Amor de mãe

No Dia das Mães, falar de mãe leva-nos a pensar no amor fraterno, divino, maternal e solidário. Falar de um amor que só pode existir em função do outro. Foi o que aconteceu com Jesus Cristo, tendo um amor não só pelos judeus, mas também pelos pagãos. O amor não pode ser abstrato, mas uma experiência concreta de vida.

Numa visão propriamente de fé, mãe é aquela que personaliza, em si, a figura criadora, educadora e amorosa de Deus. Ela consome sua vida para dar vida feliz aos filhos. A verdadeira mãe não minimiza seus esforços para educar bem, acompanhando os filhos, encaminhando-os para uma vida digna e saudável.

A centralidade da vida e da convivência de uma família, de uma comunidade ou de um grupo de pessoas, deve ser o amor. Foi este o grande anúncio de Jesus Cristo, mostrando aos seus apóstolos e às primeiras comunidades cristãs o que deve ser a sua identidade. Convive bem quem ama de verdade e reconhece o valor do outro.

A expressão “meu amor” não pode se transformar em “meu pesadelo”, porque amar é um bem precioso e não pode ser banalizado. Ele possibilita uma relação justa entre as pessoas e leva a uma atitude de libertação, porque ninguém deve ser escravo de ninguém. Não fomos criados para uma submissão arbitrária.

Mãe é sinal de amor. Deus é Pai e Mãe de todos nós. Sem amor, sem Deus e sem mãe, ninguém de nós existiria. Somos frutos de uma experiência de amor, de uma doação certamente sem limites, inclusive com enfrentamento de sacrifícios e sofrimentos. É uma experiência que dignifica e dá sentido de viver às pessoas.

A vida de comunidade, com desafios e diversidades, deve ser a convergência de expressões e práticas concretas de amor. Ela não é diferente de uma vida familiar, onde todos devem perseguir o bem de seus membros. Aqui podemos até fazer uma correlação existente entre o amor de Deus, o da comunidade e o de mãe.

Dom Paulo Mendes Peixoto - Arcebispo de Uberaba.

 

Videira e ramos

Olhemos para a imagem de uma árvore, formada pelo tronco e seus ramos, sendo estes últimos totalmente dependentes do tronco, de onde buscam a seiva e o que é necessário para sua sobrevivência. Tronco sem galhos e ramos não passa de uma madeira sem vida e passiva de ser sacrificada.

A Palavra de Deus usa a imagem da videira e dos ramos para falar da intimidade dos cristãos com seu mestre, o Cristo, como a identidade de um tronco, de onde brota a força para a vida cristã. É uma força transformadora, capaz de produzir vida, folhas, flores e frutos, mostrando a beleza da árvore e da natureza.

Saulo, de perseguidor dos cristãos, só após ser enxertado em Cristo, torna-se nova criatura, muda seu nome para Paulo e entrega toda sua vida em defesa dos cristãos. Ele passa a buscar sua força, sua seiva e sua determinação na Pessoa de Jesus Cristo. Foi como o ramo que busca vida naquilo que lhe dá sustentação, o tronco, com raízes firmes e bem fincadas no seio da terra.

Permanecer no tronco, isto é, em Jesus Cristo, é renovar os compromissos com o Deus da vida, é superar os ditames da sociedade da morte, da injustiça e da infidelidade. Jesus é contundente ao dizer que “sem mim nada podeis fazer” (Jo 15,5). Realmente, sem Deus somos incapazes de construir a vida.

Não adianta dizer e fazer as coisas apenas com palavras, se elas não forem acompanhadas pela prática da verdade, que vem de Deus. Paulo disse: “Se Deus é por nós, quem será contra nós?” (Rm 8,21). Nisto está a raiz de toda a ação do cristianismo, que fez com que ele conseguisse superar barreiras e grandes dificuldades.

Hoje temos que nos perguntar se os nossos projetos são assentados nos princípios divinos, ou se são apenas decisões humanas, individualistas e egoístas. É impossível ser cristão sem estar em sintonia com a proposta contida na Palavra de Deus e destinada ao bem e à vida das pessoas, com dignidade.

Dom Paulo Mendes Peixoto - Arcebispo de Uberaba.

O bom pastor

Na Palavra de Deus encontramos a expressão “Bom Pastor”, fazendo referência a Jesus Cristo. Mas Jesus não é apenas um pastor com qualificado de “bom”. Ele é também verdadeiro, autêntico e totalmente preocupado com a vida e a dignidade de suas ovelhas. Ele ultrapassa o nível da bondade, doando sua vida pelos seus.

Olhando para a figura do Bom Pastor, de Jesus Cristo, devemos olhar para a figura de cada autoridade, para aquelas constituídas no serviço do povo. Servir é um dom, é querer o bem e a prosperidade de quem é servido, superando todo tipo de atitude egoísta, de exploração e desempenho no poder de agir.

Estamos em ano eleitoral outra vez. Está na hora de trabalhar para identificar quem tem atitudes de bom pastor, de serviço e de doação, desinteressada, para com as pessoas mais sofridas. A decisão está nas mãos dos eleitores, de escolher, com o voto consciente, quem realmente vai respeitar e agir em benefício do bem comum e do povo.

Sofremos o peso da corrupção e do descaso para com as pessoas menos favorecidas. Os pobres são sugados no momento do voto. São comprados com dinheiro e com promessas utópicas e esquecidos pela gestão pública. É por isto que não podemos agir como cegos e sem liberdade, vendendo nossa capacidade de decidir.

Jesus Cristo é o pastor que veio trazer vida plena para todos, diferente daqueles que veem para roubar, sacrificar e destruir as pessoas. Está aí o grande contraste entre o falso e o verdadeiro pastor. O falso é mercenário, que cuida só dos seus próprios interesses. O verdadeiro pastor se sacrifica para o bem das ovelhas.

É interessante observar que a má autoridade tem medo do povo e não trabalha, com determinação, para que ele seja organizado e deixa que ele continue ignorante para não ter força de ação, fica sempre de longe e não se envolve. A boa autoridade é aquela que convive e sente as dificuldades do povo e trabalha para o seu bem.

Dom Paulo Mendes Peixoto - Arcebispo eleito de Uberaba.

O símbolo da Cruz.

Recebi um email nestes dias que fala sobre uma questão já antiga, mas que voltou à pauta nesses dias. A questão da retirada da Cruz, símbolo dos cristãos, dos espaços públicos. Esse email me fez refletir e creio que talvez seja de grande valia para que todos os catequistas reflitam também, por esse motivo eu o transcrevo aqui.

A mensagem do email traz a resposta do Frade Demetrius dos Santos Silva, que foi publicado no jornal ‘Folha de São Paulo’ de 09/08/2009, sobre a decisão do Ministério Público de São Paulo de retirar os símbolos religiosos das repartições públicas federais em São Paulo.

Mensagem recebida:

O Ministério Público Federal de São Paulo ajuizou ação pedindo a retirada dos símbolos religiosos das repartições públicas.

Pois bem, veja o que diz o frade Demetrius dos Santos Silva:

Sou padre católico e concordo plenamente com o Ministério Público de São Paulo, por querer retirar os símbolos religiosos das repartições públicas…

Nosso Estado é laico e não deve favorecer esta ou aquela religião. A cruz deve ser retirada!

Aliás, nunca gostei de ver a cruz em tribunais, onde os pobres têm menos direitos do que os ricos e onde sentenças são barganhadas, vendidas e compradas.

Não quero mais ver a cruz nas Câmaras Legislativas, onde a corrupção é a moeda mais forte.

Não quero ver, também, a cruz em delegacias, cadeias e quartéis, onde os pequenos são constrangidos e torturados.
Não quero ver, muito menos, a cruz em prontos-socorros e hospitais, onde pessoas pobres morrem sem atendimento.

É preciso retirar a cruz das repartições públicas, porque Cristo não abençoa a sórdida política brasileira, causa das desgraças, das misérias e sofrimentos dos pequenos, dos pobres e dos menos favorecidos.

Frade Demetrius dos Santos Silva. - São Paulo/SP

Esse email está circulando sob o título “Padre Corajoso”, mas o que importa não é isso, mas é o conteúdo da mensagem.

Todos nós, cristãos católicos nos indignamos quando falam em retirar os nossos símbolos religiosos de repartições públicas, pois acreditamos que é um desrespeito à tradição e á fé do povo brasileiro.

Deixando de lado a questão de que o Estado brasileiro é um estado laico e, portanto deve respeito a todas as religiões indistintamente, o que significa que não pode sobrepor os símbolos de determinada instituição religiosa sobre os de outras, vamos ver a questão exatamente pelo ângulo em que o frade a coloca.

A cruz é o símbolo maior da nossa fé cristã, seu significado está ligado à questão da justiça de Deus, do rompimento com a morte e o resgate da vida, vida transformada, vida nova e eterna. Ela é símbolo da ressurreição, pois Jesus venceu a morte na cruz, Deus o ressuscitou. Contra todo o poder da morte Deus ressuscitou Jesus e inaugurou o tempo de vida eterna para toda a humanidade. Por isso ela é sinal da bênção de Deus.

Nós cristãos católicos portamos o crucifixo conosco e em nossas casas como sinal da bênção, da proteção que pedimos e recebemos de Deus, bênção para nós, para o nosso lar, a nossa família.

Mas a cruz é mais que um símbolo, é um sinal que nos identifica como discípulos e discípulas de Jesus Cristo, tementes a Deus e templos do Espírito Santo. É Sinal do nosso compromisso de sermos construtores do Reino onde impera a justiça, a igualdade e a fraternidade.

Se a cruz para nós é símbolo de bênção e sinal de compromisso com o Reino de Deus, como podemos admitir que seja usada em locais onde a vontade de Deus não é o mais importante e onde não se dá valor à sua bênção?

Permitir a exposição indiscriminada da cruz ou de qualquer outro símbolo da nossa fé, como se fossem apenas adornos (assim como o terço usado como colar ou pulseira), sem qualquer sinal de respeito pelo que eles significam para nós, é desvalorizá-los e banalizá-los.

Acredito que nós, catequistas, devemos valorizar os nossos símbolos dando-lhes a importância que têm e mostrando o que significam verdadeiramente para nós, para que dessa forma eles não sejam banalizados em seu uso e aqueles que os portar ou expor compreendam o compromisso que assumem diante Deus.

É dever de todo cristão zelar para que a nossa fé e os sinais que a representam sejam honrados, respeitados e preservados.

A vitória do vencido

É quase inconcebível, nas dimensões da cultura dos dias atuais, entender e aceitar que uma pessoa falida, de baixo nível social e econômico, seja vencedora. Dizemos que isto pode ocorrer quando ela recebe uma grande herança, ou ganha na loteria, ou pratica ações injustas e desonestas. Nenhum trabalhador verdadeiramente honesto fica “rico” de um dia para o outro.

Acreditar em Jesus Cristo, como Deus e como homem, é ter um ato profundamente de fé, vendo Nele um vencido, mas que conseguir vitória através da paixão e morte na cruz. Isto é interpretado de diversas formas, mas o fato real é de que ali estava presente a sabedoria divina, uma força capaz de transformar o ser humano na sua própria identidade.

Entender que a vida nasce da morte é um desafio, exige mudança de mentalidade e de um novo modo de pensar e ver as coisas. Não podemos sentir nisto uma mera fantasia, como “coisa de cristãos”. Acontece que, queira ou não, a esperança da humanidade está em Jesus Cristo, Aquele que é capaz de tirar da morte a vida em plenitude.

Ao ser condenado, Jesus foi ignorado pelo povo e pelas autoridades de seu tempo. Será que isto não continua acontecendo ainda hoje, mesmo que Ele tenha comprovado sua divindade e força libertadora? Todos os ataques contra a vida não são contra o próprio Cristo? São ações de sofrimento, constituindo o que chamamos de pecado.

Jesus não é fantasma e nem sombração, como se fosse uma alma que veio de fora para impressionar seus seguidores. Ele é o ressuscitado, o mesmo que tinha sido crucificado e morto numa cruz. É justamente daí que nasce a ação missionária do cristão, cujo cumprimento passa pelos caminhos do sofrimento.

A vida é uma conquista. Não é busca imediata, com prazer momentâneo, como acontece muito hoje, porque isto não leva a nada, a não ser reforçar os dados do egoísmo. Tudo que realizamos sem referências, normas, disciplina, sem limites, sem entender a cruz, nada construímos e tudo destruímos.

Dom Paulo Mendes Peixoto.