Quando algum dos nossos termina a caminhada

Posted by: | Posted on: outubro 30, 2018
* Frei Gustavo Medella

Considerações Introdutórias

Caminho… Caminhada… É comum, na espiritualidade, lançar-se mão desta metáfora no intuito de ilustrar o dinamismo da história humana. A vida não é estática. É movimento, mudança, percurso, trajeto. Não poucas vezes, na Sagrada Escritura e na vida dos Santos, o caminho se apresenta como rota de conversão, de amadurecimento, de tomada das grandes decisões. Basta recordar a peregrinação do Povo de Israel, 40 anos pelo deserto, retornando do exílio para a terra prometida, das muitas andanças de Jesus Cristo e de Francisco de Assis, quando este volta das Apúlias para sua terra natal, com desejo ardente de atender ao convite do Senhor. Movimento, mudança, questionamento e insegurança quase sempre são elementos constituintes destas caminhadas.

Na vida individual tal fenômeno também é perceptível: cada pessoa experimenta na própria história os efeitos do caminho empreendido. Relações, decisões, alegrias, decepções e dúvidas dão a tônica desta caminhada, até o dia em que, às vezes lenta, às vezes abruptamente, ela chega ao fim. A certeza da finitude funciona como uma espécie de bússola ou, mais modernamente falando, de um GPS que orienta as escolhas e opções de cada um.

Monteiro Lobato, com arte e maestria, dá voz à personagem Emília: “A vida, Senhor Visconde, é um pisca-pisca. A gente nasce, isto é, começa a piscar. Quem pára de piscar chegou ao fim, morreu. Piscar é abrir e fechar os olhos – viver é isso. É um dorme e acorda, dorme e acorda, até que dorme e não acorda mais […] A vida das gentes neste mundo, senhor Sabugo, é isso. Um rosário de piscados. Cada pisco é um dia. Pisca e mama, pisca e brinca, pisca e estuda, pisca e ama, pisca e cria filhos, pisca e geme os reumatismos, e por fim pisca pela última vez e morre. – E depois que morre?, perguntou o Visconde. – Depois que morre, vira hipótese. É ou não é?”

Apesar de ser caminhada individual, a existência humana é uma obra em aberto, principalmente no que diz respeito às relações que permite criar. No paradoxo humano, cada individualidade é fruto de uma relação que tende a expandir suas tramas configuradas pela consanguinidade, pela identificação, pela simpatia, pela amizade, pela necessidade. E é neste aspecto que o tema da finitude ganha força e repercussão, não na história de quem finda sua caminhada, mas se lança como desafio imperativo para quem permanece na estrada. Lidar com a partida daquele que se ama é tarefa inadiável e intransferível, é o preço que se paga por se viver relacionalmente.

E é sobre este nó da trama vital que a presente reflexão deseja se debruçar, principalmente no que diz respeito à abordagem pastoral da questão, revelando o rosto de uma Igreja companheira e solidária com seus filhos e filhas que atravessam este obscuro vale em sua caminhada de vida: a partida de um ente querido. O termo “Igreja” aqui compreendido de forma ampla, na presença dos ministros, ordenados ou instituídos, na atuação de uma pastoral específica, na disponibilidade de uma comunidade capaz de se solidarizar.

Em um primeiro momento, algumas considerações a partir da espiritualidade cristã. Logo após, o texto se ocupará em tecer comentários a partir de situações que a própria prática pastoral apresenta, a saber: A partida como coroamento de uma longa caminhada; a partida de quem atravessa o calvário da doença; a partida repentina. É evidente que a complexidade e a variação quase infinita dos arranjos das inúmeras possibilidades individuais ultrapassam de longe os poucos aspectos aqui descritos. Eles são apenas alguns acenos aproximativos que buscam provocar a reflexão.





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