Iniciação à Vida Cristã – O Documento e suas particularidades II

Pe. Luiz Alves de Lima, sdb.

2 – O QUE É MESMO INICIAÇÃO?

Aqui se pretende mostrar que o processo de iniciação, mesmo no nível humano, se faz sempre com relação ao mistério. Iniciação é sempre iniciação ao mistério, é mergulho pessoal no mistério; ele está presente também no centro da fé.

Jesus fala do Reino usando a categoria de mistério: “A vós é confiado o mistério do Reino de Deus” (Mc 4,11; cf. Mt 13,11; cf. Lc 8,10). O conceito de mistério aparece pouco no Antigo Testamento, mas é muito usado por Paulo, tornando-se uma categoria fundamental para a fé. Foi usado para manifestar o desígnio divino de salvação, que para Paulo se concentra na pessoa de Jesus, sua vida, morte e ressurreição. Paulo contrapõe a “sabedoria humana” à “sabedoria misteriosa” de Deus (1Cor 2,7) e diz que sua missão é fazer conhecer a gloriosa riqueza deste mistério em meio aos gentios.

A mensagem cristã apresentada como mistério leva naturalmente à realidade da iniciação. No nosso imaginário o mistério carrega em si algo de fascinante, sublime, surpreendente. O mistério é um segredo que se manifesta somente aos iniciados. Diferentemente de outros conhecimentos ou práticas, não se tem acesso ao mistério através de um ensino teórico, ou com a aquisição de certas habilidades. Para ter acesso aos divinos mistérios a pessoa precisa, de uma maneira ou de outra, ser iniciada a essas realidades maravilhosas através de experiências que a marcam profundamente. São os ritos iniciáticos tão desenvolvidos na antiguidade e em sociedades modernas secretas ou esotéricas, em geral ministrados a um círculo restrito e fechado de pessoas.

Os cristãos lançaram mão dessa realidade tão humana e arraigada nas culturas, de tal modo que o cristianismo foi até confundido com uma das tantas religiões iniciáticas que pululavam o Oriente Médio. Entretanto, era algo muito mais profundo: para participar do mistério de Cristo Jesus era preciso passar por uma experiência impactante de transformação pessoal e deixar-se envolver pela ação do Espírito. O processo de transmissão da fé tornou-se, sim, iniciático em sua metodologia. Descobrir o mistério da pessoa de Jesus e os mistérios do Reino, assumir os compromissos de seu caminho, viver a ascese requerida pela moral cristã… são realidades muito exigentes; sem um verdadeiro processo de iniciação não se alcança seu verdadeiro sentido.

O catecumenato foi um caminho antigo e eficiente, desenvolvido pelas comunidades cristãs, aprofundado pelos Santos Padres, acolhido e institucionalizado pela autoridade eclesiástica, núcleo do próprio desenvolvimento do ano litúrgico, gerado nesse processo. O valor do mistério de Cristo e da Igreja era experimentado e depois explicado numa vivência marcada pelo rito através de uma catequese chamada “mistagógica” (que inicia ao mistério). O rito, ao envolver a pessoa por inteiro, marca-a mais profundamente do que a simples instrução e interioriza o que foi aprendido e proclamado, realçando a dimensão de compromisso. 

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