O sentido do banquete, jantar ou ceia fraterna.

Posted by: | Posted on: maio 30, 2018
Frei Alberto Beckhaüser

A ceia ou banquete é o sinal mais imediato, mais fácil de se perceber. A Eucaristia celebra-se em forma de ceia, como o fez Cristo antes de ser entregue. Esta forma ele a transmitiu à Igreja para que repetisse em memória de sua morte e ressurreição. A Constituição Litúrgica do Concílio Vaticano II diz: “A Eucaristia é o memorial de sua Morte e Ressurreição, sacramento de piedade, sinal de unidade, vínculo de caridade, banquete pascal, em que Cristo nos é comunicado em alimento, o espírito é repleto de graça e nos é comunicado o penhor da futura glória” (SC, nº 47).

Vários são os elementos que lembram esta ceia. Temos o altar, a mesa do Sacrifício cristão, em torno da qual se congrega a assembleia dos fiéis. Os elementos mais significativos são, sem dúvida, o pão e o vinho – comida e bebida – apresentados em bandejas e cálices. Durante a Oração Eucarística repetem-se os gestos de Cristo na última Ceia. O sacerdote toma o pão e depois o cálice. Cristo declara que seu Corpo e Sangue seriam verdadeira comida e bebida (Cf. Jo 6) e São Paulo, interpretando o significado do Banquete Eucarístico, distinguindo-o de uma ceia comum, afirma: “Pois todas as vezes que comerdes este pão e beberdes deste cálice, anunciareis a morte do Senhor até que Ele venha” (1 Cor 11,26). Pelo fim das Orações Eucarísticas rezamos: “… para que, ao participarmos deste altar, recebendo o corpo e sangue de vosso Filho…” (I Or. Euc.). “E nós vos suplicamos, que, participando do corpo e sangue de Cristo, sejamos reunidos pelo Espírito Santo, num só corpo…” (II Or. Euc.). “…Alimentando-nos com o corpo e o sangue de vosso Filho …” (III Or. Euc.). “… e concedei aos que vamos participar do mesmo pão e do mesmo cálice… » (IV Or. Euc.).

Isso significa que o sacrifício cristão, como a maioria dos sacrifícios pagãos e do Antigo Testamento, inclui a manducação da vítima. Isto se realiza plenamente na hora da Comunhão, precedida da fração do pão, significando Cristo distribuindo o pão aos homens.

Na forma atual da Celebração da Eucaristia a expressão externa da ceia se apresenta bastante pobre. Em vez da ceia em torno da mesa da sala doméstica, temos a grande igreja, a nave, onde se realça mais a expressão da festa da comunidade. Hoje se verifica uma tendência de se voltar mais à expressão fraterna em torno da mesa eucarística.

Mais importante, porém, do que descobrir materialmente os elementos de ceia que contém a Eucaristia, é descobrirmos o símbolo do banquete na sociedade humana, para assim enriquecermos o sentido do Banquete Eucarístico.

As pessoas oferecem banquete, ou vão participar de um banquete ou jantar por muitos motivos. O banquete, desde o grande banquete até o simples cafezinho tão brasileiro, acompanhado de bolachinhas, oferecido ao visitante, ultrapassa em muito a necessidade biológica de o homem se alimentar. A motivação de um banquete costuma ser um acontecimento importante que comemoramos. À base de um banquete está em geral um fato, como por exemplo o nascimento, bodas, casamento ou amizade entre pessoas. O banquete ou jantar tem por objetivo exprimir uma atitude de festa. É uma comemoração. Pode ser uma homenagem, um agradecimento, uma oferta, um serviço. Somos invadidos por sentimentos de união, intimidade, amizade, amor, fraternidade, alegria, apreço, paz. Através do banquete, do jantar ou de uma refeição fraterna realiza-se uma união, uma aliança, um encontro, um intercâmbio, uma permuta, um serviço. No fundo, realiza-se um convívio, um intercâmbio de vida, uma comutação de vida. Em última análise, temos uma ceia amigável, um intercâmbio de vida. Quem convida alguém para comer, quer partilhar a vida com ele; deseja fazê-lo conviver. Isso se percebe de modo admirável no cafezinho que o mais pobre oferece ao visitante, acompanhado em geral pela bolachinha. Aqui o que recebe não pretende matar a fome ou a sede do visitante, mas exprimir a sua alegria, sua amizade. Quer partilhar com ele o que há de mais precioso, a vida.

Mais uma observação. O jantar ou banquete pode expressar a reconciliação. Supõe mesmo que os convivas estejam reconciliados, pois a paz e a intimidade da ceia fraterna o exigem.

Se aplicarmos agora toda a riqueza de sentido do banquete ou da ceia à Eucaristia, descobriremos que a Celebração Eucarística é uma festa por excelência, em que celebramos o fato por excelência: o mistério de Cristo. Comemoramos a Morte e a Ressurreição de Cristo com tudo o que significam para nós. Realizamos a maior homenagem que podemos prestar a Deus por Cristo. A Eucaristia é um agradecimento por excelência; constitui uma oferta, uma aliança. Realizamo-la em atitude de alegria, de união com Deus em Cristo e com os irmãos; na intimidade da vida divina, em que ele mesmo se nos dá em alimento; realiza-se a maior amizade, pois Cristo reconciliou a todos com o Pai e entre si, tornando a todos irmãos; renova-se a aliança com Deus e com os homens em Cristo; realiza-se um verdadeiro intercâmbio, uma permuta entre o céu e a terra, entre Deus e os homens, convidando-os à intimidade do banquete, onde Ele os faz participar de sua vida, da vida verdadeira. A Eucaristia é o convívio de Deus com os homens em Cristo e dos homens entre si.

Vemos, então, que no banquete estão presentes, não na linguagem falada, mas na ação simbólica, todos os elementos da ação de graças. E comparativamente podemos dizer que assim como o discurso dá o sentido de um banquete, a Oração Eucarística coloca o verdadeiro sentido da Ceia do Senhor, que a distingue essencialmente de uma ceia comum.

Assim, a experiência da salvação se faz na linguagem do banquete, na linguagem do comer e beber juntos. Tudo quanto podemos dizer do sentido do banquete podemos dizê-lo também da Celebração Eucarística em plano muito superior entre nós e Deus e entre nós e os nossos irmãos no plano da fé.

[Celebrar a vida cristã – Formação litúrgica para agentes de pastoral, equipes de liturgia e grupos de reflexão – Editora Vozes.]





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