DEFICIENTES VISUAIS – DESAFIO E COMPROMISSO NA SOCIEDADE E NA IGREJA

Estando nestes dias em Roma, a cidade eterna, pude refletir com pessoas de 40 países a importância de acolhermos a todos em nosso trabalho pastoral: cegos, coxos, surdos-mudos, enfim todos os excluídos, assim como nos ensinou o próprio Jesus. Vi também os esforço realizados por muitas nações em superar barreiras concretamente em relação aos deficientes visuais.

São milhões de deficientes visuais em todo o mundo: estimados uma prevalência de 45 milhões de casos e uma incidência de novos casos de 3.000 por milhão de habitantes por ano. Somente no Brasil 74.000 são cegos, ou 3,7% da população do nosso país enfrenta este desafio. Creio que essa realidade deve tocar o coração de todos nós: como acolher em nossas famílias e comunidades os deficientes visuais? Aprendi que muitos passos já foram dados por entidades diversas no Brasil e no mundo na linda da superação da cegueira, dentre estas iniciativas as cirurgias de catarata que foram e estão sendo realizadas em todo o mundo para vencer a meta de diminuição considerável do problema da cegueira até o ano de 2020.

Pude levar neste evento do Pontifício Conselho da Pastoral da Saúde, o exemplo da Escola chamada: “Instituto de Cegos Pe. Chico”, que existe em São Paulo desde 1928, que tem prestado durante décadas, relevantes serviços à comunidade no sentido de apoiar, educar, orientar e acompanhar a pessoa com deficiência visual que busca amparo em seu seio.

Já no seu objetivo sentimos a importância nessa escola que é preparar e promover o deficiente visual e os portadores de baixa visão para sua integração na sociedade, através de um processo educacional, visando desenvolver, integralmente, a sua personalidade, orientando e levando-os ao conhecimento de seus direitos e deveres para com Deus, a Pátria e a Família.

São objetivos específicos da Escola de Ensino Fundamental do Instituto de Cegos “Padre Chico”: educar, habilitar e dar assistência ao deficiente visual; desenvolver programas de Orientação e Mobilidade, visando a independência do deficiente visual; integrar a informação e a orientação profissional no ensino geral, explorando aptidões, desenvolvendo habilidades, no sentido prático e orientando o educando na escolha entre oportunidade de trabalho e estudos posteriores e levar o deficiente visual a conhecer suas capacidades e suas limitações.

A clientela da escola é constituída por deficientes visual portadores de cegueira e de baixa visão. Para iniciar a escolaridade, a criança deve estar na faixa etária de 05 a 14 anos tendo sido considerado, anteriormente, através de avaliação, apto a seguir a programação das classes de deficientes visuais. De inicio, a criança é encaminhada para uma das classes de Período Preparatório para que através de um intenso programa de utilização dos sentidos remanescentes possa compensar a carência de estímulos e conhecimentos puramente visuais.

O objetivo das classes do Período Preparatório e levar a criança até a Prontidão para a Alfabetização, utilizando farto e variado material psico-pedagógico com a finalidade de suprir as necessidades advindas da deficiência visual com o fim específico de oferecer condições adequadas para o desenvolvimento de habilidades básicas que são pré-requisitos para o processo ensino – aprendizagem.

Outro fato é que a perda da visão também implica na redução da qualidade de vida, decorrente de restrições ocupacionais, econômicas, sociais e psicológicas. Para a sociedade, representa encargo oneroso e perda de força de trabalho. Essa condição incapacita o indivíduo, aumenta sua dependência, reduz sua condição social, sua autoridade dentro da família e da comunidade e o aposenta precocemente da vida.

A carga econômica da cegueira é significativa para o portador, para a família e para a sociedade, o que significa que o indivíduo deve apresentar uma boa capacidade visual para que possa desempenhar o seu papel na comunidade. A pessoa com baixa acuidade visual tem diminuição de sua autoestima, depressão, maior probabilidade de trauma por quedas, produtividade diminuída e acarreta gastos extras para a família, comunidade e Governo.

Uma das principais preocupações é a catarata. Essa doença torna limitadas as pessoas que estão fisicamente bem. É um grande sofrimento para a pessoa, para a família e para a sociedade. A catarata é considerada a principal causa de cegueira no Brasil e o impacto financeiro que essa doença traz é grande. Os custos diretos incluem o tratamento de doenças oculares, incluindo a parcela relevante de custos para a execução de serviços médicos e de serviços de saúde aliados, enquanto os custos indiretos incluem os ganhos perdidos – subsídios visuais, equipamentos, modificações em casa, reabilitação, bem estar e morte prematura por deficiência visual.

Estudos recentes sugerem que a restauração da visão pela cirurgia de catarata produz benefícios econômicos e sociais para a família, para o indivíduo e para a sociedade e aumentam produtividade anual do paciente operado em cerca de 1500% do valor do custo da cirurgia.

É preciso incentivar e potencializar a discussão do assunto com os pacientes como forma de prevenção e diagnóstico precoce da doença. Com isso, espera-se promover a atenção e conscientização da população quanto à importância das ações preventivas em doenças passíveis de controle e tratamento, com potencial de cegueira irreversível, como o glaucoma e retinopatia.

Outro fato importante a constatar é a iniciativa do Conselho Brasileiro de Oftalmologia (CBO), que também tem como objetivo contribuir para reduzir drasticamente a cegueira evitável até o ano de 2020.

Na questão da formação catequética é um dado importante que nos preocupa, pois, de um lado vemos que nas paróquias nem sempre os cegos são tratados no quesito de bom preparo para a vivência cristã: muitos recebem uma rapidíssima catequese e já recebem os sacramentos. Há também paróquias pelo bom zelo dos párocos e dos catequistas os cegos recebem boa formação catequética. Concretamente na Escola Pe. Chico, segundo o relato de uma religiosa que trabalha com as crianças, estas fazem um bom acompanhamento e são preparadas não somente para os sacramentos, mas para a vivência cristã, na Igreja e na sociedade.

Para as crianças que participam das equipes de liturgia nas paróquias, as religiosas desta escola entregam semanalmente os textos bíblicos, bem como o Salmo de Meditação escritos em Braille. Assim as mesmas interagem nas suas próprias comunidades de origem, isto é, onde moram sua família e sua comunidade de fé.

Considerações finais

Recordei acima o importante trabalho desenvolvido pelo “Instituto de Cegos Padre Chico”, em São Paulo, SP. Um exemplo de carinho, dedicação e atenção com nossos irmãos deficientes visuais, que destaco como um dos mais importantes em nossos dias. Devemos olhar com muita responsabilidade para esta questão da inclusão do cego na sociedade e incentivar trabalhos que desenvolvam a catequese com estes cidadãos comuns.

Para muitas pessoas com deficiência, viver no mundo de hoje, nesta época, nesta fase da história, é um privilégio. Não podemos falar do futuro como será (e esperamos que seja melhor), mas podemos dizer que, do passado até agora, muito se progrediu. Hoje, as tecnologias vêm ajudando as pessoas com deficiência a viver com mais qualidade. O acesso à saúde e a reabilitação estão mais fáceis. Há estimulação precoce, que permite a muitos terem um desempenho bem mais seguro no desenvolvimento físico e emocional. O fruto do sofrimento de muitos trouxe para nossa geração esses privilégios a que todos deveriam ter acesso.

Por outro lado, isso nos leva a uma grande responsabilidade de manter garantidos os direitos adquiridos, e qualificar ainda mais a vida das futuras gerações que vão adquirir alguma deficiência. Essas garantias podem ser efetivadas pelas leis, pelo poder público, pelas escolas, pelas famílias, pelas organizações não governamentais, enfim, por toda a sociedade.

Mas, acreditamos que a verdadeira inclusão está enraizada numa mística, numa espiritualidade, num sentido profundo, numa razão para viver. É impossível efetivar uma inclusão, que de fato transforme o coração do ser humano, se não olharmos para o Cristo encarnado, servo sofredor e ressuscitado, que nos fez compreender o porquê de nossa existência.

Garantir as leis de respeito humano às pessoas com deficiência é um dever, mas amar as pessoas com deficiência é uma questão de fé. E como garanto a lei e o amor? Queremos dar sentido às lutas pela dignidade de toda pessoa humana. Como Igreja, possamos construir projetos de solidariedade em nossa ação pastoral, que não levem a nenhum tipo de alienação, mas apoiados numa boa teologia, sejam libertadores e tragam respostas concretas às questões que nos desafiam. A Igreja, como mãe, deve responder aos desafios aos quais seus filhos e filhas pedem uma luz.

A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), nos apresenta uma importante contribuição que trago para essa nossa reflexão. O documento 84 da CNBB – DIRETÓRIO NACIONAL DE CATEQUESE, capítulo 6 (parágrafos 202 a 207) vai nos chamar a atenção especificamente para a catequese com deficientes.

O documento nos lembra de que é grande, no Brasil, a quantidade de pessoas com deficiências. Elas têm o mesmo direito à catequese, à vida comunitária e sacramental. Particularmente a partir do século XX em seus documentos catequéticos, a Igreja vê a necessidade de lhes dar a devida atenção e fazer esforços para superar todo tipo de discriminação.

Nas comunidades, muitas pessoas se sentem chamadas para o trabalho junto às pessoas com deficiência; há inclusive catequistas e agentes de pastoral com algum tipo de deficiência. Toda pessoa tem necessidades, pois ninguém se basta a si mesmo. Mas há algumas pessoas que têm necessidades específicas. Estas também precisam ser acolhidas na catequese.

É preciso oferecer uma catequese apropriada em seus recursos e conteúdo, sem reducionismo e simplismo que apontem para um descrédito das capacidades da pessoa com deficiência. Também não se pode deixar de mencionar o número expressivo de irmãos que possuem necessidades educacionais especiais, sejam elas provisórias ou permanentes, causadas por algum distúrbio ou outras especificidades. A estes a catequese dispense a atenção necessária.

Aumenta a cada dia o número de voluntários para trabalhar com as pessoas com deficiência. Há também maior consciência e organização sobre essa catequese. Há organismos e movimentos representativos na luta pelo reconhecimento de suas necessidades. Nota-se uma tendência à superação de ideias preconceituosas e de atitudes caritativo-assistencialistas que dificultam o protagonismo social e eclesial.

Nesse itinerário da fé, a família desempenha papel fundamental, pois é nela que ocorre a primeira experiência de comunidade e onde a pessoa deveria receber o primeiro anúncio do mistério da Salvação. Por esse motivo, a comunidade eclesial esteja atenta às suas necessidades, conflitos, desejos e aspirações. A comunidade cristã é convidada a assumir a responsabilidade de catequizar as pessoas com deficiência, criando condições para sua plena participação comunitária e pastoral.

É importante que a participação das pessoas com deficiência na catequese seja feita em companhia dos demais catequizandos para que se evitem grupos separados ou confinados em locais sem a devida atenção e cuidados ou distantes da comunidade. Essa atitude é fundamental para que não se perpetue a ideia de que as pessoas com deficiência necessitam de uma catequese puramente especializada. É necessário levar em consideração as descobertas e avanços das ciências humanas e pedagógicas e assumir a pedagogia do próprio Jesus, que privilegiou os cegos, mudos, surdos, coxos, aleijados (cf. Mc 8,23-25; Mt15,30-31; Lc 7,22; Jo 1,8).

Somos imagem de Cristo Ressuscitado e participamos dos sofrimentos, da cruz, como também da alegria de ser chamados à vida, testemunhando através dela a ação do próprio Deus. Os locais para a catequese junto às pessoas com deficiência deverão ser adaptados, de acordo com a legislação vigente, facilitando o acolhimento e acesso aos mesmos em nossas comunidades.

A catequese junto às pessoas com deficiência atinge todas as idades, em especial os adultos, pois muitos deles, por diferentes motivos, não tiveram a oportunidade de fazer a experiência da fé na comunidade eclesial em outras fases da vida, e agora manifestam esse desejo.

É preciso perceber também quanto essas pessoas podem ter a ensinar, com a sua própria experiência e com o modo como lidam com a sua situação. Com elas, como com os catequizandos, há uma estrada de mão dupla onde o catequista também aprende e se enriquece.

Essa catequese supõe uma preparação específica dos catequistas, pois cada necessidade diferente exige uma pedagogia adequada. É bom contar com o apoio de profissionais, como médicos, fonoaudiólogos, professores, fisioterapeutas, psicólogos e intérpretes, sem que se perca o objetivo da catequese. Nesse processo, a família desempenha um papel importante para o qual deve receber a devida ajuda.

Após nossas reflexões, temos clareza da urgência de uma mudança de mentalidade no trato eclesial em relação às pessoas com deficiência, para que possamos testemunhar ao mundo a coerência de nossas ações seguindo o modelo de Cristo.

Que o Cristo Ressuscitado dê a vocês e aos seus a sua paz!

D. Vilson Dias de Oliveira, DC – Bispo da Diocese de Limeira

JESUS É O BOM PASTOR (JO 10,11-18)

 Autores: Mesters, Lopes e Orofino

por CEBI Publicações

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 Texto extraído do Livro “Raio-X da Vida – círculos bíblicos do Evangelho de João“. Coleção A Palavra na Vida 147/148 – Autores: Carlos Mesters, Mercedes Lopes e Francisco Orofino. Publicações CEBI.

SITUANDO  

Jesus é o Bom Pastor que veio para que todos tenham vida em abundância! O discurso sobre o Bom Pastor traz três comparações ligadas entre si: Jesus fala do pastor e dos assaltantes (Jo 10,1-5); Jesus é a porteira das ovelhas (Jo 10,6-10); Jesus é o Bom Pastor (Jo 10,11-18).

Temos aqui um outro exemplo de como foi escrito o Evangelho de João. O discurso de Jesus sobre o Bom Pastor (Jo 10, 1-18) é como um tijolo inserido numa parede já pronta. Com ele a parede ficou mais forte e mais bonita. Imediatamente antes, em Jo 9,40-41, João falava da cegueira dos fariseus. A conclusão natural desta discussão sobre a cegueira está logo depois, em Jo 10,19-21. Ora, o discurso sobre o Bom Pastor foi inserido aqui, porque, como veremos, ensina como tirar esse tipo de cegueira dos fariseus.

COMENTANDO

João 10,1-5: 1ª comparação: entrar pela porteira e não por outro lugar. 

Jesus inicia o discurso com a comparação da porteira: “Quem não entra pela porteira mas sobe por outro lugar é ladrão e assaltante! Quem entra pela porteira é o pastor das ovelhas!” Naquele tempo, os pastores cuidavam do rebanho durante o dia. Quando chegava a noite, levavam as ovelhas para um grande redil ou curral comunitário, bem protegido contra ladrões e lobos. Todos os pastores de uma mesma região levavam para lá o seu rebanho. Um porteiro tomava conta de tudo durante a noite. No dia seguinte, de manhã cedo, o pastor chegava, batia palmas na porteira e o porteiro abria. O pastor entrava e chamava as ovelhas pelo nome. As ovelhas reconheciam a voz do seu pastor, levantavam e saiam atrás dele para a pastagem. As ovelhas dos outros pastores ouviam a voz, mas elas não se mexiam, pois era uma voz estranha para elas. De vez em quando, aparecia o perigo de assalto. Ladrões entravam por um atalho ou derrubavam a cerca do redil, feita de pedras amontoadas, para roubar as ovelhas. Eles não entravam pela porteira, pois lá havia o guarda que tomava conta.

João 10,6-10: 2ª comparação: Jesus é a porteira. 

Os ouvintes, os fariseus (Jo 9,40-41), não entenderam o que significava “entrar pela porteira”. Jesus então explicou: “Eu sou a porteira das ovelhas. Todos os que vieram antes de mim eram ladrões e assaltantes”. De quem Jesus está falando nesta frase tão dura? Provavelmente, se referia a líderes religiosos que arrastavam o povo atrás de si, mas que não respondiam às esperanças do povo. Não estavam interessados no bem do povo, mas sim no próprio bolso e nos próprios interesses. Enganavam o povo e o deixavam na pior. Entrar pela porteira é o mesmo que agir como Jesus agia. O critério básico para discernir quem é pastor e quem é assaltante, é a defesa da vida das ovelhas. Jesus pede para o povo não seguir as pessoas que se apresentam como pastor, mas não buscam a vida do povo. É aqui que ele disse aquela frase que até hoje cantamos: “Eu vim para que todos tenham vida, e a tenham em abundância!” Este é o critério!

João 10,11-15: 3ª comparação: Jesus é o bom pastor. 

Jesus muda a comparação. Antes, ele era a porteira das ovelhas. Agora, é o pastor das ovelhas. Todo mundo sabia o que era um pastor e como ele vivia e trabalhava. Mas Jesus não é um pastor qualquer, mas sim o bom pastor! A imagem do bom pastor vem do AT. Dizendo que é o Bom Pastor, Jesus se apresenta como aquele que vem realizar as promessas dos profetas e as esperanças do povo. Veja por exemplo a belíssima profecia de Ezequiel (Ez 34,11-16). Há dois pontos em que Jesus insiste: (1) Na defesa da vida das ovelhas: bom pastor dá a sua vida pelas ovelhas. (2) No mútuo reconhecimento entre pastor e ovelhas: o Pastor conhece as suas ovelhas e elas conhecem o pastor. Jesus diz que no povo há uma percepção para saber quem é o bom pastor. Era isto que os fariseus não aceitavam. Eles desprezavam as ovelhas e as chamavam de povo maldito e ignorante (Jo 7,49; 9,34). Eles pensavam ter o olhar certo para discernir as coisas de Deus. Na realidade eram cegos. O discurso sobre o Bom Pastor ensina duas regras como curar este tipo bastante frequente de cegueira: 1) Prestar muita atenção na reação das ovelhas, pois elas reconhecem a voz do pastor. 2) Prestar muita atenção na atitude daquele que se diz pastor para ver se o interesse dele é a vida das ovelhas, sim ou não, e se ele é capaz de dar a vida pelas ovelhas. Certa vez, na festa da tomada de posse de um novo bispo, as “ovelhas” colocaram uma faixa na porta da igreja que dizia: “As ovelhas não conhecem o pastor!” As “ovelhas” não foram consultadas. Advertência séria para quem nomeia os bispos.

João 10,16-18: A meta onde Jesus quer chegar: um só rebanho e um só pastor

Jesus abre o horizonte e diz que tem outras ovelhas que não são deste redil. Elas ainda não ouviram a voz de Jesus, mas quando a ouvirem, vão perceber que ele é o pastor e vão segui-lo. É a dimensão ecumênica universal.

ALARGANDO

A Imagem do Pastor na Bíblia

Na Palestina, a sobrevivência do povo dependia em grande parte da criação de cabras e ovelhas. A imagem do pastor guiando suas ovelhas para as pastagens era conhecida por todos, como hoje todos conhecem a imagem do motorista de ônibus. Era normal usar a imagem do pastor para indicar a função de quem governava e conduzia o povo. Os profetas criticavam os reis por serem maus pastores que não cuidavam do seu rebanho e não o conduziam para as pastagens (Jr 2,8; 10,21; 23,1-2). Esta crítica dos maus pastores foi crescendo na mesma medida em que, por culpa dos reis, o povo acabou sendo levado para o cativeiro (Ez 34,1-10; Zc 11,4-17).

Diante da frustração sofrida com os desmandos dos maus pastores, aparece a comparação com o verdadeiro pastor do povo, que é o próprio Deus: “O Senhor é meu pastor e nada me falta” (Sl 23,1-6; Gn 48,15). Os profetas esperam que, no futuro, Deus venha, ele mesmo, como pastor guiar o seu rebanho (Is 40,11; Ez 34,11-16). E esperam que, desta vez, o povo saiba reconhecer a voz do seu pastor: “Oxalá ouvísseis hoje a sua voz!” (Sl 95,7). Esperam que Deus venha como Juiz que fará o julgamento entre as ovelhas do rebanho (Ez 34,17). Surgem o desejo e a esperança de que, um dia, Deus suscite bons pastores e que o messias seja um bom pastor para o povo de Deus (Jr 3,15; 23,4).

Jesus realiza esta esperança e se apresenta como o Bom Pastor, diferente dos assaltantes que roubam o povo. Ele se apresenta também com o Juiz do povo que, no final, fará o julgamento como um pastor que sabe separar as ovelhas dos cabritos (Mt 25,31-46). Em Jesus se realiza a profecia de Zacarias que diz que o bom pastor será perseguido pelos maus pastores, incomodados pela denúncia que ele faz: “Vão bater no pastor e as ovelhas se dispersarão!” (Zc 13,7). No fim, Jesus é tudo: é a porteira, é o pastor e é o cordeiro!

Fonte: CEBI – www.cebi.org.br

A MISSÃO DA COMUNIDADE

“A paz esteja com vocês!” João 20,19-31

Texto extraído do livro “Raio-X da Vida – Círculos Bíblicos do Evangelho de João“. Coleção a Palavra na Vida 147/148. Autores: Carlos Mesters, Mercedes Lopes e Francisco Orofino.  CEBI Publicações.

OLHAR DE PERTO AS COISAS DA NOSSA VIDA

Vamos meditar sobre a aparição de Jesus aos discípulos e a missão que eles receberam. Eles estavam reunidos com as portas fechadas porque tinham medo dos judeus. De repente, Jesus se coloca no meio deles e diz: “A paz esteja com vocês!” Depois de mostrar as mãos e o lado, ele disse novamente: “A paz esteja com vocês! Como o Pai me enviou, eu envio vocês!” Em seguida, lhes dá o Espírito para que possam perdoar e reconciliar. A paz! Reconciliar e construir a paz! Esta é a missão que recebem. Hoje, o que mais faz falta é a paz: refazer os pedaços da vida, reconstruir as relações quebradas entre as pessoas. Relações quebradas por causa da injustiça e por tantos outros motivos. Jesus insiste na paz. Repete várias vezes! As pessoas que lutam pela paz são declaradas felizes e são chamadas filhos e filhas de Deus (Mt 5,9).

SITUANDO

Na conclusão do capítulo 20 (Jo 20,30-31), o autor diz que Jesus fez “muitos outros sinais que não estão neste livro. Estes, porém, foram escritos (a saber os sete sinais relatados nos capítulos 2 a 11) para que vocês possam crer que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e, acreditando, ter a vida no nome dele” (Jo 20,31). Isto significa que, inicialmente, esta conclusão era o final do Livro dos Sinais. Mais tarde, foi acrescentado o Livro da Glorificação que descreve a hora de Jesus, a sua morte e ressurreição. Assim, o que era o final do Livro dos Sinais passou a ser conclusão também do Livro da Glorificação.

COMENTANDO

João 20,19-20: A experiência da ressurreição

Jesus se faz presente na comunidade. As portas fechadas não podem impedir que ele esteja no meio dos que nele acreditam. Até hoje é assim! Quando estamos reunidos, mesmo com todas as portas fechadas, Jesus está no meio de nós. E até hoje, a primeira palavra de Jesus é e será sempre: “A paz esteja com vocês!” Ele mostrou os sinais da paixão nas mãos e no lado. O ressuscitado é crucificado! O Jesus que está conosco na comunidade não é um Jesus glorioso que não tem mais nada em comum com a vida da gente. Mas é o mesmo Jesus que viveu na terra, e traz as marcas da sua paixão. As marcas da paixão estão hoje no sofrimento do povo, na fome, nas marcas de tortura, de injustiça. É nas pessoas que reagem, lutam pela vida e não se deixam abater que Jesus ressuscita e se faz presente no meio de nós.

João 20,21: O envio: “Como o Pai me enviou, eu envio vocês”

É deste Jesus, ao mesmo tempo crucificado e ressuscitado, que recebemos a missão, a mesma que ele recebeu do Pai. E ele repete: “A paz esteja com vocês!” Esta dupla repetição acentua a importância da paz. Construir a paz faz parte da missão. Paz significa muito mais do que só a ausência de guerra. Significa construir uma convivência humana harmoniosa, em que as pessoas possam ser elas mesmas, tendo todas o necessário para viver, convivendo felizes e em paz. Esta foi a missão de Jesus, e é também a nossa missão. Numa palavra, é criar comunidade a exemplo da comunidade do Pai, do Filho e do Espírito Santo.

João 20,22: Jesus comunica o dom do Espírito

Jesus soprou e disse: “Recebei o Espírito Santo”. É só mesmo com a ajuda do Espírito de Jesus que seremos capazes de realizar a missão que ele nos dá. Para as comunidades do Discípulo Amado, Páscoa (ressurreição) e Pentecostes (efusão do Espírito) são a mesma coisa. Tudo acontece no mesmo momento.

João 20,23: Jesus comunica o poder de perdoar os pecados

O ponto central da missão de paz está na reconciliação, na tentativa de superar as barreiras que nos separam: “Aqueles a quem vocês perdoarem os pecados serão perdoados e aqueles a quem retiverdes serão retidos!” Este poder de reconciliar e de perdoar é dado à comunidade (Jo 20,23; Mt 18,18). No evangelho de Mateus é dado também a Pedro (Mt 16,19). Aqui se percebe a enorme responsabilidade da comunidade. O texto deixa claro que uma comunidade sem perdão nem reconciliação já não é comunidade cristã.

João 20,24-25: A dúvida de Tomé

Tomé, um dos doze, não estava presente. E ele não crê no testemunho dos outros. Tomé é exigente: quer colocar o dedo nas feridas da mão e do pé de Jesus. Quer ver para poder crer! Não é que ele queria ver milagre para poder crer. Não! Tomé queria ver os sinais das mãos e no lado. Ele não crê num Jesus glorioso, desligado do Jesus humano que sofreu na cruz. Sinal de que havia pessoas que não aceitavam a encarnação (2Jo 7; 1Jo 4,2-3; 2,22). A dúvida de Tomé também deixa transparecer como era difícil crer na ressurreição.

João 20, 26-29: Felizes os que não viram e creram

O texto começa dizendo: “Uma semana depois”. Tomé foi capaz de sustentar sua opinião durante uma semana inteira. Cabeçudo mesmo! Graças a Deus, para nós! Novamente, durante a reunião da comunidade, eles têm uma experiência profunda da presença de Jesus ressuscitado no meio deles. E novamente recebem a missão de paz: “A paz esteja com vocês!” O que chama a atenção é a bondade de Jesus. Ele não critica nem xinga a incredulidade de Tomé, mas aceita o desafio e diz: “Tomé, venha cá colocar seu dedo nas feridas!”  Jesus confirma a convicção de Tomé, que era a convicção de fé das comunidades do Discípulo Amado, a saber: o ressuscitado glorioso é o crucificado torturado! É neste Cristo que Tomé acredita, e nós também! Como ele digamos: “Meu Senhor e meu Deus!” Esta entrega de Tomé é a atitude ideal da fé. E Jesus completa com a mensagem final: “Você acreditou porque viu! Felizes os que não viram e no entanto creram!” Com esta frase, Jesus declara felizes a todos nós que estamos nesta condição: sem termos visto acreditamos que o Jesus que está no nosso meio é o mesmo que morreu crucificado!

João 20,30-31: Objetivo do evangelho: levar a crer para ter vida

Assim termina o Evangelho, lembrando que a preocupação maior de João é a Vida. É o que Jesus diz: “Eu vim para que todos tenham vida e a tenham em abundância” (Jo 10,10).

ALARGANDO

Shalom: a construção da paz  

O primeiro encontro entre Jesus ressuscitado e seus discípulos é marcado pela saudação feita por ele: “A paz esteja com vocês!” Por duas vezes Jesus deseja a paz a seus amigos. Esta saudação é muito comum entre os judeus e na Bíblia. Ela aparece quando surge um mensageiro da parte de Deus (Jz 6,23; Tb 12,17). Logo em seguida, Jesus os envia em missão, soprando sobre eles o Espírito. Paz, Missão e Espírito” Os três estão juntos. Afinal, construir a paz é a missão dos discípulos e das discípulas de Jesus (Mt 10,13; Lc 10,5). O Reino de Deus, pregado e realizado por Jesus e continuado pelas comunidades animadas pelo Espírito, manifesta-se na paz (Lc 1,79; 2,14). O Evangelho de João mostra que a paz, para ser verdadeira, deve ser a paz trazida por Jesus (Jo 14,27). Uma paz diferente da paz construída pelo império romano.

Paz na Bíblia (em hebraico é shalom) é uma palavra muito rica, significando uma série de atitudes e desejos do ser humano. Paz significa integridade da pessoa diante de Deus e dos outros. Significa também uma vida plena, feliz, abundante (Jo 10,10). A paz é sinal da presença de Deus, porque o nosso Deus é um “Deus da paz” (Jz 6,24; Rm 15,33). Por isso mesmo, a proposta da paz trazida por Jesus também é sinal de “espada” (Mt 10,34), ou seja, as perseguições para as comunidades. O próprio Jesus faz este alerta sobre as tribulações promovidas pelo império tentando matar a paz de Deus (Jo 16,33). É preciso confiar, lutar, trabalhar, perseverar no Espírito para que um dia a paz de Deus triunfe. Neste dia “amor e verdade se encontram, justiça e paz se abraçam” (Sl 85,11). Então, como ensina Paulo, o “Reino será justiça, paz e alegria como fruto do Espírito Santo” (Rm 14,17) e “Deus será tudo em todos” (1Cor 15,28).

Fonte: CEBI – www.cebi.org.br

UMA FAXINA NA CASA DE DEUS

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JESUS É O NOVO TEMPLO

João 2,13-25

  

Texto extraído do livro “Raio-X da Vida – Círculos Bíblicos do Evangelho de João” – Autores: Carlos Mesters, Mercedes Lopes e Francisco Orofino. Publicação do CEBI – A Palavra na Vida 147/148. 

SITUANDO

O início da atividade de Jesus foi apresentado dentro do esquema de uma semana. Agora, ao iniciar a descrição dos sinais que acontecem no sábado prolongado, o Quarto Evangelho adota o esquema das festas. Sábado é festa! Todos os sinais relatados por João estão relacionados, de uma ou de outra maneira, com festas importantes da vida do povo: casamento (Jo 2,1), Páscoa (Jo 2,13; 6,4; 11,55; 12,12; 13,1); Tendas (Jo 7,2.37); Pentecostes (Jo 5,1), Dedicação do Templo (Jo 10,22).

Os Evangelhos de Marcos, Mateus e Lucas colocam a expulsão do templo no fim da atividade de Jesus, pouco antes da sua prisão, como um dos motivos que levaram as autoridades a prender e matar Jesus. O Evangelho de João coloca o mesmo episódio no começo da atividade de Jesus. É para que as comunidades entendam que a nova imagem de Deus, revelada por Jesus, não está mais no antigo templo de Jerusalém, mas sim no novo templo que é Jesus. Não se pode colocar remendo novo em pano velho (Mc 2,21).

COMENTANDO  

João 2,13-14: Na festa da Páscoa, Jesus vai ao Templo para encontrar o Pai, e encontra o comércio

Os outros evangelhos relatam apenas uma única visita de Jesus a Jerusalém durante  a sua vida pública, aquela em que ele foi preso e morto. O Evangelho de João traz informações mais exatas. Ele diz que Jesus ia a Jerusalém nas grandes festas. Ir a Jerusalém significa ir ao Templo para encontrar-se com Deus. No casamento em Caná apareceu o contraste entre o vazio do Antigo Testamento e a abundância do Novo. Aqui vai aparecer o contraste entre o antigo templo, que virou casa de comércio, e o novo templo que é Jesus.

João 2,15-16: Jesus faz uma faxina no templo

No templo havia o comércio de animais para os sacrifícios e havia as mesas dos cambistas, onde o povo podia adquirir a moeda do imposto do templo. Vendo tudo isto, Jesus faz um chicote de cordas e expulsa do templo os vendedores com seus animais. Derruba as mesas dos cambistas, joga o dinheiro no chão e diz aos vendedores de pombas: “Tirem essas coisas daqui! Não façam da casa do meu Pai uma casa de comércio!” O gesto e as palavras de Jesus lembram várias profecias: a casa de Deus não pode ser transformada em covil de ladrões (Jr 7,11); no futuro não haverá mais vendedor na casa de Deus (Zc 14,21); a casa de Deus deve ser uma casa de oração para todos os povos (Is 56,7).

João 2,17: Os discípulos procuram entender o gesto de Jesus

Vendo o gesto de Jesus, os discípulos foram lembrando outras frases e fatos do Antigo Testamento: o salmo que diz: “O zelo de tua casa me devora” (Sl 69,10), e o profeta Elias que dizia: “Eu me consumo de zelo pela causa de Deus” (1Rs 19,9.14). Naquele tempo diziam: “A Bíblia se explica pela Bíblia”. Ou seja, só Deus consegue explicar o sentido da Palavra de Deus. Por isso, se os gestos de Jesus são Palavras de Deus, então devem ser iluminados e interpretados a partir da Palavra de Deus presente na Escritura. Isto ajuda a atualizar o significado das coisas que Jesus fez e falou, e a manter viva a sua presença no meio de nós. Aqui se percebe como é importante o mutirão de memória para lembrar outros textos da Bíblia.

João 2,18-20: Diálogo entre Jesus e os judeus

Tocando no templo, Jesus tocou no fundamento da religião do seu povo. Os judeus, isto é, os líderes, perceberam que ele tinha agido com muita autoridade. Por isso, pedem que apresente os documentos: “Que sinal você nos dá para agir desse jeito?” Jesus responde: “Podem destruir esse templo e em três dias eu o levantarei!” Jesus falava do templo do seu corpo, que seria destruído pelos judeus e em três dias seria totalmente renovado através da ressurreição. Os judeus tomaram as palavras de Jesus ao pé da letra e zombaram dele: “Levaram 46 anos para fazer este templo e você o levantará em três dias!” É como se dissessem com desprezo: “Vá enganar outro!” Sinal de que nada entenderam do gesto de Jesus, ou não quiseram entendê-lo!

João 2,21-22: Comentário do evangelista

Os discípulos também não entenderam o significado desta palavra de Jesus. Foi só depois da ressurreição que compreenderam que ele estava falando do templo do seu corpo. A compreensão das coisas de Deus só acontece aos poucos, em etapas. A expulsão dos comerciantes tinha ajudado a entender as profecias do Antigo Testamento. Agora, é a luz da ressurreição que ajuda a entender as palavras do próprio Jesus. Jesus ressuscitado é o novo templo, onde Deus se faz presente no meio da comunidade.

João 2,23-25: Comentário do evangelista sobre a fé imperfeita de algumas pessoas

Naqueles dias da festa da Páscoa, estando Jesus em Jerusalém, muita gente começou a crer nele por causa dos sinais que ele fazia. O evangelista comenta que a fé da maioria destas pessoas era superficial, só da boca para fora. Este breve comentário sobre a imperfeição da fé das pessoas deixa uma pergunta importante na cabeça da gente: “Então, como é que eu devo fazer para crescer na fé?” A resposta vai ser dada na conversa de Jesus com Nicodemos.

ALARGANDO  

Jesus e o templo  

Para os judeus no tempo de Jesus, o centro do mundo, o lugar onde  céu tocava na terra era o Santo dos Santos no templo de Jerusalém. Sendo o lugar central da religião, o culto no templo regulava a vida cotidiana de todos. O judeu piedoso, não importando o lugar em que morasse, deveria ir ao templo uma vez na vida. Mesmo no lugar mais distante, quando fazia suas orações a pessoa devia orientar seu corpo em direção a Jerusalém e ao templo. O templo era o lugar para onde convergiam as multidões de romeiros três vezes ao ano, por ocasião das grandes festas nacionais.

Sendo de família judia, Jesus segue a prática religiosa de sua gente. Por ser o primogênito de José e de Maria, ele foi apresentado a Deus no templo quando nasceu. Aos 12 anos fez o ritual de passagem para a vida adulta, lendo um trecho da Lei diante dos escribas do templo. Com seus familiares participava das romarias anuais por ocasião das festas. Durante sua vida pública, Jesus toma atitudes de verdadeiro profeta, denunciando os desvios do culto celebrado no templo. Seu gesto de expulsar do santuário os cambistas e os vendedores lembra as palavras de Miquéias (Mq 3,11-12), de Jeremias (Jr 26,1-18) e de Isaías (Is 66,1-4). Retomando as palavras de Oséias (Os 6,6), Jesus proclama a superioridade da misericórdia sobre os sacrifícios (Mt 12,7-8).

As primeiras comunidades dos seguidores e seguidoras de Jesus eram todas formadas por gente vinda do judaísmo da Palestina. No início, estas pessoas continuavam ligadas ao templo e frequentavam o santuário para rezar (At 2,46; 3,1). Mas, com o tempo, judeus helenistas e samaritanos entraram na comunidade. Estas pessoas não tinham uma ligação tão profunda com o templo de Jerusalém. Principalmente os samaritanos, que tinham seu próprio santuário no alto do monte Garizim (Jo 4,20). A presença destas pessoas fez com que as comunidades começassem a perceber que a prática libertadora de Jesus tornava inúteis os sacrifícios apresentados pelos sacerdotes do templo.

Depois do ano 70, com a destruição do templo, as comunidades releram as palavras de Jesus e concluíram que o templo de Jerusalém estava ultrapassado. A Glória de Deus não habitava mais naquele espaço! As comunidades do Discípulo Amado foram as que mais avançaram nesta reflexão. Elas concluíram que em Jesus, Palavra de Deus feita carne, reside a Glória de Deus (Jo 1,14). Jesus é o novo templo! O corpo de Jesus, ou seja, a sua realidade humana, é o local em que habita a plenitude da Divindade (Jo 2,21-22). Deus não se prende a nenhum santuário, nem o de Jerusalém nem o do monte Garizim. O que o Pai quer são os verdadeiros adoradores, aquelas pessoas que manifestam Deus em suas vidas através do amor ao próximo. Estas são as que o adoram “em espírito e verdade” (Jo 4,23). O verdadeiro templo de Deus é a comunidade, onde as pessoas são todas sacerdotes e sacerdotisas, “as palavras vivas”, que continuamente oferecem a Deus o autêntico sacrifício espiritual (1Pd 2,4-5). Por isso mesmo, no Evangelho de João, a limpeza da casa de Deus acontece no início da vida pública de Jesus

Fonte: www.cebi.org.br

A CAMPANHA DA FRATERNIDADE 2012 E OS DESAFIOS PARA A IGREJA

A saúde é o maior tesouro que temos. Não há como crescermos, trabalharmos, produzirmos e buscarmos a felicidade sem desempenho e funcionamento sadio das funções vitais básicas.  Sabemos que a saúde para além de “bem-estar” (OMS, 1946) é a resultante da interdependência das condições econômicas, sociais, políticas, ambientais, filosóficas, educacionais, tecnológicas e estruturais e que não bastam apenas políticas voltadas à cura, mas é preciso antes políticas de promoção de saúde e prevenção das doenças.  Aqui entra a questão da saúde pública.

Mudanças de hábitos para uma vida saudável, promoção do cuidado especial com o doente e melhoria no sistema público de saúde, são alguns dos objetivos da CNBB, com a Campanha da Fraternidade de 2012. Pretende a Campanha desse ano suscitar na sociedade ampla discussão sobre a realidade da saúde. Ela objetiva contribuir também para a qualificação, fortalecimento e consolidação do SUS (Sistema Único de Saúde), visando a melhoria da qualidade dos serviços, do acesso e da vida da população como um todo. No campo das políticas públicas, pesquisas revelam que as questões relacionadas à saúde vêm sendo, há muito tempo, consideradas a principal plataforma política e alvo das reivindicações da população brasileira.

Não podemos ficar inertes frente às profundas desigualdades sócio-econômicas e sociais existentes em nosso país. Nossa indignação tem que se traduzir em ações transformadoras em educação para a saúde dirigida para os cidadãos assim como a capacidade das pessoas para agir e assumir o cuidado de sua saúde, a saúde da família e da comunidade, além de criar condições para que a comunidade possa influir nas causas determinantes e condicionantes do processo saúde e doença e melhorando assim a qualidade de vida da população.

Numa pesquisa recente, divulgada pela Confederação Nacional da Indústria(CNI), intitulada Retratos da Sociedade Brasileira:Saúde Pública, mostra que seis em cada dez brasileiros reprovam o sistema público de saúde. O principal problema é a demora para o atendimento, apontado por 55% dos entrevistados. Entre outros problemas do sistema de saúde, está a falta de equipamentos e de unidades de saúde, mencionado por 10% e a falta de médicos, indicado por 9% da população. O estudo revela ainda que 95% das pessoas acreditam que o setor da saúde precisa de investimentos, mas 96% são contrárias à criação de impostos para melhorar a situação, pois de acordo com os entrevistados, a saúde já tem recursos suficientes para isso. O que precisa acontecer é o aperfeiçoamento da gestão e entre as soluções apontadas para a melhoria da saúde e a obtenção de mais recursos, 82% da população espera que o Governo acabe com a corrupção e 53% acredita que a redução de desperdícios é mais que suficiente para o avanço da saúde no País.

Toda essa questão foi levantada pela pesquisa, pois havia uma proposta no Congresso de criação de nova fonte para financiar a saúde. Só que, em 16 de janeiro, o Diário Oficial da União publicou a Lei Complementar 141, sancionada pela presidente, que regulamenta a Emenda 29 que fixa os gastos com saúde e os percentuais mínimos para investimento a serem observados pela União, estados e municípios. A presidente, dessa forma, vetou a brecha deixada pelo Congresso para a criação de um novo imposto para financiar a saúde.

O estudo da CNI aponta também que os hospitais públicos são os principais fornecedores de saúde para 68% da população, enquanto a rede privada é usada, de forma exclusiva, por apenas 10% dos brasileiros.

A CF 2012 propõe, no âmbito de suas ações concretas, uma educação para a saúde que deve ter como valor fundamental o respeito da dignidade do ser humano. Já dizia Kant que “as coisas tem preço as pessoas dignidade”. É preciso que as ações dos profissionais de saúde se pautem por uma compreensão do ser humano em sua integridade, levando em conta as suas dimensões físicas, psíquicas, culturais, sociais e espirituais, afastando-se das retrógradas correntes ideológicas exclusivamente biologicistas.

Temos pela frente, portanto, um gigantesco desafio de educarmos para a cidadania, para a consciência, defesa e respeito do sagrado direito à vida, consubstanciado no “direito à saúde”. Fazemos dois destaques. O primeiro é da Declaração Universal dos Direitos Humanos. O artigo 1º. da Declaração diz que “todos os homens, nascem livres e iguais em dignidade. Sãodotados de razão e consciência e devem agir em relação uns aos outros com espírito de fraternidade”. O artigo XXV proclama que “todo homem tem direito a um padrão de vida capaz de assegurar a si e a sua família e saúde e bem-estar”. O outro destaque é a Constituição Brasileira no seu artigo 196 proclama que “a saúde é direito de todos e dever do Estado, garantindo mediante políticas sociais e econômicas que visem à redução do risco de doença e de outros agravos e ao acesso universal e igualitário às ações e serviços para sua promoção, proteção e recuperação”. Infelizmente constatamos ainda com tristeza, que o anunciado e celebrado “direito à saúde” é ainda uma miragem e mero discurso retórico de políticos em muitas partes de nosso país.  Se ontem a saúde era vista como mera “caridade”, hoje, na lógica globalizante do mercado excludente, corremos o risco de considerá-la como uma “simples mercadoria”! A área da saúde é hoje um mercado que movimenta recursos econômicos em cifras astronômicas, que não conversa com a ética!  Defrontamo-nos aqui com perspectivas sombrias, onde se deveria cultivar a esperança.

A agenda de construção de uma cultura de respeito e cuidado da vida e saúde do brasileiro, passa pela incorporação dos referenciais éticos da justiça, solidariedade e equidade no cotidiano das políticas de nosso sistema público de saúde. Não basta maldizer a escuridão é preciso acender uma luz.

Por essa razão é que a Igreja, por meio da CF 2012, se propõe a construir em meio a este contexto social injusto e desigual, em que a doença e a pobreza falam mais alto do que o bem saúde, um horizonte de significado, o Reino de Deus. Nosso grande objetivo é construir uma sociedade justa e igualitária que permanentemente estimule uma solidariedade coletiva voltada para a proteção do bem para todos, em busca do Reino da Saúde.

Nosso grande esforço é para que haja uma mudança no conceito de saúde: de caridade para direito. Sobretudo porque, hoje em dia, como afirmamos há pouco, esse direito tem se transformado num negócio, num mercado livre, sem coração!

E aqui o papel da Pastoral da Saúde é vital! Desejamos que ela faça a diferença pela sua dinâmica presença de ser o sal e luz neste nosso contexto ainda tão estigmatizado pela escuridão da doença e das mortes que poderiam ser evitadas. Além de cuidar dos doentes, dentro de sua dimensão samaritana, a Pastoral da Saúde, deverá trabalhar para mudar estruturas político-sociais desiguais. Viveremos ainda o grande desafio, em nossas Dioceses, de preservar a identidade cristã dos profissionais da saúde que atuam nesse campo e que comungam de nossa fé e missão. Ecoará forte e amplo nosso convite de que, os preferidos de Deus, os pobres e doentes, sejam por nós todos visitados e encaminhados em suas demandas.

Para nós, cristãos, a saúde é vista como um dom que Deus confiou a responsabilidade humana. Esta responsabilidade se traduz no cuidado da própria saúde e na saúde dos mais fracos, com competência tecnocientífica e humano-ética. Este cuidado competente soa como um imperativo ético a cada um de nós, que deve se traduzir na prática numa prioridade de ação. O que foi prioritário para Jesus, deve ser prioritário para nós, seguidores de Jesus.

É verdade que há muitos motivos que nos alentam e nos enchem de esperança, mas desejamos que esta reflexão que a CF 2012 nos apresenta seja capaz de nos tornar ainda mais solidários, lembrados que fomos que, apesar de todo avanço e crescimento, a saúde em nosso País não vai bem. A mortalidade infantil no Brasil ainda é alta se comparada a outros países. A mídia faz “festa” diariamente com o caos na assistência médico-hospitalar pública brasileira.

Recomendamos vivamente uma ação de cidadania em todas as nossas comunidades, que se exerça via controle social com participação ativa e crítica nas instâncias oficiais, de onde se decidem as políticas públicas e os recursos para a saúde, seja no Conselho Nacional de Saúde, seja no estadual e principalmente no Conselho Municipal de Saúde. De tal maneira que a sociedade organizada, vigie e controle o Estado.

Muito nos anima constatar, em nossa Diocese, o surgimento de numerosas organizações populares que trabalham no cuidado, na defesa e na promoção da vida, com programas de educação e capacitação nutricional e alimentícia, farmácias comunitárias e outros.

Também é muito sentida a presença cada vez mais significativa de mulheres que assumem compromissos em favor das comunidades: comitês de saúde, criação e reforço de redes de solidariedade. A medicina popular e alternativa que vai sendo desenvolvida com todo o seu valor e que leva em conta o contexto global da saúde e da doença.

Dentro de muitas das nossas comunidades e paróquias, há um despertar de iniciativas e trabalhos articulados a fim de promover a humanização dos serviços de saúde, das estruturas e das instituições hospitalares e educativas, na direção de alimentar a formação, a capacitação e a atualização dos profissionais de saúde em nível humano, ético e bioético. 

Também nos deixa plenos de esperança o nascimento de grupos de pastoral da saúde, de organizações de socorro aos enfermos, de entidades de saúde comunitária ligadas às nossas Paróquias , que têm formulado propostas concretas no âmbito das políticas públicas de saúde como condição indispensável para melhorar as condições de vida dos cidadãos.

Dom Vilson Dias de Oliveira, DC - Bispo Diocesano de Limeira