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Posted by: | Posted on: dezembro 29, 2012

Frei Gilberto Gorgulho OP (1933-2012)

autor: Domingos Zamagna

Faleceu em São Paulo, às 6,20 hs de quarta-feira, festa do Proto-mártir Santo Estevão, o exegeta Frei Gilberto da Silva Gorgulho.

Durante seis décadas Frei Gorgulho, da Ordem dos Frades Pregadores, foi um incansável Pregador da Palavra de Deus.

Natural de Cristina-MG, de família muitíssimo cristã, que deu à Igreja também duas religiosas da Congregação da Providência de Gap, desde que se decidiu pela vida sacerdotal, cursou seminários clássicos e deles herdou o que eles tinham de muito bom: espírito de pobreza e serviço evangélicos, disciplina intelectual, fé sólida vivenciada na oração, espiritualidade, cultura, erudição.

Entrando na Ordem dos Dominicanos, os superiores acolheram seu desejo de especializar-se em Sagradas Escrituras, enviando-o para estudos avançados na França, em Saint-Maximin (Provence) e Toulouse (Haute Garonne). Em seguida passou pela Universidade Santo Tomás de Aquino (Angelicum) de Roma para a obtenção dos graus acadêmicos em Sagrada Escritura na Comissão Bíblica da Santa Sé. Especializou-se em seguida na École Biblique et d’Archéologie Française de Jerusalém (fundada pelo Pe. Marie-Joseph Lagrange OP e até hoje mantida pelos Dominicanos), filiada à École Pratique des Hautes Études, da Sorbonne-Paris. Durante os três anos que viveu no Oriente, residiu no Convento de Santo Estevão, santo que o acolheu, liturgicamente, no dia de seu falecimento.

Retornando ao Brasil, a partir da década de 60, Fr. Gorgulho se dedicou intensamente ao magistério, principalmente na Escola Dominicana de Teologia, na Faculdade de Teologia Nossa Senhora da Assunção e no Instituto Teológico Pio XI, em São Paulo, mas sempre dando cursos regulares em Petrópolis (RJ), Viamão (RS) e cursos e palestras em vários estados brasileiros e no exterior. Foi colaborador assíduo da CRB e da CNBB e sempre muito engajado nos trabalhos ecumênicos.

Durante décadas, Fr. Gorgulho orientou centenas de dissertações e teses em estudos bíblicos, formando pelo menos duas gerações de biblistas brasileiros e latino-americanos.

Fr. Gorgulho participou ativamente da preparação e difusão do Concílio do Vaticano II. Recordo-me de vários arcebispos e bispos que passavam horas em seu escritório no Convento de Santo Alberto Magno estudando com ele os documentos preparatórios do Concílio, dentre eles o então arcebispo de Ribeirão Preto, D. Agnelo Rossi, que mais tarde se tornou cardeal-arcebispo de São Paulo e lhe abriu as portas da arquidiocese para um trabalho qualificado de evangelização. A partir de 1971, quando D. Paulo Evaristo Arns OFM substituiu D. Agnelo, entre o novo arcebispo e o frade desenvolveu-se intensa colaboração pastoral, especialmente na evangelização das periferias, para a qual Fr. Gorgulho não mediu esforços, colocando a serviço dos pobres seus conhecidos dons intelectuais, sua ousadia pastoral, seu discernimento teológico e sua liberdade de fiel Pregador da Palavra de Deus.

Teve colaboradores e bons companheiros, porque sempre soube trabalhar em equipe e fiel às amizades: D. Luciano Mendes de Almeida SJ, D. Cândido Padin OSB, D. Tomás Balduíno OP, D. Valdir Calheiros, Frei Carlos Josaphat OP, Pe. José Comblin (hoje no ostracismo em certas dioceses), Frei Carlos Mesters, O. Carm., Pastor Milton Schwantes, Profa. Ana Flora Anderson, Pe. Ticão, Mons. Lancelotti, Prof. Alfredo Bosi, o jornalista Evaldo Dantas e uma plêiade de leigos e leigas que se beneficiavam de seus ensinamentos.

Durante vários anos Fr. Gorgulho dirigiu os trabalhos de tradução da Bíblia de Jerusalém, editada pela Paulus, editora pela qual lançou uma dúzia de títulos. Colaborador de várias revistas, teve também uma coluna no jornal “O São Paulo”. Na década de 70 era um prazer ouvir seus comentários na TV Record, rápidos e profundos, num quadro chamado “Esta cidade tem alma”.

Intelectual finíssimo, e todavia sempre um homem de hábitos simples, modos de homem do povo do sul de Minas.

Como infelizmente sói acontecer, toda vez que alguém se dedica de corpo e alma, fielmente, à evangelização, aparecem alguns que o acusam de heterodoxia etc. Às vezes isso até pode ser verdade, mas é difícil conhecer alguém mais evangelicamente ortodoxo do que Fr. Gorgulho! No entanto, isso é um leit-motiv na História da Igreja: aconteceu com Santo Tomás de Aquino, com Pe. Lagrange, Pe. Lyonnet… Essas indignidades fizeram com que Fr. Gorgulho precisasse abandonar a cátedra na Faculdade de Teologia Nossa Senhora da Assunção, em São Paulo, sem solidariedade dos professores, num momento em que esta instituição rompia com a Teologia da Libertação.

Foi acolhido durante alguns anos no Programa de Estudos Pós-Graduados em Ciências da Religião, da PUC-SP, orientando dezenas de trabalhos e publicando muitos artigos, até que a idade avançada começou a limitar seus empreendimentos. Poucos sabem, mas a demissão da PUC-SP, numa vala-comum típica do capitalismo que justamente as instituições católicas gostam de criticar, juntamente com centenas de outros professores, causou-lhe profundo desgosto, sobretudo quando soube que o motivo alegado, mas que o burocrata de plantão não teve coragem de lhe dizer, foi que “o seu tempo tinha passado”.

Ora, Fr. Gorgulho jamais pregou a si próprio: deu o melhor de seu tempo, de sua vida, para pregar a pessoa e a missão de Jesus, e Jesus Crucificado (cf 1Cor. 1,23). É lamentável, é obsceno achar que tal tempo passou!

Mas, sob outro ponto de vista, de fato, agora são outros tempos, conduzidos por outros agentes, outras lideranças. Devemos ser humildes, o tempo passa para todos. Que isto seja dito para contemplarmos a suprema verdade: somente o Reino é eterno! “A erva seca e a flor fenece, somente a Palavra do Senhor permanece eternamente” (Is 40,8).

Esperemos que sejam tempos melhores para a Igreja, isto é, de mais liberdade e ousadia (parressia), mais lucidez, mais justiça e menos autoritarismo, mais solidariedade, mais caridade, mais paz, mais alegria. Foi para isso que Fr. Gorgulho, qual semeador, como varão evangélico, passou a vida, pobremente, sem os aparatos do poder, pregando a Palavra de Deus.

Autor: Professor Dr. Domingos Zamagna 

Jornalista e professor de Filosofia em São Paulo

Fonte: ADITAL – http://www.adital.com.br/site/noticia.asp?lang=PT&langref=PT&cod=73028

Posted by: | Posted on: dezembro 27, 2012

Frei Gorgulho: ler a Bíblia com o coração comprometido com os pobres

Jung Mo Sung

Faleceu hoje, 26/12/2012, às 06h20minhs da manhã, em São Paulo, o frei Gilberto Gorgulho (dominicano). É provável que muitos dos leitores não o conheçam ou nunca tenham ouvido falar no seu nome. Ele nunca foi uma “estrela” no campo da teologia, nem escreveu grandes livros ou esteve envolvido em alguma polêmica que tenha ido parar nos meios de comunicação. Mas, ele foi alguém que marcou gerações de cristãos que se comprometeram com a causa da justiça social e a defesa da vida dos pobres nas décadas de 1980 a 2000.

Acima de tudo, ele foi um professor de Bíblia que ensinou gerações de estudantes de teologia, agentes de pastoral, lideranças populares, sem falar nas irmãs e padres que fizeram cursos de aprofundamento na leitura “popular” da Bíblia. A sua prioridade na formação de agentes de pastoral e lideranças populares das comunidades eclesiais aparece na forma de publicação que ele – e sua parceira de muitos anos no ensino bíblico, Ana Flora – mais se dedicou: cadernos populares de guia para leitura de textos bíblicos. É claro que ele também publicou livros na forma clássica, mas as suas intuições e textos mais vibrantes se encontram ou eram publicados em primeiro lugar nesses cadernos.

Além de biblista, ele era um intelectual erudito capaz de lidar com filósofos, teólogos ou com grandes questões do mundo científico ou político. Tenho orgulho de dizer que fui seu aluno por 6 anos (4 na graduação e 2 no mestrado em teologia) e que ele foi um dos professores que mais marcou a minha formação. Lembro-me de um curso especial que lhe pedimos: São Tomás de Aquino e Teologia da Libertação. Foi marcante! Durante um semestre, ele nos explicou os 10 artigos da primeira questão da Suma Teológica de S. Tomás mostrando o que estava em jogo ou em discussão por detrás de cada afirmação. Mais do que isso, ele nos fez ler textos da teologia da libertação e da tradição marxista para aprofundar no final do século XX as questões estudadas por Tomás no seu tempo. Ele nos introduziu no caminho denso, longo e difícil de reflexão teológica séria, interdisciplinar e, acima de tudo, comprometida com as questões reais e fundamentais do nosso tempo.

Foi em curso sobre profetas e a reforma deuteronomista, que tive com ele, que escrevi meu primeiro texto acadêmico na direção que tenho seguido desde então: reflexão teológica sobre economia. Estimulado por suas aulas e por suas provocações, escrevi um trabalho semestral sobre a reforma deuteronomista e o modo de produção tributário. Como texto de exegese, é claro, deixa muito a desejar, mas foi o meu primeiro passo nesse caminho que tenho percorrido há mais de 20 anos.

A influência de um professor não se mede somente por aulas que ele dá, mas pelas “janelas” que abre aos seus alunos. No segundo ano de teologia, ele me disse: “Jung, você precisa ler o livro ‘As ideológicas da morte’, de Franz Hinkelammert!”. Li e isso fez a grande diferença na minha vida intelectual. No mestrado, ele me indicou outro autor que eu não poderia não estudar: René Girard. Esses dois autores fazem parte do meu modo de pensar e refletir o mundo e a teologia. E isso eu devo ao frei Gorgulho.

Frei Gorgulho, ou simplesmente “frei” como eu costumava me dirigir a ele, fez muitos dos seus alunos e alunos a ver como a questão da “justiça e direito em favor dos pobres, órfãos, viúvas e estrangeiros” é o tema central da Bíblia, que perpassa todos os seus livros da Bíblia; e que, como nos ensina profeta Jeremias, fazer essa justiça é conhecer a Deus.

Que Deus o receba nos seus braços e nos envie mais pessoas como ele que articule seriamente a reflexão teórica com a “meditação” bíblica no serviço à vida das comunidades e das pessoas mais pobres e vulneráveis do nosso mundo.

Autor: Jung Mo Sung – Diretor da Faculdade de Humanidades e Direito da Univ. Metodista de S. Paulo, autor com Hugo Assmann, de “Deus em nós: o reinado que acontece no amor solidário aos pobres”. Twitter: @jungmosung)

Fonte: ADITAL – http://www.adital.com.br/site/noticia.asp?lang=PT&cod=73020

NOTA DA AUTORA DO BLOG DA CATEQUESE: Faço minhas as palavras do Professor Dr. Jung Mo Sung, do qual fui aluna na Pós-Graduação.

Frei Gorgulho foi meu professor de Bíblia, Antigo Testamento, durante meu curso de graduação em Teologia, na EDT – Escola Dominicana de Teologia. Conhecer Frei Gorgulho e olhar para a Bíblia através dos seus ensinamentos abriram para mim uma nova perspectiva de vida cristã à luz da Palavra de Deus.

Com o retorno do nosso querido Frei Gorgulho à Casa do Pai, ficamos órfãos da sabedoria daquele que soube servir a Deus não apenas anunciando a sua Palavra, mas desvendando em parte os seus mistérios escondidos por trás das palavras humanas que a ela deram forma.

Saudades é a única palavra que encontro para falar do sentimento que vai no coração de todos os seus alunos que beberam e se embebedaram na fonte de sabedoria de Frei Gorgulho, iluminado pela luz daquele que o chamou para fazer dele um instrumento de sua Paz. Os céus estão em festa pela volta desse filho que soube honrar o nome de Deus e ser um servidor fiel de Jesus na terra.

Posted by: | Posted on: março 23, 2012

ÁGUA, O FUTURO E DOIS TIPOS DE ESPERANÇA

Autor: Jung Mo Sung

por Adital Notícias da América Latina e do Caribe

Dia 22 de março foi o “Dia Mundial da Água”, criado pela ONU para que o mundo tome consciência e faça algo para evitar um grande desastre que poderá cair sobre a humanidade com a escassez de água potável no mundo.

Todos, ou quase todos, já viram ou ouviram falar do que pode acontecer se continuarmos desperdiçando um bem tão vital como água potável. Mas, parece que apenas um número relativamente pequeno está levando esse problema a sério. Por que será isso?

Muitos dos que estão engajados na campanha pela preservação de recursos naturais escassos, como água, parecem pressupor que as pessoas não se “conscientizaram” só porque ainda não conhecem suficientemente o problema. Assim, a contramedida seria falar mais, “conscientizar” mais. É claro que há muitos que ainda não conhecem esse problema, mas eu suspeito que haja outros fatores que levam pessoas que já conhecem, já tomaram consciência do problema da água, a viverem como se nada de grave fosse acontecer no futuro.

Deixe-me dar um exemplo do cotidiano para explicar melhor o que quero dizer. Quando algum conhecido nosso enfrenta um problema grave de saúde, nós costumamos encorajá-lo dizendo que “tudo vai ficar bem”. E isso é importante porque sem esperança a pessoa não encontra força para lutar contra a enfermidade ou para enfrentar os efeitos colaterais do tratamento. Essa expressão “tudo vai ficar bem” revela uma confiança de que há um ser superior dirigindo as nossas vidas. E, se ao final, a pessoa morre, dizemos aos seus entes queridos que ela foi para um lugar melhor. Isto é, “tudo vai ficar bem”, mesmo após a morte.

Esse tipo de “esperança” aparece também em algumas visões sobre a história da humanidade e do universo/criação. Há grupos – alguns ligados a eco-espiritualidade – que dizem que há um Deus bom e providencial guiando todo o universo. Todo o universo estaria prenhe do Espírito divino. E por isso a história da humanidade e de todo o universo caminha para um ponto de plenitude, e o bem vencerá o mal. É uma visão ampliada do “tudo vai ficar bem”.

Se “tudo vai acabar bem”, por que deveríamos levar a sério a ameaça de um futuro sombrio para humanidade por conta do desperdício da água potável? Quem compartilha dessa esperança “sabe” que Deus dará um jeito para resolver o problema no futuro. A esperança por detrás do “tudo vai acabar bem” é um tipo de esperança que pode conduzir a uma catástrofe. É um tipo de esperança que H. Hannoun chamou de “esperança expectante”, que apenas espera.

Há, especialmente entre cristãos mais fundamentalistas, um outro tipo de esperança que leva as pessoas a não fazer nada diante do desafio. É a esperança “apocalíptica” fundamentalista de que o mundo só terá jeito após a volta de Jesus, e essa volta será precedida por grandes catástrofes. Neste sentido, a crise da água potável seria um sinal positivo, pois apressaria a volta de Jesus.

As pessoas e os povos só atuarão de verdade e efetivamente se levarem a sério a ameaça que enfrentamos. E para levar a sério esse desafio, devemos abandonar as concepções “teológicas” de histórias dirigidas ou guiadas por deuses, Espírito ou por algum tipo de “lei da história”. Precisamos assumir, intelectual e existencialmente, que o futuro está aberto diante de nós. Mas, não nos engajamos nas lutas difíceis só porque descobrimos problemas graves. É preciso de uma força espiritual que nasce da esperança! Esperança essa que não seja somente “expectante”, mas que leva a uma ação. Uma esperança que nasce de uma fé de que o mundo e o futuro podem ser melhores; uma esperança que nos convoca para ação.

[Autor, com Hugo Assmann, do livro “Deus em nós: o reinado que acontece no amor solidário aos pobres”, Paulus. Twitter: @jungmosung].

Fonte: CEBI – www.cebi.org.br

Posted by: | Posted on: março 15, 2012

A CRISE DA ÁGUA E A SEDE DE VIDA

aUTOR: Marcelo Barros

por Adital

Marcelo Barros é assessor do CEBI e autor de O Espírito vem pelas águas.

Na próxima semana, dia 22, a ONU celebra mais um dia internacional da água. Em vários países, devido à urgência do problema, as reflexões e eventos sobre esse dia tomarão toda a semana. De fato, estamos em situação de risco. O sistema de vida no planeta Terra está ameaçado e a água se torna o bem mais precioso. Hoje, 1,1 bilhão de pessoas já não têm acesso à água potável, e 2,4 bilhão de pessoas não têm saneamento básico. Cada ano, seis milhões de pobres, dos quais quatro milhões de crianças, morrem de enfermidades ligadas a águas contaminadas. Até o ano 2025, conforme um estudo da ONU, este problema afetará metade da humanidade.

Há diversos motivos para esta crise. O planeta Terra tem 75% de sua superfície ocupada por oceanos, mas a água doce representa apenas 2,5% deste total. No último século, a população mundial aumentou muito e na maioria dos países a urbanização se fez de modo descontrolado. É ao redor das 217 bacias fluviais internacionais que se concentra 40% da população da humanidade. Por causa do crescimento demográfico e da poluição, nos últimos 30 anos, os recursos hídricos foram reduzidos em 40%. Da água disponível que tínhamos, a humanidade acabou com 5000 Km2. E muitos, ainda se comportam como se a água fosse um bem inesgotável. Usam os recursos hídricos de modo irresponsável e injusto.

A água é um recurso natural limitado e pode acabar. Tem valor econômico e competitivo no mercado. Não pode ser desperdiçada (cada vez que se toma um banho com chuveiro aberto todo o tempo desperdiça-se mais água do que se usa). Quase todos os países atualizam legislações sobre a água. Em vários lugares, há conflitos entre povos por causa da água. Há quem diga que as guerras do futuro serão por causa de água. Organizações não Governamentais e movimentos populares defendem que a água não deve ser mercantilizada – ela é mais do que uma mercadoria – e menos ainda privatizada. A Pastoral da Terra declara: “Sendo a água constitutiva do ser humano, da vida como um todo e do meio ambiente, ela é um direito natural, patrimônio da humanidade, dádiva divina e não obra humana. Por isso, ela não pode ser reduzida a uma mercadoria e a um bem particular. E nenhum ser humano pode arrogar a si o poder de negar a qualquer semelhante ou ser vivo este bem essencial à vida”.

O cuidado com a água tem, então, motivos sociais e econômicos. Mas, a nossa relação com a água só mudará se aprendermos com as culturas religiosas antigas a nos relacionarmos com a terra e com a água de forma amorosa e espiritual. A Bíblia fala da água como símbolo do Espírito de Deus que derrama sobre o universo uma vida nova. Cuidar bem da água e defender os rios e fontes é uma forma de reconhecer a presença divina no universo, defender a vida e participar da Páscoa pela qual Deus “renova todas as coisas” (Ap 21, 5).

Nota: Quem quiser aprofundar mais este assunto, leia o livro de MARCELO BARROS, “O Espírito vem pelas Águas”, publicado pelo CEBI.

Fonte: CEBI – www.cebi.org.br

Posted by: | Posted on: fevereiro 7, 2012

NASCEM PROFETAS

 Texto de Marcelo Barros

(Marcelo  Barros é autor do livro O espírito vem pelas águas)

No Brasil, no dia 07 de fevereiro, nasceu um grande profeta e no mesmo dia, outro profeta deu a vida pelo povo. De fato, no dia 07 de fevereiro de 1756, no sul do Brasil, perdeu a vida o cacique guarani Sepé Tiaraju, defendendo a terra e a liberdade do seu povo contra os exércitos reunidos de Portugal e Espanha. Sepé Tiaraju era o nome que os índios lhe deram. Significa “facho de luz”. Até hoje, o povo da região o venera com o título de São Sepé, inclusive, nome de uma cidade do interior do Rio Grande do Sul. No mesmo dia 07 de fevereiro, já no começo do século XX, nasceu no nordeste brasileiro, uma criança que se tornou Dom Hélder Câmara, bispo dos pobres e profeta da justiça e da libertação.

Todo ser humano pode ser um profeta ou profetiza. Há as pessoas que, desde que nascem, desenvolvem este dom. Outros o descobrem no decorrer da vida. Outros/as passam a vida inteira sem acessar essa capacidade que tem nomes diversos conforme a cultura e tradição na qual se desenvolve e que a Bíblia chama de profecia.

Para muitas culturas indígenas, profeta é alguém que interpreta sonhos, se comunica com os espíritos e interpreta o futuro. Na tradição bíblica mais antiga, os profetas eram videntes que, em comunidade, aconselhavam as pessoas sobre o que fazer na vida e previam o destino do povo. Pouco a pouco, descobriram que sua vocação não era tanto a de apenas pressentir o mundo invisível, mas principalmente ser porta-vozes do Espírito para revelar o projeto divino para o mundo. Deus não intervém diretamente na nossa história e respeita ao máximo a autonomia humana. Por isso, para descobrir sua palavra, homens e mulheres que desenvolvem a vocação profética têm de viver uma profunda busca e discernimento da palavra divina que devem reproduzir. E devem ter muito cuidado para não projetar seus desejos e confundir a palavra de Deus com seus próprios discursos e pensamentos. Durante toda a sua vida quem é profeta ou profetiza busca sinais para poder confiar que a sua intuição vem mesmo da inspiração divina.

Há profetas em todas as religiões e mesmo fora das tradições espirituais. Cada profeta recebe de Deus uma profecia própria. Dom Helder viveu a profecia de sempre ajudar a abrir a Igreja Católica para o diálogo com o mundo, o diálogo com as outras igrejas e as mais diversas religiões. Em uma época na qual os padres e bispos eram formados para verem o comunismo ateu como o inimigo número um, Dom Hélder sempre procurou dialogar com os marxistas e aprofundou uma sincera amizade com Roger Garaudy que na época saia do Partido Comunista Francês. Ele via como sua vocação de cristão ser como Jesus, nunca se negar a dialogar com ninguém e, ao contrário, pelos frutos, valorizar a árvore. Isso o levava a se unir a todos os que buscam transformar esse mundo injusto e garantir o direito dos mais pobres. Diferentemente do índio Sepé Tiaraju, porque viveu em outras condições históricas, Dom Hélder sempre optou pela luta não violenta que ele chamou de insurreição evangélica. Aos 89 anos, no Recife, recebeu o famoso Abbé Pierre. Juntos, declararam à imprensa: “Durante toda a nossa vida, lutamos pela justiça e para transformar esse mundo. Agora, no final de nossa vida, percebemos que não conseguimos muita coisa. Mas, nos comprometemos de novo a ir até o último suspiro lutando por essa mesma causa que cremos: Deus confiou a todos nós que cremos nele”.

Os Atos dos Apóstolos afirmam que o Espírito Santo vem sobre os discípulos de Jesus e se espalha por toda a terra, fazendo de todas as pessoas que o acolhem, profetas e profetizas do projeto divino no mundo. Por isso, todos os dias, nascem profetas.

 Fonte: por Adital – CEBI – Centro de Estudos Bíblicos – www.cebi.org.br