compreenderia o que se passava em seu coração, a não ser quem viveu uma renúncia tão grande.

A estrela de Bento XVI, hoje, brilha ainda mais forte no Reino de Deus. Ela é uma luz que indica a chegada de novo tempo para a nossa Igreja. Ele é um exemplo a ser seguido, um sinal de que somos de fato guiados pela mão do Espírito Santo.

Quem quiser conhecer melhor esse Homem de Deus, leia as suas Encíclicas. São apenas três: Caritas in veritate (2009) sobre alguns aspectos da Doutrina Social da Igreja; Spe salvi (2007) sobre esperança e escatologia; Deus Caritas est (2005) sobre o amor que vem de Deus.

Leiam também suas exortações apostólicas: Verbum Domini, Exortação Apostólica Pós-Sinodal sobre a Palavra de Deus na vida e na missão da Igreja (2010); e Sacramentum Caritatis, Exortação Apostólica Pós-Sinodal sobre a Eucaristia fonte e ápice da vida e da missão da Igreja (2007).

E também não deixem de ler a obra escrita por ele sobre Cristologia: Jesus de Nazaré. Uma obra escrita em três volumes publicada no Brasil pela Editora Planeta.

Antes de nos deixarmos influenciar por pessoas que querem apenas deixar o povo angustiado, fazendo circular palavras e imagens negativas sobre Bento XVI e sua renúncia, alimentemos nossa mente e nossa alma com as palavras que ele deixa impressas para auxiliar na caminhada daqueles que seguem a Jesus, o Cristo.

Maria Aparecida de Cicco – Blogueira do Blog da Catequese da Editora Vozes

Posted by: | Posted on: janeiro 31, 2013

Palavras de Bento XVI durante a Audiência Geral do dia 30 de janeiro de 2013, pela manhã.

Uma atitude aparentemente débil, feita de mansidão, paciência e amor, demonstra que este é o verdadeiro modo de ser poderoso!

ROMA, 30 de Janeiro de 2013 (Zenit.org) –

A Audiência Geral dessa manhã ocorreu às 10h30 na Sala Paulo VI, onde o Santo Padre Bento XVI encontrou grupos de peregrinos e fieis provenientes da Itália e de toda parte do mundo. No discurso em língua italiana o Papa continuou o ciclo de catequeses dedicado ao Ano da fé. A Audiência Geral se concluiu com o canto do Pater Noster e com a Benção Apostólica. Publicamos a seguir a tradução de ZENIT das palavras do Pontífice:

Creio em Deus, Pai Todo-Poderoso

Queridos irmãos e irmãs,

Na catequese da quarta-feira passada, consideramos as palavras iniciais do credo: “Creio em Deus”. Mas a profissão de fé especifica esta afirmação: Deus é o pai todo-poderoso, criador do céu e da terra. Gostaria que refletíssemos agora sobre a primeira e fundamental definição de Deus que o credo nos apresenta: ele é pai.

Nem sempre é fácil falar de paternidade hoje. No ocidente, em especial, há muitos fatores que podem impedir uma relação pacífica e construtiva entre pais e filhos, como as famílias desestruturadas, os compromissos de trabalho mais absorventes, as preocupações e, tantas vezes, a dificuldade para equilibrar o orçamento familiar, além da invasão distrativa da mídia na vida diária. A comunicação se torna difícil, a confiança pode ser perdida e a relação com a figura do pai pode se tornar problemática. Assim, quando não se tem modelos adequados de referência, torna-se difícil também imaginar Deus como pai. Para aqueles que tiveram a experiência de um pai muito autoritário e inflexível, ou indiferente e pouco afetuoso, ou mesmo ausente, não é fácil pensar com serenidade em Deus como pai e entregar-se a ele com confiança.

A revelação bíblica, no entanto, nos ajuda a superar essas dificuldades ao falar de um Deus que nos mostra o que significa verdadeiramente ser “pai”. E é especialmente o evangelho que nos revela o rosto de Deus como um pai que ama até a doação do próprio filho para a salvação da humanidade. A referência à figura paterna ajuda a compreender um pouco do amor de Deus, mesmo que o amor divino seja infinitamente maior, mais fiel, mais total que o de qualquer homem. “Quem de vós”, pergunta Jesus aos discípulos para lhes mostrar o rosto do pai, “ao filho que lhe pedir pão, dará uma pedra? E, se pedir um peixe, lhe dará uma serpente? Se vós, pois, sendo maus, sabeis dar boas dádivas aos vossos filhos, quanto mais o vosso Pai, que está nos céus, dará coisas boas aos que lhe pedirem” (Mt 7,9-11; cf. Lc 11,11-13 ). Deus é nosso pai porque nos abençoou e escolheu antes da criação do mundo (cf. Ef 1,3-6) e fez de nós, realmente, seus filhos em Jesus (cf. 1 Jo 3,1). E, como pai, Deus acompanha com amor a nossa vida, dando-nos a sua palavra, os seus ensinamentos, a sua graça, o seu Espírito.

Ele, como revelado por Jesus, é o pai que alimenta as aves do céu sem que elas precisem plantar ou colher, e reveste de cores maravilhosas as flores do campo, com vestes mais belas que as do rei Salomão (cf. Mt 6,26-32 e Lc 12,24-28). E nós, acrescenta Jesus, valemos muito mais do que as flores e as aves do céu! E se Deus é bom o suficiente para fazer “nascer o seu sol sobre maus e bons, e vir a chuva sobre os justos e sobre os injustos” (Mt 5,45), podemos sempre, sem medo e com total confiança, confiar-nos ao seu perdão de pai quando trilhamos o caminho errado. Deus é um pai bom que acolhe e abraça o filho perdido e arrependido (cf. Lc 15,11), que dá gratuitamente a quem pede (cf. Mt 18,19; Mc 11,24; Jo 16,23) e que oferece o pão do céu e a água viva que dá a vida eterna (cf. Jo 6,32.51.58).

O filho orante do Salmo 27, cercado por inimigos, assediado pelos maus e por caluniadores, enquanto pede a ajuda do Senhor e o invoca, dá o seu testemunho cheio de fé, dizendo: “Meu pai e minha mãe me abandonaram, mas o Senhor me acolheu” (v. 10). Deus é um pai que nunca abandona os seus filhos, um pai amoroso que apoia, ajuda, acolhe, perdoa, salva, com uma fidelidade que supera imensamente a dos homens, para abrir-se uma dimensão de eternidade. “Porque o seu amor é para sempre”, repete a cada verso, como em uma ladainha, o Salmo 136, percorrendo a história da salvação. O amor de Deus pai nunca falha, nunca se cansa de nós; é amor que se dá até o extremo, até o sacrifício do próprio filho. A fé nos dá esta certeza, que se torna uma rocha segura para a construção da nossa vida: nós podemos enfrentar todos os momentos de dificuldade e de perigo, a experiência do tempo escuro da crise e da dor, apoiados na certeza de que Deus não nos deixa sós e fica sempre perto, para nos salvar e nos levar à vida eterna.

É em Jesus que se mostra por inteiro o rosto benevolente do pai que está nos céus. É conhecendo Jesus que podemos conhecer o pai (cf. Jo 8,19; 14,7), e, vendo-o, vemos o pai, porque ele está no pai e o pai está nele (cf. Jo 14,9.11). Ele é a “imagem do Deus invisível”, como definido pelo hino da Carta aos Colossenses, “primogênito de toda a criação… primogênito de quem ressuscitou dos mortos”, “por meio do qual temos a redenção, a remissão dos pecados” e a reconciliação de todas as coisas, “tendo pacificado com o sangue da sua cruz tanto as coisas que estão na terra quanto aquelas que estão nos céus” (cf. Col1 ,13-20).

A fé em Deus pai nos pede crer no filho, sob o agir do Espírito, reconhecendo na cruz que salva a revelação final do amor divino. Deus é nosso pai ao nos dar o seu filho; Deus é nosso pai perdoando os nossos pecados e nos trazendo a alegria da vida ressuscitada; Deus é nosso pai nos dando o Espírito que nos torna filhos e nos permite chamá-lo, na verdade, “Abba, Pai!” (cf. Rm 8,15). É por isso que, ao nos ensinar a orar, Jesus nos convida a dizer “pai nosso” (Mt 6,9-13; cf. Lc 11,2-4).

A paternidade de Deus é amor infinito, ternura que se inclina sobre nós, filhos frágeis, necessitados de tudo. O Salmo 103, o grande hino de misericórdia divina, proclama: “Assim como um pai é terno para com seus filhos, o Senhor é terno para com quem o teme, porque ele sabe do que somos feitos, ele se lembra de que somos pó” (Sl 103,13-14). É justamente a nossa pequenez, a nossa frágil natureza humana, a nossa fraqueza, que se transforma em apelo à misericórdia do Senhor para que ele manifeste a sua grandeza e ternura de pai, ajudando-nos, perdoando-nos e salvando-nos.

E Deus responde ao nosso apelo enviando o seu filho, que morre e ressuscita por nós; entra em nossa fragilidade e faz o que, por si só, o homem nunca poderia fazer: ele toma sobre si o pecado do mundo, como cordeiro inocente, e nos reabre o caminho para a comunhão com Deus, tornando-nos verdadeiros filhos de Deus. É ali, no mistério pascal, que se revela em toda a sua luminosidade o rosto definitivo do pai. E é ali, na cruz gloriosa, que acontece a plena manifestação da grandeza de Deus como “Pai Todo-Poderoso”.

Mas podemos perguntar: como é possível imaginar um Deus Todo-Poderoso quando olhamos para a cruz de Cristo? Como, se vemos esse poder do mal, que chega ao ponto de matar o filho de Deus? Nós esperamos uma onipotência divina de acordo com os nossos padrões de pensamento e com os nossos desejos: um Deus todo-poderoso que resolva os problemas, que nos evite as dificuldades, que vença o adversário, que mude o curso dos acontecimentos e anule a dor. Diversos teólogos dizem que Deus não pode ser onipotente, pois, se fosse, não haveria tanto sofrimento, tanto mal no mundo. Diante do mal e do sofrimento, para muitos, para nós, é problemático, é difícil acreditar em um Deus Pai Todo-Poderoso. Alguns procuram refúgio em ídolos, cedendo à tentação de encontrar uma resposta numa onipotência “mágica” e nas suas promessas ilusórias.

Mas a fé no Deus Todo-Poderoso nos conduz por caminhos muito diferentes: nos leva a aprender que o pensamento de Deus é diferente do nosso, que os caminhos de Deus são diferentes dos nossos (cf. Is 55,8) e que mesmo a sua onipotência é diferente: não é uma força automática ou arbitrária, e sim um poder caracterizado por uma liberdade amorosa e paterna. Deus, ao criar seres livres, dando-lhes liberdade, renunciou a uma parte do seu poder, permitindo o poder da nossa liberdade. Ele ama e respeita a livre resposta de amor ao seu apelo. Como pai, Deus quer que nos tornemos seus filhos e vivamos como tais em seu Filho, na comunhão, na intimidade plena com ele. A sua onipotência não se expressa na violência, não se expressa na destruição de todo poder adverso, como nós gostaríamos, mas sim no amor, na misericórdia, no perdão, na aceitação da nossa liberdade e no incansável chamado à conversão do coração, numa atitude aparentemente frágil: Deus parece frágil, se pensarmos em Jesus Cristo orando, deixando-se matar. Uma atitude aparentemente débil, feita de mansidão, paciência e amor, demonstra que este é o verdadeiro modo de ser poderoso! Este é o poder de Deus! E este poder vencerá! O sábio do livro da Sabedoria se volta para Deus dizendo: “És misericordioso para com todos porque tudo podes; fechas os olhos para os pecados dos homens, à espera do seu arrependimento. Tu amas todas as coisas que existem… És indulgente com todas as coisas porque são tuas, Senhor, que amas a vida” (11,23-24a.26).

Só os realmente poderosos podem suportar o mal e se mostrar compassivos; só os realmente poderosos podem exercitar plenamente o poder do amor. E Deus, a quem pertencem todas as coisas, porque todas as coisas foram feitas por ele, revela a sua força amando tudo e a todos, em uma espera paciente pela conversão de todos nós, os homens, que ele deseja ter como filhos. Deus espera a nossa conversão. O amor todo-poderoso de Deus não tem limites, tanto que “ele não poupou o próprio filho, mas o entregou por todos nós” (Rm 8,32). A onipotência do amor não é a do poder do mundo, mas a do total doar, e Jesus, o filho de Deus, revela ao mundo a onipotência verdadeira do pai dando a vida por nós, pecadores. Este é o real, autêntico e perfeito poder divino: responder ao mal não com o mal, mas com o bem; aos insultos com o perdão, ao ódio assassino com o amor que faz viver. Assim o mal é derrotado, porque o amor de Deus o lavou; assim a morte é finalmente vencida, porque é transformada no dom da vida. Deus pai ressuscita o filho: a morte, a grande inimiga (cf. 1 Cor 15,26), é privada do seu veneno (cf. 1 Cor 15,54-55), e nós, libertados do pecado, podemos viver a nossa realidade de filhos de Deus.

Quando dizemos “Creio em Deus Pai Todo-Poderoso”, expressamos a nossa fé no poder do amor de Deus, que, em seu filho morto e ressuscitado, derrota o ódio, o pecado, o mal, e nos dá a vida eterna, aquela dos filhos que desejam estar para sempre na “casa do pai”. Dizer “Creio em Deus Pai Todo-Poderoso”, no seu poder, no seu modo de ser pai, é sempre um ato de fé, de conversão, de transformação dos nossos pensamentos, de todo o nosso afeto, de todo o nosso modo de viver.

Queridos irmãos e irmãs, peçamos ao Senhor que sustente a nossa fé, que nos ajude a encontrar a verdadeira fé e nos dê a força para anunciar o Cristo crucificado e ressuscitado e para dar testemunho dele no amor a Deus e ao próximo. Deus nos conceda receber o dom da nossa filiação para vivermos plenamente a realidade do credo, na entrega confiante ao amor do pai e à sua onipotência misericordiosa, que é onipotência verdadeira e salvadora.

Antes de conceder a bênção:

Dirijo-me aos jovens, aos doentes e aos recém-casados. Amanhã celebramos a memória litúrgica de São João Bosco, sacerdote e educador. Vejam nele, queridos jovens, um verdadeiro mestre de vida. Queridos doentes, aprendam com a experiência espiritual dele a confiar em todas as circunstâncias no Cristo crucificado. E vocês, queridos recém-casados, recorram à sua intercessão para viver com generoso compromisso a sua missão de esposos. Obrigado.

Enviado por D. Vilson Dias de Oliveira, DC – Bispo da Arquidiocese de Limeira

Posted by: | Posted on: setembro 17, 2012

Exortação Apostólica “VERBUM DOMINI” – Bento XVI

Apresentamos algumas das passagens mais representativas da exortação apostólica pós-sinodal Verbum Domini, de Bento XVI, que recolhe as conclusões do Sínodo dos Bispos realizado no Vaticano em outubro de 2008, sobre “A Palavra de Deus na vida e na missão da Igreja”. Esse texto foi publicado inicialmente em novembro de 2010 pelo site ZENIT.org e hoje o estamos replicando em virtude do Mês da Bíblia. Essa exortação apostólica é de fundamental importância para os catequistas que são servidores da Palavra e portanto, todos deveriam estudá-lo, juntamente com “DEI VERBUM, Constituição Dogmática do Concilio Vaticano II.

Objetivo: “Desejo assim indicar algumas linhas fundamentais para uma redescoberta, na vida da Igreja, da Palavra divina, fonte de constante renovação, com a esperança de que a mesma se torne cada vez mais o coração de toda a atividade eclesial.” (n. 1)

Religião da Palavra, não do livro: “A fé cristã não ser uma ‘religião do Livro’: o cristianismo é a ‘religião da Palavra de Deus’, não de ‘uma palavra escrita e muda, mas do Verbo encarnado e vivo’.” (7)

Tradição e Escritura: “É a Tradição viva da Igreja que nos faz compreender adequadamente a Sagrada Escritura como Palavra de Deus.” (17)

Sagrada Escritura, inspiração e verdade: “A Sagrada Escritura é ‘Palavra de Deus enquanto foi escrita por inspiração do Espírito de Deus’. Deste modo se reconhece toda a importância do autor humano que escreveu os textos inspirados e, ao mesmo tempo, do próprio Deus como verdadeiro autor.” (19)

Deus escuta o homem: “É decisivo, do ponto de vista pastoral, apresentar a Palavra de Deus na sua capacidade de dialogar com os problemas que o homem deve enfrentar na vida diária. (…) A pastoral da Igreja deve ilustrar claramente como Deus ouve a necessidade do homem e o seu apelo.” (23)

Exegese: “No seu trabalho de interpretação, os exegetas católicos jamais devem esquecer que interpretam a Palavra de Deus. A sua tarefa não termina depois que distinguiram as fontes, definiram as formas ou explicaram os processos literários. O objectivo do seu trabalho só está alcançado quando tiverem esclarecido o significado do texto bíblico como Palavra atual de Deus.” (33)

Antigo Testamento e judaísmo: “A compreensão judaica da Bíblia pode ajudar a inteligência e o estudo das Escrituras por parte dos cristãos. (…) O Novo Testamento está oculto no Antigo e o Antigo está patente no Novo. (…) Desejo afirmar uma vez mais quão precioso é para a Igreja o diálogo com os judeus.” (41/43)

Bíblia e ecumenismo: “Na certeza de que a Igreja tem o seu fundamento em Cristo, Verbo de Deus feito carne, o Sínodo quis sublinhar a centralidade dos estudos bíblicos no diálogo ecumênico, que visa a plena expressão da unidade de todos os crentes em Cristo.” (46)

Traduções, serviço ao ecumenismo: “A promoção das traduções comuns da Bíblia faz parte do trabalho ecumênico. Desejo aqui agradecer a todos os que estão comprometidos nesta importante tarefa e encorajá-los a continuarem na sua obra.” (46)

Escritura e Liturgia: “Exorto os Pastores da Igreja e os agentes pastorais a fazer com que todos os fiéis sejam educados para saborear o sentido profundo da Palavra de Deus que está distribuída ao longo do ano na liturgia, mostrando os mistérios fundamentais da nossa fé.” (52)

A homilia: “É preciso que os pregadores tenham familiaridade e contato assíduo com o texto sagrado; preparem-se para a homilia na meditação e na oração, a fim de pregarem com convicção e paixão.” (59)

Celebrações da Palavra de Deus: “Os Padres sinodais exortaram todos os Pastores a difundir, nas comunidades a eles confiadas, os momentos de celebração da Palavra. (…) Tal prática não pode deixar de trazer grande proveito aos fiéis, e deve considerar-se um elemento importante da pastoral litúrgica.” (65)

Acústica: “Para favorecer a escuta da Palavra de Deus, não se devem menosprezar os meios que possam ajudar os fiéis a prestar maior atenção. Neste sentido, é necessário que, nos edifícios sagrados, nunca se descuide a acústica, no respeito das normas litúrgicas e arquitetônicas.” (68)

Canto litúrgico: “No âmbito da valorização da Palavra de Deus durante a celebração litúrgica, tenha-se presente também o canto nos momentos previstos pelo próprio rito, favorecendo o canto de clara inspiração bíblica capaz de exprimir a beleza da Palavra divina por meio de um harmonioso acordo entre as palavras e a música. Neste sentido, é bom valorizar aqueles cânticos que a tradição da Igreja nos legou e que respeitam este critério; penso particularmente na importância do canto gregoriano.” (70)

Atenção aos portadores de deficiência: “O Sínodo recomendou uma atenção particular àqueles que, por causa da própria condição, sentem dificuldade em participar ativamente na liturgia, como por exemplo os cegos e os surdos.” (71)

A animação bíblica da pastoral: “O Sínodo convidou a um esforço pastoral particular para que a Palavra de Deus apareça em lugar central na vida da Igreja, recomendando que ‘se incremente a pastoral bíblica, não em justaposição com outras formas da pastoral mas como animação bíblica da pastoral inteira’.” (73)

Dimensão bíblica da catequese: “A atividade catequética implica sempre abeirar-se das Escrituras na fé e na Tradição da Igreja, de modo que aquelas palavras sejam sentidas vivas, como Cristo está vivo hoje onde duas ou três pessoas se reúnem em seu nome.” (74).

Lectio Divina: “Nos documentos que prepararam e acompanharam o Sínodo, falou-se dos vários métodos para se abeirar, com fruto e na fé, das Sagradas Escrituras. Todavia prestou-se maior atenção à lectio divina, que ‘é verdadeiramente capaz não só de desvendar ao fiel o tesouro da Palavra de Deus, mas também de criar o encontro com Cristo, Palavra divina viva’.” (87)

Palavra de Deus e Terra Santa: “Os Padres sinodais lembraram a expressão feliz dada à Terra Santa: ‘o quinto Evangelho’. Como é importante a existência de comunidades cristãs naqueles lugares, apesar das inúmeras dificuldades! O Sínodo dos Bispos exprime profunda solidariedade a todos os cristãos que vivem na Terra de Jesus, dando testemunho da fé no Ressuscitado.” (89)

Anúncio e nova evangelização: “Há muitos irmãos que são ‘batizados mas não suficientemente evangelizados’. É frequente ver nações, outrora ricas de fé e de vocações, que vão perdendo a própria identidade, sob a influência de uma cultura secularizada. A exigência de uma nova evangelização, tão sentida pelo meu venerado Predecessor, deve-se reafirmar sem medo, na certeza da eficácia da Palavra divina.” (96)

Testemunho: “A Palavra de Deus alcança os homens através do encontro com testemunhas que a tornam presente e viva.” (97)

Compromisso pela justiça: “A Palavra de Deus impele o homem para relações animadas pela rectidão e pela justiça, confirma o valor precioso aos olhos de Deus de todas as fadigas do homem para tornar o mundo mais justo e mais habitável.” (100)

Direitos humanos: “Quero chamar a atenção geral para a importância de defender e promover os direitos humanos de toda a pessoa (…). A difusão da Palavra de Deus não pode deixar de reforçar a consolidação e o respeito dos direitos humanos de cada pessoa.” (101)

Palavra de Deus e paz: “No contexto atual, é grande a necessidade de descobrir a Palavra de Deus como fonte de reconciliação e de paz, porque nela Deus reconcilia em Si todas as coisas (cf. 2 Cor 5, 18-20; Ef 1, 10): Cristo ‘é a nossa paz’ (Ef 2, 14), Aquele que derruba os muros de divisão.” (102)

Palavra de Deus e proteção da criação: “O compromisso no mundo requerido pela Palavra divina impele-nos a ver com olhos novos todo o universo criado por Deus e que traz já em si os vestígios do Verbo, por Quem tudo foi feito (…). A arrogância do homem que vive como se Deus não existisse, leva a explorar e deturpar a natureza, não a reconhecendo como uma obra da Palavra criadora.” (108)

Internet: “No mundo da internet, que permite que bilhões de imagens apareçam sobre milhões de monitores em todo o mundo, deverá sobressair o rosto de Cristo e ouvir-se a sua voz, porque, ‘se não há espaço para Cristo, não há espaço para o homem’.” (113)

Diálogo inter-religioso: “A Igreja reconhece como parte essencial do anúncio da Palavra o encontro, o diálogo e a colaboração com todos os homens de boa vontade, particularmente com as pessoas pertencentes às diversas tradições religiosas da humanidade, evitando formas de sincretismo e de relativismo.” (117)

Diálogo e liberdade religiosa: “O respeito e o diálogo exigem a reciprocidade em todos os campos, sobretudo no que diz respeito às liberdades fundamentais e, de modo muito particular, à liberdade religiosa. Tal respeito e diálogo favorecem a paz e a harmonia entre os povos.” (120)

CLIQUE AQUI para abrir a Exortação Apostólica “VERBUM DOMINUM”

Posted by: | Posted on: maio 31, 2012

Reflexão do Papa Bento XVI

”O cristianismo não é uma religião do medo, mas da confiança e do amor”

O cristianismo não é uma religião do medo, mas da confiança e do amor ao Pai que nos ama. Essas duas densas afirmações nos falam do envio e da acolhida do Espírito Santo, o dom do Ressuscitado, que nos torna filhos em Cristo, o Filho unigênito, e nos coloca em uma relação filial com Deus, relação de profunda confiança, como a das crianças.

Publicamos aqui a Audiência Geral do Papa Bento XVI, publicada no jornal L’Osservatore Romano, 23-05-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Queridos irmãos e irmãs,

Quarta-feira passada, eu mostrei como São Paulo diz que o Espírito Santo é o grande mestre da oração e nos ensina a nos voltarmos novamente para Deus com os termos afetuosos dos filhos, chamando-o de “Abba, Pai”. Assim fez Jesus. Mesmo no momento mais dramático da sua vida terrena, Ele nunca perdeu a confiança no Pai e sempre o invocou com a intimidade do Filho amado. No Getsêmani, quando sente a angústia da morte, a sua oração é: “Abba! Pai! Tudo é possível para ti: afasta de mim este cálice! Mas não o que eu quero, mas sim o que tu queres” (Mc 14, 36).

Desde os primeiros passos do seu caminho, a Igreja acolheu essa invocação e a assumiu como própria, sobretudo na oração do Pai Nosso, em que dizemos cotidianamente: “Pai … seja feita a vossa vontade, assim na terra como no céu” (Mt 6, 9-10). Nas Cartas de São Paulo, encontramo-la duas vezes. O Apóstolo, ouvimo-lo agora, se dirige aos gálatas com estas palavras: “A prova de que vocês são filhos é o fato de que Deus enviou aos nossos corações o Espírito do seu Filho que clama: Abba, Pai!” (Gl 4, 6). E no centro daquele canta ao Espírito que é o capítulo oitavo da Carta aos Romanos, São Paulo afirma: “E vocês não receberam um Espírito de escravos para recair no medo, mas receberam um Espírito de filhos adotivos, por meio do qual clamamos: Abba! Pai!” (Rm 8, 15).

O cristianismo não é uma religião do medo, mas da confiança e do amor ao Pai que nos ama. Essas duas densas afirmações nos falam do envio e da acolhida do Espírito Santo, o dom do Ressuscitado, que nos torna filhos em Cristo, o Filho unigênito, e nos coloca em uma relação filial com Deus, relação de profunda confiança, como a das crianças; uma relação filial análoga à de Jesus, embora a origem e a espessura sejam diferentes: Jesus é o Filho eterno de Deus que se fez carne, nós, ao contrário, nos tornamos filhos n’Ele, no tempo, mediante a fé e os Sacramentos do Batismo e da Crisma. Graças a esses dois sacramentos somos imersos no Mistério pascal de Cristo. O Espírito Santo é o dom precioso e necessário que nos torna filhos de Deus, que realiza aquela adoção filial a qual são chamados todos os seres humanos para que, como precisa a bênção divina da Carta aos Efésios, Deus, em Cristo, “nos escolheu antes de criar o mundo para que sejamos santos e sem defeito diante dele, no amor” (Ef 1,4).

Talvez, o ser humano de hoje não percebe a beleza, a grandeza e a consolação profunda contidas na palavra “pai” com que podemos nos dirigir a Deus na oração, porque a figura paterna muitas vezes hoje não é suficientemente presente, embora muitas vezes não seja suficientemente positiva na vida cotidiana. A ausência do pai, o problema de um pai não presente na vida da criança é um grande problema do nosso tempo, por isso se torna difícil entender na sua profundidade o que quer dizer que Deus é Pai para nós.

De Jesus mesmo, da sua relação filial com Deus, podemos aprender o que significa propriamente “pai”, qual é a verdadeira natureza do Pai que está nos céus. Críticos da religião disseram que falar do “Pai”, de Deus, seria uma projeção dos nossos pais no céu. Mas o oposto é verdadeiro: no Evangelho, Cristo nos mostra quem é pai e como é um verdadeiro pai, de modo que possamos intuir a verdadeira paternidade, aprender também a verdadeira paternidade. Pensemos na palavra de Jesus no Sermão da Montanha, onde diz: “Amem os seus inimigos, e rezem por aqueles que perseguem vocês! Assim vocês se tornarão filhos do Pai que está no céu” (Mt 5, 44-45).

É justamente o amor de Jesus, o Filho unigênito – que chega ao dom de Si mesmo na cruz – que nos revela a verdadeira natureza do Pai: Ele é o Amor, e nós também, na nossa oração de filhos, entramos nesse circuito de amor, amor de Deus que purifica os nossos desejos, as nossas atitudes marcadas pelo fechamento, pela autossuficiência, pelo egoísmo, típicos do homem velho.

Gostaria de me deter um momento sobre a paternidade de Deus, para que possamos nos deixar aquecer o coração por essa profunda realidade que Jesus nos fez conhecer plenamente e para que a nossa oração seja por ela nutrida. Portanto, podemos dizer que, em Deus, o ser Pai tem duas dimensões. Acima de tudo, Deus é nosso Pai, porque é o nosso Criador. Cada um de nós, cada homem e cada mulher, é um milagre de Deus, é querido por Ele e é conhecido pessoalmente por Ele.

No Livro do Gênesis, quando se diz que o ser humano é criado à imagem de Deus (cf. 1, 27), quer-se expressar justamente essa realidade: Deus é o nosso Pai, por Ele não somos seres anônimos, impessoais, mas temos um nome. E uma palavra nos Salmos sempre me toca quando eu a rezo: “Tuas mãos me plasmaram”, diz o salmista (Sl 119,73). Cada um de nós pode dizer, nessa bela imagem, a relação pessoal com Deus: “Tuas mãos me plasmaram. Tu me pensaste e criaste e desejaste”.

Mas isso ainda não basta. O Espírito de Cristo nos abre a uma segunda dimensão da paternidade de Deus, além da criação, porque Jesus é o “Filho” em sentido amplo, “da mesma substância do Pai”, como professamos no Credo. Tornando-se um ser humano como nós, com a Encarnação, a Morte e a Ressurreição, Jesus, por sua vez, nos acolhe na sua humanidade e no seu próprio Filho, para que possamos entrar no seu específico pertencimento a Deus.

Certamente, o nosso ser filhos de Deus não tem a plenitude de Jesus: devemos nos torná-lo cada vez mais, ao longo do caminho de toda a nossa existência cristã, crescendo no seguimento de Cristo, na comunhão com Ele para entrar cada vez mais intimamente na relação de amor com Deus Pai, que sustenta a nossa vida. É essa realidade fundamental que nos é descerrada quando nos abrimos ao Espírito Santo, e Ele nos faz voltar novamente a Deus dizendo-lhe: “Abbá!”, Pai! Realmente entramos além da criação na adoção com Jesus; unidos estamos realmente em Deus e filhos de um modo novo, em uma dimensão nova.

Mas gostaria agora de voltar aos dois trechos de São Paulo que estamos considerando acerca dessa ação do Espírito Santo na nossa oração. Aqui também são duas passagens que se correspondem, mas contêm uma tonalidade diferente. Na Carta aos Gálatas, de fato, o Apóstolo afirma que o Espírito grita em nós “Abba! Pai!”. Na Carta aos Romanos, ele diz que somos nós que gritamos: “Abbá! Pai”. E São Paulo quer nos fazer compreender que a oração cristã nunca é, nunca ocorre apenas em sentido único de nós a Deus, não é só um “agir nosso”, mas é também expressão de uma relação recíproca em que Deus age por primeiro: é o Espírito Santo que grita em nós, e nós podemos gritar porque o impulso vem do Espírito Santo. Nós não poderíamos rezar se não estivesse inscrito nas profundezas do nosso coração o desejo de Deus, o ser filhos de Deus.

Desde que existe, o “homo sapiens” sempre está em busca de Deus, tenta falar com Deus, porque Deus inscreveu a si mesmo nos nossos corações. Portanto, a primeira iniciativa vem de Deus, e, com o Batismo, Deus de novo age em nós, o Espírito Santo age em nós; é o primeiro iniciador da oração, para que possamos depois realmente falar com Deus e dizer “Abba”. Portanto, a Sua presença abre a nossa oração e a nossa vida, abre aos horizontes da Trindade e da Igreja.

Além disso, compreendemos – este é o segundo ponto – que a oração do Espírito de Cristo em nós e a nossa n’Ele não é só um ato individual, mas também um ato de toda a Igreja. No rezar, abre-se o nosso coração, entramos em comunhão não só com Deus, mas precisamente com todos os filhos de Deus, porque somos uma coisa só. Quando nos dirigimos ao Pai na nossa sala interior, no silêncio e no recolhimento, jamais estamos sozinhos. Quem fala com Deus não está sozinho. Estamos na grande oração da Igreja, fazemos parte de uma grande sinfonia que a comunidade cristã espalhada em toda a parte da terra e em todo tempo eleva a Deus.

Certamente, os músicos e os instrumentos são diferentes – e esse é um elemento de riqueza –, mas a melodia de louvor é única e em harmonia. Todas as vezes, então, que gritamos e dizemos: “Abba! Pai!” é a Igreja, toda a comunhão dos seres humanos em oração que sustenta a nossa invocação e a nossa invocação é invocação da Igreja. Isso se reflete também na riqueza dos carismas, dos ministérios, das tarefas, que desenvolvemos na comunidade.

São Paulo escreve aos cristãos de Corinto: “Existem diversos carismas, mas um só é o Espírito; há diversos ministérios, mas um só é o Senhor; há diversas atividades, mas um só é Deus que realiza tudo em todos” (1Cor 12, 4-6). A oração guiada pelo Espírito Santo que nos faz dizer “Abbá! Pai!” com Cristo e em Cristo nos insere no único grande mosaico da família de Deus, em que cada um tem um lugar e um papel importante, em profunda união com o todo.

Uma última anotação: aprendemos a gritar! “Abba!, Pai” também com Maria, a Mãe do Filho de Deus. O cumprimento da plenitude do tempo, do qual fala São Paulo na Carta aos Gálatas (cf. 4, 4), acontece no momento do “sim” de Maria, da sua adesão plena à vontade de Deus: “Eis aqui a serva do Senhor” (Lc 1, 38).

Queridos irmãos e irmãs, aprendamos a apreciar na nossa oração a beleza de sermos amigos, ou, melhor, filhos de Deus, de podê-lo invocar com a confidência e a confiança que um filho tem pelos pais que o amam. Abramos a nossa oração à ação do Espírito Santo para que em nós ele grite a Deus “Abba! Pai” e para que a nossa oração mude, se converta constantemente o nosso pensar, o nosso agir para torná-lo cada vez mais conforme ao do Filho Unigênito, Jesus Cristo. Obrigado.

 Artigo enviado por D. Vilson Dias de Oliveira, DC – Bispo da Diocese de Limeira

Posted by: | Posted on: fevereiro 21, 2012

Mensagem de Sua Santidade Bento XVI para a Quaresma

«Prestemos atenção uns aos outros, para nos estimularmos ao amor e às boas obras» Heb 10, 24)

Papa

Irmãos e irmãs!

A Quaresma nos oferece a oportunidade de refletir mais uma vez sobre o cerne da vida cristã: o amor. Com efeito este é um tempo propício para renovarmos, com a ajuda da Palavra de Deus e dos Sacramentos, o nosso caminho pessoal e comunitário de fé. Trata-se de um percurso marcado pela oração e a partilha, pelo silêncio e o jejum, com a esperança de viver a alegria pascal.

Desejo, neste ano, propor alguns pensamentos inspirados num breve texto bíblico tirado da Carta aos Hebreus: «Prestemos atenção uns aos outros, para nos estimularmos ao amor e as boas obras» (10,24).

Esta frase aparece inserida numa passagem onde o escritor sagrado exorta a ter confiança em Jesus Cristo como Sumo Sacerdote, que nos obteve o perdão e o acesso a Deus. O fruto do acolhimento de Cristo é uma vida edificada segundo as três virtudes teologais: trata-se de nos aproximarmos do Senhor “com um coração sincero, com a plena segurança da fé” (V.22), e de conservarmos firmemente “a profissão da nossa esperança” (23), numa solicitude constante em praticar, juntamente com os irmãos, “o amor e as boas obras” (V. 24).

Na passagem em questão afirma­se também que é importante, para apoiar esta conduta evangélica, participar dos encontros litúrgicos e da oração na comunidade, com os olhos fixos na meta escatológica: a plena comunhão em Deus (V. 25).

Detenho-me no versículo 24, que, em poucas palavras, oferece um ensinamento precioso e sempre atual sobre três aspectos da vida cristã: prestar atenção ao outro, à reciprocidade e à santidade pessoal.

1. “Prestemos atenção” – A responsabilidade pelo irmão.

O primeiro elemento é o convite a “prestar atenção”: o verbo grego usado é katanoein, que significa observar bem, estar atento, olhar conscienciosamente, dar-se conta de uma realidade. Encontramo-lo no Evangelho, quando Jesus convida os discípulos a “observar” as aves do céu, que não se preocupam com o alimento e, todavia são objeto de solicita e cuidadosa Providência divina (cf. Lc 12, 24), e a “dar-se conta” da trave que têm na própria vista antes de reparar no cisco que está na vista do irmão (cf. Lc 6, 41).

Encontramos o referido verbo também noutro trecho da mesma Carta aos Hebreus, quando convida a “considerar Jesus” (3,1) como o Apóstolo e o Sumo Sacerdote da nossa fé. Por conseguinte o verbo, que aparece na abertura da nossa exortação, convida a fixar o olhar no outro, a começar por Jesus, e a estarmos atentos uns aos outros, a não nos mostrarmos alheios e indiferentes ao destino dos irmãos.

Mas, com frequência, prevalece a atitude contraria: a indiferença, o desinteresse, que nascem do egoísmo, mascarado por uma aparência de respeito pela “esfera privada”.

Também hoje ressoa, com vigor, a voz do Senhor que chama cada um de nós a cuidar do outro. Também hoje Deus nos pede para sermos o “guardião” dos nossos irmãos (cf. Gn 4,9), para estabelecermos relações caracterizadas por recíproca solicitude, pela atenção ao bem do outro e a todo o seu bem. O grande mandamento do amor ao próximo exige e incita a consciência a sentir-se responsável por quem, como eu, é criatura e filho de Deus.

O fato de sermos irmãos em humanidade e, em muitos casos, também na fé, deve levar-nos a ver no outro um verdadeiro alter ego, infinitamente amado pelo Senhor. Se cultivarmos este olhar de fraternidade, brotarão naturalmente do nosso coração a solidariedade, a justiça, bem como a misericórdia e a compaixão.

O Servo de Deus, Paulo VI, afirmava que o mundo atual sofre, sobretudo de falta de fraternidade: “O mundo está doente. O seu mal reside mais na crise de fraternidade entre os homens e entre os povos, do que na esterilização ou no monopólio, que alguns fazem, dos recursos do universo” (Carta enc. Populorum Progresso, 66).

A atenção ao outro inclui que se deseje, para ele ou para ela, o bem sob todos os seus aspectos: físico, moral e espiritual. Parece que a cultura contemporânea perdeu o sentido do bem e do mal, sendo necessário reafirmar com vigor que o bem existe e vence, porque Deus “é bom e faz o bem” (Sal 119118, 68).

O bem é aquilo que suscita, protege e promove a vida, a fraternidade e a comunhão. Assim a responsabilidade pelo próximo significa querer e favorecer o bem do outro, desejando que também ele se abra à lógica do bem; interessar-se pelo irmão quer dizer abrir os olhos às suas necessidades.

A Sagrada Escritura adverte contra o perigo de ter o coração endurecido por uma espécie de “anestesia espiritual”, que nos torna cegos aos sofrimentos alheios.

O evangelista Lucas narra duas parábolas de Jesus, nas quais são indicados dois exemplos desta situação que se pode criar no coração do homem. Na parábola do bom Samaritano, o sacerdote e o levita, com indiferença, “passam ao largo” do homem assaltado e espancado pelos salteadores (cf. Lc 10, 30-32); e, na do rico avarento, um homem saciado de bens não se dá conta da condição do pobre Lázaro que morre de fome à sua porta (cf. Lc 16, 19).

Em ambos os casos, deparamo-nos com o contrario de “prestar atenção”, de olhar com amor e compaixão. O que é que impede este olhar feito de humanidade e de carinho pelo irmão? Com frequência, é a riqueza material e a saciedade, mas pode ser também o antepor a tudo os nossos interesses e preocupações próprias.

Sempre devemos ser capazes de “ter misericórdia” por quem sofre; o nosso coração nunca deve estar tão absorvido pelas nossas coisas e problemas que fique surdo ao brado do pobre. Diversamente, a humildade de coração e a experiência pessoal do sofrimento podem, precisamente, revelar­se fonte de um despertar interior para a compaixão e a empatia: “O justo conhece a causa dos pobres, porém o ímpio não o compreende” (Prov 29, 7).

Deste modo entende-se a bem-aventurança “dos que choram” (Mt 5,4), isto é, de quantos são capazes de sair de si mesmos porque se comoveram com o sofrimento alheio. O encontro com o outro e a abertura do coração as suas necessidades são ocasião de salvação e de bem-aventurança.

O fato de “prestar atenção” ao irmão inclui, igualmente, a solicitude pelo seu bem espiritual. E aqui desejo recordar um aspecto da vida cristã que me parece esquecido: a correção fraterna, tendo em vista a salvação eterna. De forma geral, hoje se é muito sensível ao tema do cuidado e do amor que visa o bem físico e material dos outros, mas quase não se fala da responsabilidade espiritual pelos irmãos.

Na Igreja dos primeiros tempos não era assim, como não o é nas comunidades verdadeiramente maduras na fé, nas quais se tem a peito não só a saúde corporal do irmão, mas também a da sua alma, tendo em vista o seu destino derradeiro.

Lemos na Sagrada Escritura: “Repreende o sábio e ele te amará. Dá conselhos ao sábio e ele tornar-se-á ainda mais sábio, ensina o justo e ele aumentará o seu saber” (Prov 9, 8-9). O próprio Cristo manda repreender o irmão que cometeu um pecado (cf. Mt 18, 15). O verbo usado para exprimir a correção fraterna – elenchein – é o mesmo que indica a missão profética, própria dos cristãos, de denunciar uma geração que se faz condescendente com o mal (cf. Ef 5,11).

A tradição da Igreja enumera entre as obras espirituais de misericórdia a de “corrigir os que erram”. É importante recuperar esta dimensão do amor cristão. Não devemos ficar calados diante do mal.

Penso aqui na atitude daqueles cristãos que preferem, por respeito humano ou mera comodidade, adequar-se a mentalidade comum em vez de alertar os próprios irmãos contra modos de pensar e agir que contradizem a verdade e não seguem o caminho do bem.

Entretanto a advertência cristã nunca há de ser animada por espírito de condenação ou censura; é sempre movida pelo amor e a misericórdia e brota duma verdadeira solicitude pelo bem do irmão. Diz o apóstolo Paulo: “Se porventura um homem for surpreendido nalguma falta, vós, que sois espirituais, corrigi essa pessoa com espírito de mansidão e tu, olha para ti próprio, não estejas também tu a ser tentado” (Gl 6,1). Neste nosso mundo impregnado de individualismo, é necessário redescobrir a importância da correção fraterna, para caminharmos juntos para a santidade.

É que “sete vezes cai o justo” (Prov 24,16) diz a Escritura, e todos nós somos frágeis e imperfeitos (cf. 1 Jo 1,8). Por isso, é um grande serviço ajudar, e deixar-se ajudar, a ler com verdade dentro de si mesmo, para melhorar a própria vida e seguir mais retamente o caminho do Senhor. Há sempre necessidade de um olhar que ama e corrige, que conhece e reconhece, que discerne e perdoa (cf. Lc 22, 61), como fez, e faz, Deus com cada um de nós.

2. “Uns aos outros”: O dom da reciprocidade.

O fato de sermos o dos outros contrasta com uma mentalidade que, reduzindo a vida unicamente à dimensão terrena, deixa de considerá-la na sua perspectiva escatológica e aceita qualquer opção moral em nome da liberdade individual. Uma sociedade como a atual pode tornar-se surda quer aos sofrimentos físicos, quer as exigências espirituais e morais da vida. Não deve ser assim na Comunidade Cristã. O apóstolo Paulo convida a procurar o que «leva à paz e à edificação mútua» (Rm 14, 19), favorecendo o «próximo no bem, em ordem a construção da Comunidade» (Rm 15, 2), sem buscar “o próprio interesse, mas o do maior número, a fim de que eles sejam salvos” (1 Cor 10, 33). Esta recíproca correção e exortação, com espírito de humildade e de amor, deve fazer parte da vida da Comunidade cristã.

Os discípulos do Senhor, unidos a Cristo através da Eucaristia, vivem numa comunhão que os liga uns aos outros como membros de um só corpo. Isto significa que o outro me pertence: a sua vida e a sua salvação tem a ver com a minha vida e a minha salvação.

Tocamos aqui um elemento muito profundo da comunhão: a nossa existência está ligada a dos outros, quer no bem quer no mal; tanto o pecado como as obras de amor possuem também uma dimensão social. Na Igreja, corpo místico de Cristo, verifica-se esta reciprocidade: a comunidade não cessa de fazer penitência e implorar perdão para os pecados dos seus filhos, mas alegra-se contínua e jubilosamente também com os testemunhos de virtude e de amor que nela se manifestam. Que “os membros tenham a mesma solicitude uns para com os outros” (1Cor 12,25)  afirma São Paulo, porque somos um e o mesmo corpo. O amor pelos irmãos, do qual é expressão a esmola – típica prática quaresmal, juntamente com a oração e o jejum – radica­se nesta pertença comum. Também com a preocupação concreta pelos mais pobres, pode cada cristão expressar a sua participação no único corpo que é a Igreja. E é também atenção aos outros na reciprocidade saber reconhecer o bem que o Senhor faz neles e agradecer com eles pelos prodígios da graça que Deus, bom e onipotente, continua a realizar nos seus filhos. Quando um cristão vislumbra no outro a ação do Espírito Santo, não pode deixar de se alegrar e dar glória ao Pai celeste (cf. Mt 5,16).

3. “Para nos estimularmos ao amor e às boas obras”. – Caminhar juntos na santidade.

Esta afirmação da Carta aos Hebreus (10,24) impele-nos a considerar a vocação universal à santidade como o caminho constante na vida espiritual, a aspirar aos carismas mais elevados e a um amor cada vez mais alto e fecundo (cf. 1Cor 12,31-13; 13). A atenção recíproca tem como finalidade estimular-se, mutuamente, a um amor efetivo sempre maior, “como a luz da aurora, que cresce ate ao romper do dia” (Prov 4,18), à espera de viver o dia sem ocaso em Deus. O tempo, que nos e’ concedido na nossa vida, é precioso para descobrir e realizar as boas obras, no amor de Deus. Assim a própria Igreja cresce e se desenvolve para chegar à plena maturidade de Cristo (cf. Ef 4,13). É nesta perspectiva dinâmica de crescimento que se situa a nossa exortação a estimular-nos reciprocamente para chegar à plenitude do amor e das boas obras.

Infelizmente, está sempre presente a tentação da tibieza, de sufocar o Espírito, da recusa de “pôr a render os talentos” que nos foram dados para bem nosso e dos outros (cf. Mt 25,24-28). Todos recebemos riquezas espirituais ou materiais úteis para a realização do plano divino, para o bem da Igreja e para a nossa salvação pessoal (cf. Lc 12,21; 1Tm 6,18). Os mestres espirituais lembram que, na vida de fé, quem não avança, recua. Queridos irmãos e irmãs, acolhamos o convite, sempre atual, para tendermos “medida alta da vida cristã” (João Paulo II, Carta Apostólica Novo Millennio Ineunte, 31). A Igreja, na sua sabedoria, ao reconhecer e proclamar a bem-aventurança e a santidade de alguns cristãos exemplares, tem como finalidade também suscitar o desejo de imitar as suas virtudes. São Paulo exorta: «Adiantai-vos uns aos outros na mútua estima» (Rm 12,10).

Que todos, à vista de um mundo que exige dos cristãos um renovado testemunho de amor e fidelidade ao Senhor, sintam a urgência de esforçar se por adiantar no amor, no Serviço e nas obras boas (cf. Heb 6, 10). Este apelo ressoa particularmente forte neste tempo santo de preparação para a Páscoa. Com votos de uma Quaresma santa e fecunda, confio-vos à intercessão da bem-aventurada \/irgem Maria e, de coração, concedo a todos a Bênção Apostólica.

Benedictus PP. XVI