SER CATEQUISTA NOS DIAS ATUAIS

Maria Aparecida de Cicco

No domingo, dia 31 de julho de 2016, fui convidada a dar assessoria em um Encontro de Formação de Catequistas do Crisma, da Paróquia Nossa Senhora das Graças, na Região Brasilândia, Arquidiocese de São Paulo. O tema foi “Ser Catequista nos dias atuais“.

Em vista dessa assessoria, busquei os documentos da nossa Igreja para fundamentar minha palestra, pois nenhum catequeta pode se basear unicamente nas próprias experiências, ou no achismo, ao se comprometer com a formação de catequistas.

Assim, decidi compartilhar com todos vocês o material pesquisado e organizado para essa formação. A maior parte dos textos é retirada do principal documento que deve estruturar a Catequese: o “Diretório Nacional da Catequese”. E são complementados por alguns textos de dois Estudos da CNBB: o Estudo nº 97, “Iniciação à Vida Cristã – Um Processo de Inspiração Catecumenal”; e o Estudo nº 95, “Ministério do Catequista”.

Aproveitem bem esse material, na sua própria formação e no auxílio a outros catequistas.

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Para catequizar é preciso ser catequizado

Alguém pode imaginar uma pessoa grosseira e mal-educada no papel de educador? Transmitindo conceitos de boa educação, de cortesia?

Certamente que não! Somente será um bom educador quem é bem educado, quem assume como seus os valores do bom relacionamento entre as pessoas e os põe em prática no seu dia a dia.

Assim, também o catequista deve ser uma pessoa que amadureceu na fé, que compreendeu e assumiu os valores cristãos na própria vida, que dá testemunho do Evangelho com as suas ações cotidianas. Alguém que é comprometido com a causa do Reino e se coloca a serviço da sua construção.

Um catequista que não sabe dar razão da própria fé, não é um bom educador.

O catequista tem que se dedicar constantemente a aprofundar a própria identidade cristã, buscando o “por que?” da sua fé, descobrindo a meta da sua caminhada e o objetivo de fazer esse caminho. Por isso sua formação deve ser contínua e permanente.

O “Ser Cristão” tem que ter coerência na vida do catequista, pois do contrário, sua mensagem será vazia de sentido, apenas palavras jogadas ao vento.

Mostrar a saída é condenar a se perder

Quando o catequista se reveste de “sumo sabedor” ou de “dono da verdade” ele pensa que catequizar é dar todas as respostas, mostrar as saídas.

No entanto, quando o catequizando não vivencia as descobertas, não se depara com os desafios, não busca soluções, ficando como mero expectador-ouvinte, ele perde o interesse e deixa cair no esquecimento o que lhe foi transmitido.

Não se pode culpar os catequizandos pela falta de “atenção”, é preciso rever o quanto nós, catequistas, estamos lhes dando a oportunidade de descobrirem o caminho que leva a Deus.

O catequista não pode ser como um GPS, que vai mostrando todo o percurso, pois quando ficar sem seu “GPS” ele não saberá por onde seguir.

 Ele deve apenas dar o endereço, deixando que o catequizando descubra os vários caminhos a seguir, quais a dificuldades de cada um, qual a distância a percorrer para alcançar seu objetivo e possa escolher o que for melhor.

Somente quem faz a experiência de desbravar os caminhos está capacitado para sobreviver em outras situações semelhantes. O Catequizando tem que conquistar a sabedoria, ser o autor do seu crescimento, pois só assim saberá viver como cristão.

Questionar para fazer enxergar

Um dos componentes mais importantes nos métodos catequéticos é a visão da realidade. No método da Catequese Renovada,

“Ver-Julgar-Agir-Avaliar-Celebrar”, o “Ver” é o ponto de partida para  todo o processo. Mas também em outros métodos, mesmo que não seja o ponto de partida, o “ver” é essencial.

O Catequizando tem que enxergar a realidade que o cerca, o contexto sócio-econômico-cultural no qual está inserido para, iluminado
pela palavra e pelos valores cristãos, perceber o que não está conforme a vontade de Deus e qual é o próprio papel na transformação da realidade.

Para que isso aconteça, o catequista deve ser um questionador, um perguntador, que abre espaço à curiosidade e faz ir em busca de respostas.

Lançar desafios, solicitar pesquisas, apresentar situações para serem solucionadas, propor a comparação entre fatos semelhantes que tenham finais diferentes, enfim usar sempre uma linguagem questionadora para propiciar ao catequizando enxergar com os  próprios olhos a realidade e o que nela exige conversão.

O mais importante: saber ou viver

Sempre há, nos grupos de catequistas e até mesmo nas famílias, a preocupação em saber o que se aprendeu na catequese.

Há mães que muitas vezes chegam à comunidade e dizem que seus filhos não aprenderam nada, pois ainda não sabem nem mesmo dizer as orações cotidianas de cor.

Avaliar o processo educativo da fé pelo que se conseguiu “decorar”, isto é, gravar na mente e repetir sem erros, é um grande equívoco. O que transforma a vida não é o que fica na memória, mas o que move o coração.

Uma criança pode ter dificuldade para rezar o “Pai Nosso” sem trocar frases ou esquecer palavras, mas deve demonstrar o seu amor a Deus por gestos e ações; ser acolhedora com os companheiros; partilhar seus objetos e brinquedos; saber perdoar e pedir perdão com humildade. Dessa forma, ela não “sabe” o Pai Nosso, mas “vive” o Pai Nosso.

De que adianta saber corretamente, na ordem em que se apresentam os Dez mandamentos, se eles não são vividos no dia a dia?

A catequese tem que ter por base a vivência da fé e não a memorização dos conceitos e doutrinas. A assimilação do conteúdo da fé será tanto mais eficaz quanto mais ele for compreendido e posto em prática.

Aquele que demonstra no seu agir a conversão do próprio coração, esse foi bem catequizado.

As diversas linguagens na Catequese

A catequese não se resume a ministrar conhecimento. Ela é um processo de educação da fé onde o protagonista deve ser o  educando, isto é o catequizando.

Nesse processo, quanto mais linguagens forem usadas para expressar o que é transmitido, maior será a compreensão e a fixação da mensagem. Assim, os catequistas devem buscar diferentes formas  de expressão tanto para transmitir a mensagem, quanto para que os catequizandos possam gravá-la melhor.

Para transmitir uma mensagem, o catequista pode usar a encenação, a contação de história, o teatro de fantoches, as dinâmicas que possibilitam uma visão mais lúdica.

Para ajudar os catequizandos a gravar o que foi transmitido, o catequista deve solicitar que esses se expressem de forma criativa, isto é, por meio de linguagens diferentes. Ex.: por meio de uma poesia; fazendo uma versão de música conhecida; fazendo um desenho ou pintura que seja expressão da mensagem; montando um painel de notícias que expressem o sentido da mensagem; fazendo uma encenação; contando uma história cujo tema esteja ligado à mesma; passando o que entendeu com a mímica.

As linguagens lúdicas ajudam a gravar a mensagem e consequentemente a interpretá-la na vida.

Estimular a compreensão da mensagem de Jesus

A mensagem de Jesus deve transformar a vida de seus seguidores. E para isso deve ser bem compreendida. Estimular a compreensão da mensagem exige uma dinâmica que faça com que os catequizandos percebam como vivê-la.

Assim, o catequista deve, depois da leitura do texto bíblico, incentivar os catequizandos propondo alguns exercícios que motivem um olhar diferente sobre a mensagem. A um catequizando poderá propor que faça uma análise desta; a outro que atualize a mesma; a mais um que compare com o que acontece nos dias de hoje; a outro que conte uma história que conhece em que aconteceu algo semelhante.

Dessa forma, todos serão estimulados à compreensão profunda da mensagem e mais ainda à percepção do seu significado para a vida cristã, vivida no dia a dia.

A Catequese não pode nunca se restringir a contar a vida de Jesus, ela tem que ser transformadora, tem que alcançar o âmago da vida dos catequizandos, levando-os à conversão.

 

Pedagogia da Catequese

Será que nós entendemos bem o que é pedagogia e quem é o pedagogo?
Voltando à origem  da palavra, “pedagogo”, no mundo grego, era o nome dado ao serviçal que acompanhava as crianças até o mestre que iria lhes  transmitir seus conhecimentos. Veja bem, o pedagogo não detinha nenhum conhecimento, apenas levava o aprendiz ao professor. A partir desse conceito, a pedagogia surgiu como o meio que propicia ao educando alcançar o conhecimento que é transmitido pelo educador. Se tratando de catequese, é preciso definir quem é quem.

Em primeiro lugar, temos que definir quem é o educador, o mestre que detém toda a Sabedoria. Certamente esse mestre é Jesus.
Somente Jesus detém toda a sabedoria do Evangelho, que é sua própria vida. Se o objetivo da catequese é a vivência da fé e o discipulado, o catequizando deve ser levado até o Mestre Jesus, para beber da sua sabedoria. Assim sendo, o catequista terá como papel  principal levar o catequizando ao encontro com Jesus, usando os meios necessários para facilitar esse encontro e para ajudá-lo a se realizar plenamente. Nesse contexto, a pedagogia catequética deve contemplar a pedagogia de Jesus e a pedagogia do próprio Deus.

Jesus é o Mestre “Eu sou a Verdade”, mas ao mesmo tempo é pedagogo que leva a Deus “Eu sou o caminho” – “Ninguém vai ao Pai senão por mim”. Deus, por sua vez, se constitui Ele próprio como pedagogo que leva ao Amor e à Vida Plena que nos é transmitida por Jesus, “Eu sou a Vida”- “Eu vim para que todos tenham vida…”. Por isso é preciso olhar bem para Jesus e para Deus e enxergar quais os meios que Eles utilizam para levarem as pessoas pelo caminho da salvação, pelo caminho da vida em plenitude.

Olhando para o modo de ser e de agir de Jesus, podemos detectar dois
modelos pedagógicos:

Pedagogia da esperança:

A pedagogia da esperança devolve a liberdade àqueles que expressam sua fé em Jesus e faz deles evangelizadores. Jesus, pouco a pouco, vai rompendo com os grilhões da lei judaica que aprisionava as pessoas, e devolvendo a elas a esperança de vida nova, de filhos e filhas de Deus.

Tomando o Evangelho escrito por Marcos, podemos ver que Jesus:

  1. Liberta de todo mal – Mc 1,21-28;
  2. Torna-e acessível aos que foram banidos – Mc 1,40-45;
  3. Dá o perdão que cura e devolve a condição de vida plena – Mc 2,1-12;
  4. Cura em dia de sábado – Mc 3,1-6;
  5. Dá de comer a quem tem fome – Mc 6,30-45;
  6. Mostra o poder da fé – Mc 9,14-29.

Em todas essas passagens, por trás de todo o mal, está a estrutura de uma sociedade que se impõe pelo poder, tirando das pessoas toda a esperança, pois lhes tira Deus. Jesus lhes devolve a esperança mostrando que Deus está com elas, que age em favor delas.

Pedagogia da inclusão:

Se, para muitos, Jesus devolve a esperança, para um número ainda maior Jesus devolve a dignidade humana. Em uma sociedade machista e semítica, mulheres e estrangeiros não tinham voz nem vez, eram excluídos. Jesus não fica imóvel diante dessa visão distorcida que torna uns melhores que outros, a vida plena é para todos: homens e mulheres, judeus e estrangeiros. Para Deus não há distinção.

Assim, ainda no Evangelho escrito por Marcos, podemos ver que Jesus:

  1. Trata as mulheres com respeito – Mc 1,30-31;
  2. Rompe com a exclusão das mulheres idosas e doentes – Mc 1,40-45;
  3. Liberta de toda possessão e escravidão do mundo pagão – Mc 5,1-20;
  4. Jesus rompe os grilhões de uma lei que se coloca na contramão da vida – Mc 5,21-43;
  5. Reconhece a fé e o direito da mulher estrangeira – Mc 7,24-30;
  6. Rompe a barreira que impede os pagãos de acolherem a Deus – Mc 7,31-36;
  7. Acolhe os que estão largados à beira do caminho – Mc 10,46-52.

Podemos perceber que a ação de Jesus não é apenas de um taumaturgo,
mas a ação do salvador. Jesus é o verdadeiro pedagogo que conduz o povo a Deus.

Processo Permanente de Educação na Fé

O que significa “processo permanente de educação na fé“? Vamos ver por partes:
Em primeiro lugar, “processo permanente” é uma ação constante e crescente, isto é, uma ação que, a partir do momento em que se inicia, não terá fim seguindo numa progressão. Isso significa que a catequese não pode ficar restrita a uma ação preparatória para os sacramentos de iniciação cristã, mas deve ser uma ação catequética contínua, que perpassa todas as fases da vida da pessoa, possibilitando o amadurecimento da fé e o discernimento diante das transformações pelas quais o mundo passa e que desafiam a vida humana e a vivência cristã, preparando os cristãos e cristãs para enfrentar os desafios e encontrar alternativas na sua caminhada terrena, rumo ao Reino definitivo.
Em segundo lugar, “educação na fé” é aquela que se cultiva tendo como adubo os princípios da fé cristã. A educação não se dá pela absorção de conhecimentos; se assim fosse, não teríamos pessoas que estudam e adquirem muito conhecimento e, no entanto, pecam pela falta de educação, pois no trato com outras pessoas não agem dentro dos critérios sociais que levam a um bom relacionamento. Assim, a educação na fé não pode se restringir à transmissão de conhecimentos religiosos e históricos sobre a ação de Deus e de Jesus. Ela deve penetrar a consciência das pessoas para transformar suas vidas, de modo que vivam como cristãs e cristãos e seu agir seja autenticamente fraterno, compassivo e solidário no relacionamento com o outro: “É nisso que todos saberão que sois meus discípulos, se vos amardes uns aos outros“.
Assim, a catequese entendida como “processo permanente de educação na fé“, deve ser uma ação constante e progressiva que possibilite ao catequizando fazer uma profunda experiência de fé que o leve a transformar o próprio agir, ao longo de sua vida, dando testemunho do amor cristão em todas as circunstâncias e lugares.
A catequese deve ser um processo transformador que atinge todas as dimensões da vida humana, durrante toda a existência.