DEFICIENTES VISUAIS – DESAFIO E COMPROMISSO NA SOCIEDADE E NA IGREJA

Estando nestes dias em Roma, a cidade eterna, pude refletir com pessoas de 40 países a importância de acolhermos a todos em nosso trabalho pastoral: cegos, coxos, surdos-mudos, enfim todos os excluídos, assim como nos ensinou o próprio Jesus. Vi também os esforço realizados por muitas nações em superar barreiras concretamente em relação aos deficientes visuais.

São milhões de deficientes visuais em todo o mundo: estimados uma prevalência de 45 milhões de casos e uma incidência de novos casos de 3.000 por milhão de habitantes por ano. Somente no Brasil 74.000 são cegos, ou 3,7% da população do nosso país enfrenta este desafio. Creio que essa realidade deve tocar o coração de todos nós: como acolher em nossas famílias e comunidades os deficientes visuais? Aprendi que muitos passos já foram dados por entidades diversas no Brasil e no mundo na linda da superação da cegueira, dentre estas iniciativas as cirurgias de catarata que foram e estão sendo realizadas em todo o mundo para vencer a meta de diminuição considerável do problema da cegueira até o ano de 2020.

Pude levar neste evento do Pontifício Conselho da Pastoral da Saúde, o exemplo da Escola chamada: “Instituto de Cegos Pe. Chico”, que existe em São Paulo desde 1928, que tem prestado durante décadas, relevantes serviços à comunidade no sentido de apoiar, educar, orientar e acompanhar a pessoa com deficiência visual que busca amparo em seu seio.

Já no seu objetivo sentimos a importância nessa escola que é preparar e promover o deficiente visual e os portadores de baixa visão para sua integração na sociedade, através de um processo educacional, visando desenvolver, integralmente, a sua personalidade, orientando e levando-os ao conhecimento de seus direitos e deveres para com Deus, a Pátria e a Família.

São objetivos específicos da Escola de Ensino Fundamental do Instituto de Cegos “Padre Chico”: educar, habilitar e dar assistência ao deficiente visual; desenvolver programas de Orientação e Mobilidade, visando a independência do deficiente visual; integrar a informação e a orientação profissional no ensino geral, explorando aptidões, desenvolvendo habilidades, no sentido prático e orientando o educando na escolha entre oportunidade de trabalho e estudos posteriores e levar o deficiente visual a conhecer suas capacidades e suas limitações.

A clientela da escola é constituída por deficientes visual portadores de cegueira e de baixa visão. Para iniciar a escolaridade, a criança deve estar na faixa etária de 05 a 14 anos tendo sido considerado, anteriormente, através de avaliação, apto a seguir a programação das classes de deficientes visuais. De inicio, a criança é encaminhada para uma das classes de Período Preparatório para que através de um intenso programa de utilização dos sentidos remanescentes possa compensar a carência de estímulos e conhecimentos puramente visuais.

O objetivo das classes do Período Preparatório e levar a criança até a Prontidão para a Alfabetização, utilizando farto e variado material psico-pedagógico com a finalidade de suprir as necessidades advindas da deficiência visual com o fim específico de oferecer condições adequadas para o desenvolvimento de habilidades básicas que são pré-requisitos para o processo ensino – aprendizagem.

Outro fato é que a perda da visão também implica na redução da qualidade de vida, decorrente de restrições ocupacionais, econômicas, sociais e psicológicas. Para a sociedade, representa encargo oneroso e perda de força de trabalho. Essa condição incapacita o indivíduo, aumenta sua dependência, reduz sua condição social, sua autoridade dentro da família e da comunidade e o aposenta precocemente da vida.

A carga econômica da cegueira é significativa para o portador, para a família e para a sociedade, o que significa que o indivíduo deve apresentar uma boa capacidade visual para que possa desempenhar o seu papel na comunidade. A pessoa com baixa acuidade visual tem diminuição de sua autoestima, depressão, maior probabilidade de trauma por quedas, produtividade diminuída e acarreta gastos extras para a família, comunidade e Governo.

Uma das principais preocupações é a catarata. Essa doença torna limitadas as pessoas que estão fisicamente bem. É um grande sofrimento para a pessoa, para a família e para a sociedade. A catarata é considerada a principal causa de cegueira no Brasil e o impacto financeiro que essa doença traz é grande. Os custos diretos incluem o tratamento de doenças oculares, incluindo a parcela relevante de custos para a execução de serviços médicos e de serviços de saúde aliados, enquanto os custos indiretos incluem os ganhos perdidos – subsídios visuais, equipamentos, modificações em casa, reabilitação, bem estar e morte prematura por deficiência visual.

Estudos recentes sugerem que a restauração da visão pela cirurgia de catarata produz benefícios econômicos e sociais para a família, para o indivíduo e para a sociedade e aumentam produtividade anual do paciente operado em cerca de 1500% do valor do custo da cirurgia.

É preciso incentivar e potencializar a discussão do assunto com os pacientes como forma de prevenção e diagnóstico precoce da doença. Com isso, espera-se promover a atenção e conscientização da população quanto à importância das ações preventivas em doenças passíveis de controle e tratamento, com potencial de cegueira irreversível, como o glaucoma e retinopatia.

Outro fato importante a constatar é a iniciativa do Conselho Brasileiro de Oftalmologia (CBO), que também tem como objetivo contribuir para reduzir drasticamente a cegueira evitável até o ano de 2020.

Na questão da formação catequética é um dado importante que nos preocupa, pois, de um lado vemos que nas paróquias nem sempre os cegos são tratados no quesito de bom preparo para a vivência cristã: muitos recebem uma rapidíssima catequese e já recebem os sacramentos. Há também paróquias pelo bom zelo dos párocos e dos catequistas os cegos recebem boa formação catequética. Concretamente na Escola Pe. Chico, segundo o relato de uma religiosa que trabalha com as crianças, estas fazem um bom acompanhamento e são preparadas não somente para os sacramentos, mas para a vivência cristã, na Igreja e na sociedade.

Para as crianças que participam das equipes de liturgia nas paróquias, as religiosas desta escola entregam semanalmente os textos bíblicos, bem como o Salmo de Meditação escritos em Braille. Assim as mesmas interagem nas suas próprias comunidades de origem, isto é, onde moram sua família e sua comunidade de fé.

Considerações finais

Recordei acima o importante trabalho desenvolvido pelo “Instituto de Cegos Padre Chico”, em São Paulo, SP. Um exemplo de carinho, dedicação e atenção com nossos irmãos deficientes visuais, que destaco como um dos mais importantes em nossos dias. Devemos olhar com muita responsabilidade para esta questão da inclusão do cego na sociedade e incentivar trabalhos que desenvolvam a catequese com estes cidadãos comuns.

Para muitas pessoas com deficiência, viver no mundo de hoje, nesta época, nesta fase da história, é um privilégio. Não podemos falar do futuro como será (e esperamos que seja melhor), mas podemos dizer que, do passado até agora, muito se progrediu. Hoje, as tecnologias vêm ajudando as pessoas com deficiência a viver com mais qualidade. O acesso à saúde e a reabilitação estão mais fáceis. Há estimulação precoce, que permite a muitos terem um desempenho bem mais seguro no desenvolvimento físico e emocional. O fruto do sofrimento de muitos trouxe para nossa geração esses privilégios a que todos deveriam ter acesso.

Por outro lado, isso nos leva a uma grande responsabilidade de manter garantidos os direitos adquiridos, e qualificar ainda mais a vida das futuras gerações que vão adquirir alguma deficiência. Essas garantias podem ser efetivadas pelas leis, pelo poder público, pelas escolas, pelas famílias, pelas organizações não governamentais, enfim, por toda a sociedade.

Mas, acreditamos que a verdadeira inclusão está enraizada numa mística, numa espiritualidade, num sentido profundo, numa razão para viver. É impossível efetivar uma inclusão, que de fato transforme o coração do ser humano, se não olharmos para o Cristo encarnado, servo sofredor e ressuscitado, que nos fez compreender o porquê de nossa existência.

Garantir as leis de respeito humano às pessoas com deficiência é um dever, mas amar as pessoas com deficiência é uma questão de fé. E como garanto a lei e o amor? Queremos dar sentido às lutas pela dignidade de toda pessoa humana. Como Igreja, possamos construir projetos de solidariedade em nossa ação pastoral, que não levem a nenhum tipo de alienação, mas apoiados numa boa teologia, sejam libertadores e tragam respostas concretas às questões que nos desafiam. A Igreja, como mãe, deve responder aos desafios aos quais seus filhos e filhas pedem uma luz.

A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), nos apresenta uma importante contribuição que trago para essa nossa reflexão. O documento 84 da CNBB – DIRETÓRIO NACIONAL DE CATEQUESE, capítulo 6 (parágrafos 202 a 207) vai nos chamar a atenção especificamente para a catequese com deficientes.

O documento nos lembra de que é grande, no Brasil, a quantidade de pessoas com deficiências. Elas têm o mesmo direito à catequese, à vida comunitária e sacramental. Particularmente a partir do século XX em seus documentos catequéticos, a Igreja vê a necessidade de lhes dar a devida atenção e fazer esforços para superar todo tipo de discriminação.

Nas comunidades, muitas pessoas se sentem chamadas para o trabalho junto às pessoas com deficiência; há inclusive catequistas e agentes de pastoral com algum tipo de deficiência. Toda pessoa tem necessidades, pois ninguém se basta a si mesmo. Mas há algumas pessoas que têm necessidades específicas. Estas também precisam ser acolhidas na catequese.

É preciso oferecer uma catequese apropriada em seus recursos e conteúdo, sem reducionismo e simplismo que apontem para um descrédito das capacidades da pessoa com deficiência. Também não se pode deixar de mencionar o número expressivo de irmãos que possuem necessidades educacionais especiais, sejam elas provisórias ou permanentes, causadas por algum distúrbio ou outras especificidades. A estes a catequese dispense a atenção necessária.

Aumenta a cada dia o número de voluntários para trabalhar com as pessoas com deficiência. Há também maior consciência e organização sobre essa catequese. Há organismos e movimentos representativos na luta pelo reconhecimento de suas necessidades. Nota-se uma tendência à superação de ideias preconceituosas e de atitudes caritativo-assistencialistas que dificultam o protagonismo social e eclesial.

Nesse itinerário da fé, a família desempenha papel fundamental, pois é nela que ocorre a primeira experiência de comunidade e onde a pessoa deveria receber o primeiro anúncio do mistério da Salvação. Por esse motivo, a comunidade eclesial esteja atenta às suas necessidades, conflitos, desejos e aspirações. A comunidade cristã é convidada a assumir a responsabilidade de catequizar as pessoas com deficiência, criando condições para sua plena participação comunitária e pastoral.

É importante que a participação das pessoas com deficiência na catequese seja feita em companhia dos demais catequizandos para que se evitem grupos separados ou confinados em locais sem a devida atenção e cuidados ou distantes da comunidade. Essa atitude é fundamental para que não se perpetue a ideia de que as pessoas com deficiência necessitam de uma catequese puramente especializada. É necessário levar em consideração as descobertas e avanços das ciências humanas e pedagógicas e assumir a pedagogia do próprio Jesus, que privilegiou os cegos, mudos, surdos, coxos, aleijados (cf. Mc 8,23-25; Mt15,30-31; Lc 7,22; Jo 1,8).

Somos imagem de Cristo Ressuscitado e participamos dos sofrimentos, da cruz, como também da alegria de ser chamados à vida, testemunhando através dela a ação do próprio Deus. Os locais para a catequese junto às pessoas com deficiência deverão ser adaptados, de acordo com a legislação vigente, facilitando o acolhimento e acesso aos mesmos em nossas comunidades.

A catequese junto às pessoas com deficiência atinge todas as idades, em especial os adultos, pois muitos deles, por diferentes motivos, não tiveram a oportunidade de fazer a experiência da fé na comunidade eclesial em outras fases da vida, e agora manifestam esse desejo.

É preciso perceber também quanto essas pessoas podem ter a ensinar, com a sua própria experiência e com o modo como lidam com a sua situação. Com elas, como com os catequizandos, há uma estrada de mão dupla onde o catequista também aprende e se enriquece.

Essa catequese supõe uma preparação específica dos catequistas, pois cada necessidade diferente exige uma pedagogia adequada. É bom contar com o apoio de profissionais, como médicos, fonoaudiólogos, professores, fisioterapeutas, psicólogos e intérpretes, sem que se perca o objetivo da catequese. Nesse processo, a família desempenha um papel importante para o qual deve receber a devida ajuda.

Após nossas reflexões, temos clareza da urgência de uma mudança de mentalidade no trato eclesial em relação às pessoas com deficiência, para que possamos testemunhar ao mundo a coerência de nossas ações seguindo o modelo de Cristo.

Que o Cristo Ressuscitado dê a vocês e aos seus a sua paz!

D. Vilson Dias de Oliveira, DC – Bispo da Diocese de Limeira