Igreja e Política

Recebemos um texto, que nos enviou D. Paulo Mendes Peixoto, Bispo de São José do Rio Preto, que fala sobre a questão da atuação da Igreja frente aos acontecimentos
políticos que têm surgido no cenário da sua Diocese.

Talvez muitos catequistas nos perguntarão qual o motivo de publicarmos esse texto em nosso Blog, uma vez que Catequese nada tem a ver com Política.

No entanto eu respondo aos que assim pensam mostrando exatamente o contrário. Catequese tem tudo a ver com Política e com a forma como aqueles que se dizem
cristãos fazem política.

Em primeiro lugar, segundo a Wikipédia, Política é a arte ou ciência da organização, direção e administração de nações ou Estados. Assim sendo, a Política deveria ter como fundamento de suas ações o bem comum de todos os cidadãos.

Se olharmos para a ação de Jesus, veremos que ele sempre esteve ao lado daqueles que eram desprezados pelas autoridades do seu tempo e da sua nação, promovendo, por meio do seu agir, o bem comum, ao restabelecer a dignidade das pessoas e das condições de vida. Embora ele não fosse um político de seu tempo, ele mostrava aos seus discípulos como deveriam agir em favor do bem comum.

Dessa forma, a Catequese é responsável pelos cristãos que educa e deve transmitir fielmente os valores que foram vividos por Jesus, anunciado pelo seu Evangelho e
transmitido pelo testemunho dos apóstolos. Pessoas que se dizem cristãos e que até fazem questão de se mostrar participante de uma comunidade eclesial e que no decorrer de seu mandato se mostra corrupto envergonha a comunidade à qual diz pertencer e denigre o nome dos catequistas que o educaram, pois certamente
não souberam transmitir qualquer dos valores evangélicos.

Por isso, e diante das atrocidades políticas que estamos vendo não apenas em uma cidade, mas espalhada por todo o Brasil, é que penso ser muito oportuna a publicação do texto que nos envia D. Paulo, para abrir os olhos de todos aqueles que estão a serviço do Evangelho e que têm a missão de formar cristãos conscientes e maduros, capazes de discernir o seu papel em todas as esferas da vida e assumir o compromisso de transformar as estruturas sociais, econômicas e políticas que impedem que o mundo se torne o Reino anunciado por Jesus.

Leiam o texto que nos foi enviado por D. Paulo:

Diocese e Política

Tendo em vista os diversos incidentes e atitudes acontecidos na trajetória política da cidade de São José do Rio Preto, fatos que até nos deixam preocupados, temos incentivado uma conduta que seja marcada pelo processo de formação de nossas lideranças para o compromisso com a cidadania.

Por iniciativa da Pastoral Fé e Política diocesana, com o objetivo de refletir sobre “que contribuição podemos dar no momento” para a cidade, como Igreja diocesana e como cidadãos cristãos, reunimo-nos com os padres que compõem as quatro Regiões Pastorais da cidade.

Como bispo diocesano, juntamente com membros da citada Pastoral, participei das quatro reuniões. Foi momento forte para o “ver da realidade”, e de oportunidade para cada padre expressar, livremente, sua opinião e considerações referentes à história política de nosso Município.

Na visão de muitos, a Igreja não tem nada a ver com política. Até dizendo que política é para os políticos. E justamente por isto temos de nos submeter a uma classe política totalmente descompromissada com o bem comum. Sofremos as consequências e não tomamos atitudes de reação.

Há razoável número de sacerdotes, cada um com seu jeito de ser, com sua formação política vindo da família, que tem também suas reações nos momentos oportunos. Mas uma coisa parece ter ficado clara nas discussões: temos que evitar ficar presos a este ou àquele político, que sempre nos usam para ter voto.

Você pode estar concluindo: por que tal padre faz determinada acepção, se o que o político faz, não está fazendo mais do que suas obrigações de servir a comunidade?

Estar preso a determinado político, numa dimensão de Igreja, é ameaçar a transparência da evangelização. 

Em particular, como cidadãos, podem acenar para um político considerado como “bom político”. Porém, fazer isto no púlpito é forçar a liberdade de escolha e de preferência da pessoa. No púlpito, sim, é lugar de formar as consciências, de mostrar as consequências de uma escolha politiqueira e irresponsável.

Das reuniões feitas sentimos uma grande indignação por parte dos presbíteros com o que vem acontecendo. O que nos impressiona muito é que todos os políticos se dizem “cristãos”, e até representantes de Igrejas. Creio que todas as Igrejas sérias se sentem envergonhadas e até sujeitas a críticas por quem está de fora.

Concluímos também a falta de formação no nível Fé e Política, inclusive de nós padres. Por causa disto ficamos muito dependentes e com trabalhos desarticulados. A sensação é que, como formadores de opinião, temos contribuído pouco na formação de pessoas e de cidadãos.

Na verdade, não temos tido um posicionamento firme e claro, como Igreja e como Pastoral Fé e Política em relação aos acontecimentos nefastos da política local. Está faltando atitude profética para beneficiar a população. É preciso abrir os olhos para o bem comum.

Não basta que a cidade tenha alto nível de desenvolvimento. Ela deve ter ideal político e políticos comprometidos com o humano, abertos aos mais carentes, sem privilégios e grupos extremamente voltados para seus próprios interesses. O bolo da riqueza precisa ser melhor repartido, favorecendo a todos e ao crescimento sustentável.

Dom Paulo Mendes Peixoto – Bispo de São José do Rio Preto