Celebração do 6º Domingo da Páscoa

13 DE MAIO DE 2012 – N. SRA. FÁTIMA E DIA DAS MÃES

A Igreja se reconhece servidora do Deus da vida. A nova época que, pela graça deste mesmo Deus, haverá de surgir precisa ser marcada pelo amor e pela valorização da vida, em todas as suas dimensões

(CNBB DGAE. DOC 94, n.66)

Leituras: Atos 10, 25-27.34-35.44-48; Salmo 98 (97), 1.2-ab.3cd-4 (R/. cf 2b); Primeira Carta de João 4, 7-10; João 15, 9-17.

COR LITÚRGICA: BRANCA OU DOURADA

Aleluia irmãos e irmãs! Recebemos hoje o mandamento de Jesus: “amai-vos uns aos outros, como eu vos amei”. Neste mundo em que vivemos marcados muitas vezes pela intolerância e individualismo, acabamos nos esquecendo do amor que devemos ter para com os outros. Que esta celebração de hoje nos ajude nesta tarefa do amor. Hoje também lembramos nossas queridas mães, as quais têm em Maria sua referência maior de doação, de presença silenciosa e amorosa aos filhos.

1. Situando-nos brevemente

Celebramos hoje o domingo como evangelho do mandamento novo: “Amai-vos uns aos outros como eu vos amei”. O amor é dom e missão. O Ressuscitado nos confia a missão de repartir e de multiplicar seu amor, para que nossa alegria seja completa.

A liturgia deste 6º domingo do Tempo Pascal convida-nos a contemplar o amor de Deus, revelado na pessoa, nos gestos e nas palavras de Jesus e atualizado na vida e nas ações de seus seguidores. As mães que, com carinho lembramos neste dia, são expressão do amor de Deus para com seu povo.

Celebremos a páscoa de Jesus que se revela em todas as pessoas e grupos que se deixam conduzir pelo Espírito do amor. Dão continuidade à missão do Filho de Deus por seus gestos solidários em favor dos excluídos da sociedade egoísta e concentradora de bens.

2. Recordando a Palavra

Jesus e os discípulos estão em Jerusalém. Eles estão apreensivos diante do que poderá acontecer com o Mestre. Jesus, numa conversa bem franca, durante a ceia, lhes revela que ele os escolheu, os considera seus amigos e colaboradores da missão. Em continuidade ao domingo passado, Jesus insiste na unidade que deve haver entre ele e os discípulos, a exemplo da relação cultivada entre ele e o Pai. O êxito da missão está alicerçado na relação de amor: “Permanecei no meu amor. Se observardes os meus mandamentos, permanecereis no meu amor…”.

Os mandamentos se resumem na observância do amor Amar-vos “uns aos outros como ele nos amou”! Jesus vai além dos critérios do Antigo Testamento: “amarás o teu próximo como a ti mesmo” (Lv 19,18). O novo mandamento consiste no “amai-vos uns aos outros como eu vos amei”. A doação da própria vida por amor se traduz na prova de que os discípulos são, de fato, amigos de Jesus. “Vós sois meus amigos se fizerdes o que vos mando”.

Aos discípulos como amigos, Jesus não esconde os segredos do Pai. “Eu vos chamo amigos, porque vos dei a conhecer tudo o que ouvi de meu Pai”. Neste clima, Jesus e os discípulos convivem numa perfeita confiança. Os discípulos foram escolhidos para doarem a vida pela humanidade em perfeita unidade com ele.

Jesus lhes faz um último alerta: a eficácia (frutos) e a credibilidade da missão não estão tanto condicionadas à quantidade, quando à intensidade de relação de amor e da mútua colaboração. O Pai enviará o Espírito e capacitará à missão aqueles que se identificarem com Jesus na doação de sua vida. A marca registrada da missão dos discípulos é o “amor mútuo” (Evangelho).

A Boa Nova do Reino anunciado por Jesus difunde-se aos homens e mulheres de todas as raças e nações. O testemunho que nos é narrado neste domingo tem como cenário a grande cidade de Cesareia, na costa da Palestina. Pedro é acolhido por Cornélio, oficial romano responsável, em Cesareia, por uma unidade básica das legiões romanas. Ouvindo a palavra de Pedro, o oficial e sua família se convertem. Uma conversão que se reveste de significação especial para a expansão do cristianismo entre os gentios (1ª Leitura).

Diante da notícia de que o anúncio da Boa Nova de Jesus suscita novos seguidores, o ministro do Salmo convida a cantar: “Cantemos com alegria, pois ‘O Senhor fez conhecer a salvação, revelou sua justiça às nações’” (Sl 98).

O Apóstolo João escreve às comunidades da Ásia Menor. Ali, os cristãos, face às influencias de certas seitas heréticas, estavam atravessando uma crise, vacilantes quando à verdadeira fé. O mandamento do amor ao próximo era veemente negado por tais seitas. Para João, o amor ao próximo é exigência básica para a fé cristã. Deus é amor. Ninguém pode dizer  que está em comunhão com ele se não se deixar contagiar por seu amor, amando ao próximo (2ª Leitura).

3. Atualizando a Palavra

O sexto domingo da Páscoa dá continuidade à temática da união vital e fecunda entre a videira e os ramos. Esta é a união do amor que se expande do Pai ao Filho, do Filho aos discípulos e dos discípulos a todas as pessoas. O Pai quer congregar a todos no mesmo amor.

Estamos no contexto de despedida de Jesus. Tudo acontece naquela noite de despedida, durante uma “ceia”. Jesus está se despedindo e deixando as suas recomendações. As palavras de Jesus soam como um “testamento final”. Ele sabe que vai partir para o Pai e que os discípulos vão continuar no mundo. Convida-nos a seguir o caminho de entrega a Deus e de amor radical aos outros.

“Amai-vos uns aos outros como eu vos amei”. Traduzidos em vida pela comunidade dos seguidores de Jesus, os mandamentos deixam de ser normas externas, obrigações a serem cumpridas, para se tornarem a expressão clara do amor dos discípulos e de sua sintonia com Jesus.

O dialogo de Jesus com seus discípulos, com tom de despedida, tem, no horizonte, o mistério da cruz e a continuidade da missão. Uma cena que evoca a realidade de tantas mães que, na eminência de sua partida, reúne os filhos e, com emoção, transmite-lhes as últimas recomendações que se traduzem em verdadeiros referencias para a vida. “Permaneçam unidos, no mútuo amor!”

Assim como a relação amorosa entre irmãos eterniza as palavras de uma mãe, a relação de amor entre cristãos, em determinada comunidade de fé, eterniza o mandamento novo: “amai-vos uns aos outros como eu vos amei”. A comunidade eclesial é, por excelência, o lugar de vivência do mandamento do amor deixado por Jesus. O que dá visibilidade à vivência do amor são as obras de caridade solidária como expressão de doação total de si mesmo. O amor não pode ser apenas com palavras, mas com fatos e na verdade. “Vós sois meus amigos”.

Pertencer à comunidade dos “amigos de Jesus” é aceitar o convite que ele nos faz para colaborar na missão que o Pai lhe confiou e que consiste em testemunhar no mundo o projeto salvador de Deus para a humanidade. Aos “amigos” de Jesus, cabe revelar, em gestos, o grande amor de Deus a cada homem e mulher – e especial aos pobres, aos marginalizado, aos doentes, aos pequenos, aos oprimidos.

Compete aos “amigos de Jesus” a missão de eliminar o sofrimento, o egoísmo, a miséria, a injustiça, enfim tudo o que oprime e escraviza os irmãos e desfigura a obra criada. É ainda missão dos “amigos de Jesus” serem mensageiros da justiça, da paz, da reconciliação, da esperança; Aos membros da comunidade dos amigos de Jesus compete labutar contra os mecanismo que geram violência, medo e insegurança. O amor é dom e missão.

Os cristãos “da comunidade dos amigos de Jesus” são aqueles que testemunham no mundo, com palavras e gestos, que o mundo novo que Deus deseja oferecer á humanidade se edifica através e no amor. São aqueles que proclamam, em ações concretas, a cada homem e mulher: “tu és amado e querido de Deus e salvo em Jesus Cristo”.

O amor é a forma mais alta e mais deve animar todos os setores humanos. Consequentemente, o amor deve animar todos os setores da vida humana. Só uma humanidade na qual reina a “civilização do amor” poderá gozar de paz autêntica e duradoura. “A Igreja no mundo atual” responde ao desafio de construir um mundo animado pela lei do amor, uma civilização do amor, “fundada sobre os valores universais de paz, solidariedade, justiça e liberdade, que encontram em Cristo sua plena realização”.

A civilização do amor é a aplicação prática, na vida da sociedade, do amor que provém de Deus. Se Deus é amor, temos que colocá-lo como Senhor dessa civilização, mas infelizmente o que vemos é uma luta tremenda para que o contrário aconteça. “Estamos diante de uma realidade mais vasta, que se pode considerar como uma verdadeira e própria estrutura de pecado, caracterizada pela imposição de uma cultura antissolidária, que se configura em muitos casos como verdadeira “cultura de morte” (João Paulo II).

4. Ligando a Palavra com ação litúrgica

Na liturgia, recordamos e bendizemos o grande amor de Deus para com seu povo. Nós experimentamos seu amor, sentimos sua presença e aprendemos, deste modo, também a reconhecê-la em nossa vida quotidiana. Ele nos amou por primeiro, e continua a ser o primeiro a nos amar. Ele nos ama, nos faz ver e experimentar seu amor. A participação ativa, interna e externa na ação litúrgica, nos faz experimentar o amor de Deus, sentido sua presença e aprendendo a reconhecê-lo nos acontecimentos da história.

A Eucaristia é o sacramento do amor. É o amor maior, que se exprime mediante do sacrifício, a presença e a comunhão. O amor exige sacrifício. A Eucaristia significa e realiza o sacrifício da cruz, na forma de ceia pascal. Nos sinais do pão e do vinho, Jesus se oferece como Cordeiro imolado que tira o pecado do mundo.

Na celebração eucarística, renova-se para nós, as comunidades dos amigos de Jesus, a insistência para que sejam estreitados os laços da comunhão com ele. Ouvindo sua Palavra e participação de seu Corpo e Sangue repartidos, entramos em sua intimidade e o Pai nos torna seus amigos.

Ter vida eucarística é amar como Jesus amou. Não é simplesmente amar na medida dos seres humanos, o que chamamos de filantropia. É amar na medida de Deus, o que chamamos de caridade. É a capacidade de sair de si e colocar-se no lugar do outro com sentimento de compaixão, ou seja, de solidariedade com o sofrimento do outro.

Caridade é ter com o outro uma relação de semelhança e reconhecer-se no lugar em que o outro se encontra. “uma Eucaristia que não se traduza em amor concretamente vivido, é, si mesma, fragmentária” (Bento XVI, Deus caritas est. N.14). Por esta razão, a Igreja reza: “Deus todo-poderoso…fazei frutificar em nós, o sacramento pascal, e infundi em nossos corações a força desse alimento salutar” (oração depois da comunhão).

Enviado por D. Vilson Dias de Oliveira, DC – Bispo da Diocese de Limeira, SP

5º DOMINGO DA PÁSCOA

Em nossos dias, é, portanto, indispensável proclamar que ‘Jesus, convoca a viver e caminhar juntos. A vida cristã só se aprofunda e se desenvolve na comunhão fraterna’” (CNBB. DGAE. DOC. 94, n.130b).

Leituras: Atos 9, 26-31; Salmos 22 (21), 26b-27.28.30.31-32 (R/26a); 1 João 3, 18-24; João 15, 1-8. 

 COR LITÚRGICA: BRANCA

Aleluia irmãos e irmãs! Neste quinto domingo pascal, ouviremos que a verdadeira vida cristã se resume na videira e seus ramos. Jesus não é somente nosso caminho, o único modelo a seguir. Ele é a nossa vida, o “sangue” de nosso espírito, sem o qual não poderíamos segui-Lo nem permanecer na sua amizade.

Situando-nos brevemente

Seguindo a caminhada pascal, celebramos hoje o domingo do evangelho da videira e dos ramos. “Eu sou a videira, vocês são os ramos!”

Jesus ressuscitado, que no domingo passado se apresentou como o Bom Pastor, neste, se manifesta como “videira e o Pai como o agricultor”. Ele nos convida a uma relação tão interdependente, comparada à dos ramos com o trono de uma árvore. A comunidade é como uma videira, por vezes ela passa por momentos difíceis. É o momento da poda, necessário para que ela produza mais frutos.

A comunidade dos discípulos que permanecer unida ao Ressuscitado terá vida plena e, como a videira, produzirá os frutos desejados pelo Pai. Esta comunidade será verdadeira testemunha da presença e do carinho de Deus (o agricultor) no meio da sociedade.

Celebremos a páscoa de Jesus que se revela em todas as pessoas e grupos que testemunham um amor solidário, especialmente para com os enfermos e sofredores de nossa sociedade.

Recordando a Palavra

No Antigo Testamento, a videira era uma imagem do povo de Israel (cf. Is 5,1-7). Deus a plantou com muito carinho. A videira, no entanto, não correspondeu ao que dela se esperava (cf. Is 5,3-4). Jesus é a nova videira. Numa única frase ele explana toda a alegoria. Ele diz: “Eu sou a videira verdadeira, e meu Pai é o agricultor. Todo ramo em mim que não der fruto, Ele o corta. E todo o ramo que produz fruto, ele o poda!”.

Deus faz a poda através da sua Palavra que chega até nós pela Bíblia e por tantos outros meios. Jesus segue, afirmando: “Eu sou a videira e vós sois os ramos!” Não se trata de realidades distintas ou opostas. A videira sem ramos não existe. Os ramos, todavia, não possuem vida própria. Eles só produzirão frutos se estiverem vitalmente unidos ao tronco. Jesus é o todo, nós somos parte dele. “Sem mim nada podeis fazer”.

O discípulo produzirá frutos graças ao Espírito que o Ressuscitado lhe comunicar. O Espírito é a seiva que, emanando do tronco, torna o ramo fecundo. Jesus conclui a alegoria, revelando a sorte “dos ramos jogados fora”, ou seja, daqueles que se afastaram da comunidade do novo povo: “serão apanhados, lançados ao fogo e queimados”. O exemplo de relação que produziu frutos é a de Jesus e o Pai. O que o Pai mais deseja é que nos tornemos discípulos de seu Filho e, assim, produziremos muitos frutos para a glória do Pai (Evangelho).

A leitura dos Atos dos Apóstolos recorda a estadia de Paulo em Jerusalém, depois de ter saído de Damasco e de sua conversão. A comunidade é tomada pelo medo e a desconfiança. Apesar de Paulo empenhar-se em estar com os discípulos, a comunidade não acredita “que seja um dois discípulos”.

A mediação e o testemunho de Barnabé em favor de Paulo foram significativos diante da comunidade. Ele segue com entusiasmo, testemunhando Jesus Cristo, enfrentado ardorosamente as dificuldades e as posições suscitadas por sua pregação. A Igreja em paz, se edificava e progredia no temor do Senhor, e crescia em número com a ajuda do Espírito Santo (1ª Leitura).

Pelo canto do Salmo, a comunidade é convidada a agradecer ao Senhor Deus que jamais abandona quem nele depõe sua confiança. Como Paulo, o Senhor sustenta nossa labuta em favor da vida e de relações humanas alicerçadas na justiça. Todos cantam: “Sois meu louvor em meio à grande assembleia; anunciarei a todos vosso nome!” (Sl 22(21).

A Carta de João que vamos ouvimos nos apresentou alguns critérios sobre a maneira de viver como cristãos. A prática do mandamento do amor vai além dos sentimentos e afetos. Ela se concretiza em ações que promovem a vida e a felicidade dos irmãos.

Mais do que belos discursos, são as ações concretas em favor do próximo que dão credibilidade à vivência cristã e testemunham o plano salvador de Deus. Quem alicerça sua vida no amor está livre de todas as dúvidas e inquietações e tem a garantia de estar no caminho da verdade (2ª Leitura).

Atualizando a Palavra

A Liturgia da Palavra deste 5º Domingo do Tempo Pascal sublinha a união vital dos discípulos com o Ressuscitado, do batizado com sua comunidade de fé. Esta união vital Jesus a explica através da alegoria da videira. Ele mesmo se apresenta como a “videira verdadeira” e nós, seus discípulos, os ramos, vitalmente unidos a ele. No primeiro Testamento, a videira era considerada o símbolo do povo eleito de Deus. Mas esta videira não correspondeu às expectativas do “agricultor”.

O Pai (o agricultor) desejou que o Filho fosse o tronco da videira e nós os ramos. Se estivermos unidos à videira, que é Jesus, também daremos os frutos que Jesus deu e então poderemos ser Cristo para os nossos irmãos, sendo instrumentos de transformação em suas vidas

Não existe vida para o ramo, se ele estiver separado do tronco. O ramo que se separa da cepa, seca e morre sem produzir frutos, vira lenha e é lançado ao fogo. Portanto, sem Jesus não há vida, não há frutos. Os frutos aqui evocados são a santidade de uma vida fecunda pela união a Cristo (cf. Catecismo da Igreja Católica, n.2074).

Jesus ressuscitado é a Videira e nós somos os ramos dessa Videira. São Paulo ensina que, pelo Batismo, nos tornamos Corpo de Cristo, membros do seu corpo (cf. Ef 5,30). Então, no Batismo, o Espírito Santo nos enxerta como ramo na Videira, que é Jesus Cristo, e consequentemente, “pelo poder do Espírito Santo, participamos da Paixão de Cristo, morrendo para o pecado, e pela Ressurreição, nascendo para uma vida nova; somos os membros de seu Corpo, que é a Igreja, os sarmentos enxertados na Videira, que é ele mesmo” (Catecismo da Igreja Católica, n.1988).

Os ramos que não se alimentam da seiva do tronco murcham, secam e são jogados fora. Assim também nós: se não nos nutrirmos do Espírito de Deus, definhará a nossa vida, gerada em nós pelo Batismo. Os ramos que se mantêm unidos ao tronco recebem a seiva da vida que os torna fortes, vigorosos e férteis. Produzem muitos frutos e de excelente qualidade, como os de Jesus: perfeitos e comestíveis.

Como ramos da videira, precisamos nos deixar impregnar por usa seiva, que é Jesus Cristo, assim: “estareis capacitados a entender, com todos os santos, qual a largura, o comprimento, a altura, a profundidade” (Ef 3,18) do amor de Deus. A nova comunidade, que Jesus ressuscitado inaugura, resulta da união vital entre ele e seus seguidores.

Jesus repete oito vezes a palavra “permanecer”. Para nós (os ramos) é vital permanecer no amor. Permanecer em Deus. O amor tem um rosto: no rosto de Cristo crucificado vemos Deus. “Quem me vê, vê o Pai” (Jo 14,9). Como a planta precisa de água, nós também precisamos da “Água Viva”, o Espírito de Deus, para nos encharcar desse amor.

Nossa vida cristã depende dessa união: “Sem mim nada podeis fazer” (Jo, 15,5), isto é, os frutos que produzimos vêm da união a Cristo. Quem não permanecer unido, secará e perderá a vida. Esta união é fonte de energia, é graça de Deus. Estar unido é produzir frutos.

Quem ama sofre, pois o amor exige renúncia. Por isso, Jesus revela que, estar unido a ele é ter que suportar as podas para produzir mais frutos. Mesmo que a poda seja sofrida tanto para o agricultor, como para a videira e os ramos, ela se faz necessária. Sem ela, os ramos acabam prejudicando toda a videira, a qual não produzirá os frutos esperados.

Muitas vezes, as podas do “Agricultor” (Deus) podem ser dolorosas e não entendemos como acontecem. Podem ser uma doença, um acidente, determinada provação ou sofrimento que, no curso do tempo, se transformam em graça e melhor qualidade de vida. São podas que fazem parte do plano de salvação de Deus, pra cada pessoa ou comunidade. A correção de Deus é de um Pai amoroso, que deseja ver seus filhos realizados e felizes.

Ligando a Palavra com ação litúrgica

Na comunidade, celebramos e vivenciamos, pelo Batismo e pela Eucaristia, a vida que brota da videira verdadeira, Jesus Cristo ressuscitado. Íntima comunhão com o Ressuscitado é que dá fecundidade aos ramos (os discípulos) para produzirem abundantes frutos, que manifestam a glória do Pai na missão.

A Eucaristia é a fonte e o ápice de toda a vida cristã (cf. Lumem Gentium, n.11). A comunhão do corpo do Cristo eucarístico significa e produz a íntima comunhão de todos os membros no Corpo de Cristo que é a Igreja – relação de comunhão e participação efetiva na comunidade.

A união vital que se realiza entre Cristo e seus seguidores (os ramos), pela participação na ação eucarística, nos habilita a novos relacionamentos com os irmãos e irmãs na sociedade.

O fruto da videira é a uva, que é a matéria principal da produção do vinho. Na Eucaristia, o vinho e o pão são transformados em Corpo e Sangue de Cristo, pela ação do Espírito Santo. Na Sagrada Eucaristia, a partir da Cruz, Jesus nos atrai todos a si (cf. Jo, 12,32) e nos torna ramos da videira, que é ele mesmo.

Permanecendo unidos a ele, produziremos frutos bons; não o vinagre da autossuficiência, da injustiça, da corrupção, mas o vinho bom da alegria de Deus e do amor ao próximo. A Eucaristia, celebrada com o vinho, fruto da videira, é certamente um momento de graça na íntima união entre o Ressuscitado e sua comunidade. Desse modo, da ação litúrgica, como “lugar privilegiado do encontro com o Senhor”, emanará a seiva para a produção de frutos num novo dinamismo de vida.

Enviado por D. Vilson Dias de Oliveira, DC – Bispo da Diocese de Limeira

Celebração do Quarto Domingo da Páscoa

“Uma verdadeira conversão pastoral deve estimular-nos e inspirar-nos atitudes e iniciativas de autoavaliação e coragem de mudar várias estruturas pastorais em todos os níveis, serviços, organismos, movimentos e associações” (CNBB. DGAE. DOC. 94, n.26)

Leituras: Atos 4, 8-12; Salmos 118 (117), 1.8-9.21.26.28cd.29 (R/22); 1 João 3, 1-2; João 10, 11-18.

COR LITÚRGICA: BRANCA OU DOURADA

Aleluia, irmãos e irmãs! Rendamos graças ao Pai pelo Cristo, nosso Bom Pastor e Salvador! Ele, que nos comunica a Vida Divina, fortaleça nossa vida física para podermos melhor servir. Estejamos em comunhão com os pastores da Igreja e peçamos a Jesus pelas vocações sacerdotais e religiosas.

1. Situando-nos brevemente

Hoje, 4º domingo do Tempo Pascal, é o domingo do evangelho do Bom Pastor e dia mundial de orações pelas vocações.

A mística pascal continua e, neste domingo a comunidade sente-se especialmente enriquecida e animada com a presença viva de Jesus como Pastor. Jesus ressuscitado é o Bom Pastor que doa sua vida pelas ovelhas. Ele as conhece pelo nome e elas reconhecem a voz do seu pastor. Boa Nova que revela ternura e cuidado para com seu povo, em especial, com os doentes e sofredores.

Que bom estarmos juntos, como rebanho reunido em torno do nosso melhor e mais verdadeiro Pastor e Guia, ouvindo sua palavra e acolhendo sua vida entregue por todos nós. Que, nesta celebração dominical, o Pai nos conceda o dom de viver em sua comunhão e na doação gratuita e generosa aos irmãos e irmãs.

Neste dia mundial de orações pelas vocações, não podemos deixar de lembrar que, hoje, esta presença do Bom Pastor passa pela presença daqueles a quem ele chama para darem continuidade à sua missão redentora.

2. Recordando a Palavra

João evangelista nos apresenta a alegoria do Bom Pastor com elementos que se revestem de profundo significado. Jesus ressuscitado é o Bom Pastor que veio para que todos tenham vida em abundância! Para realçar a figura do Bom Pastor o evangelista usa várias imagens a partir da realidade dos que tomam conta do rebanho.

Depois de se referir a Jesus como “a porta das ovelhas”, agora, o apresenta como “Bom Pastor”. Jesus não é qualquer pastor, mas o “Bom Pastor”. A imagem do Bom Pastor provém do Antigo Testamente. Jesus é apresentado como aquele que vem realizar as promessas dos profetas e as esperanças do povo. João sublinha dois aspectos: “o bom pastor dá a sua vida pelas ovelhas”. Atitude que o diferencia dos maus pastores, os que exercem o ofício quais funcionários assalariados. “O bom pastor conhece as suas ovelhas e elas conhecem o seu pastor”. Procedimentos que contrastam com o modo de agir dos fariseus. Estes desprezavam as ovelhas e as chamavam de povo maldito e ignorante (cf. Jo, 7,49).

Jesus é o Bom Pastor porque dá atenção às ovelhas e elas reconhecem sua voz. O interesse de Jesus é a vida das ovelhas e, por isso, é capaz de doar a vida por elas. Despojado de projetos pessoas, e totalmente aberto à vontade do Pai, abre o horizonte afirmando que tem outras ovelhas que não são deste redil. Elas ainda não ouviram a sua voz, mas quando a ouvirem, vão perceber que ele é o Pastor e vão segui-lo (Evangelho).

Os apóstolos Pedro e João dão continuidade à atitude pastoral de Jesus, o Bom Pastor. Eles curam um deficiente físico, ensinam ao povo e anunciam a ressurreição dos mortos na pessoa de Jesus. Ambos são presos e conduzidos ante os chefes, os anciãos e os escribas. Animado pelo Espírito Santo, Pedro proclama diante do tribunal: “o homem que está diante de vós, foi curado em nome de Jesus Cristo, o Nazareno, que vós crucificastes e que Deus ressuscitou dos mortos” (1ª Leitura).

Pelo canto do Salmo 118 (117), a comunidade reunida entoa a ação de graças ao Pai porque, em Jesus Cristo ressuscitado, temos a pedra fundamental, motivo de exultação e confiança. “A pedra que os pedreiros rejeitaram, tornou-se agora a pedra angular” (Sl 118).

A carta de João recorda aos membros da comunidade cristã sua condição de “filhos de Deus”, em razão do grande amor que ele tem pela humanidade. A condição de filhos diferencia os cristãos no mundo. A filiação divina recebida pelo Batismo é uma realidade que envolve o fiel por toda a sua vida e que implica a prática coerente com as obras e as propostas de Deus (2ª Leitura).

3. Atualizando a Palavra

A sociedade atual, sobretudo os jovens e adolescentes, se move pela busca de figuras referenciais para sua vida. Os padrões editados pela mídia projetam modelos que condicionam as pessoas a assumi-los, por vezes com conseqüências nefastas. Cantores e artistas famosos, atletas bem sucedidos etc., alimentam o sonho de autorealização, de fama e de ser um herói para milhões de indivíduos. Estes “ídolos” mexem com o universo imaginário e simbólico das pessoas, sobretudo dos mais jovens.

Israel sonhava e esperava pelo dia em que Deus suscitasse bons pastores e que o Messias fosse um bom pastor para o povo de Deus (cf. Jr 3,15; 23,4). Jesus, apresentando-se como o “Bom Pastor”, realiza a esperança do povo. Em Jesus também se realiza a profecia de Zacarias, quando diz que o bom pastor será perseguido pelos maus pastores, importunado pela denúncia que ele faz: “Vão bater no pastor e as ovelhas dispersarão!” (Zc 13,7).

Jesus é o verdadeiro Pastor de Israel, porque o ‘Filho do Homem’ quis partilhar a condição dos seres humanos para lhes doar a vida nova e conduzi-los à salvação.

Jesus é o Bom Pastor, não simplesmente em oposição à figura dos pastores mercenários, mas porque valoriza e conhece suas ovelhas e é reconhecido por elas. Ele dá a vida por elas por uma opção de amor. Portanto, Jesus se apresenta à comunidade como Bom Pastor, movido pela lógica do amor e não dos interesses e favores pessoas, a exemplo dos mercenários. Quem não ama sua comunidade (seu povo) até à doação de sua vida, não pode ser considerado pastor exemplar.

O pastoreio de Jesus decorre das relações de intimidade com o Pai: “Assim como o Pai me conhece, eu conheço o Pai”. É esse amor cultivado na intimidade com o Pai que leva Jesus a doar sem limites a própria vida pelas ovelhas. Por conseqüência, conhecer Jesus e tê-lo como modelo de vida implica conhecer seu amor e aderir ao estilo de seu agir.

A mútua relação entre Jesus e os seus gera e nutre a relação de intimidade, de confiança, de diálogo, de pertença, de segurança. Não é em vão que a palavra pastoral evoca zelo, cuidado, carinho, misericórdia, compaixão, amor, dedicação, atenção às pessoas e às suas necessidades.

O agir do Bom Pastor torna-se referencial da ação eclesial e dos diferentes serviços pastorais da Igreja em favor do povo. Por isso, falar de Pastoral na Igreja é ter presente Jesus Cristo, o Bom Pastor, enviado pelo Pai, que dá a vida pelas suas ovelhas (cf. Jo 10,11.15) e à “sua” missão de pastoreio confiada à Igreja, colocando pastores à sua frente.

Fazer pastoral é exercer a missão de Jesus e, em nome de Jesus Bom Pastor, lembra a generosidade e a disponibilidade de um número incontável de batizados, engajados nos serviços da ação evangelizadora e pastoral da Igreja. A nossa atuação pastoral é relacional, de amizade, é oblativa em união com a caridade do Bom Pastor, é transformante, porque faz de nós um sinal claro do próprio Jesus (cf. Papa Bento XVI Mensagem para o Dia Mundial de Oração pela Santificação dos Sacerdotes).

Pela atuação da pessoa do Papa, bispos, presbitérios, religiosos, religiosas e das lideranças leigas, Jesus, o Bom Pastor, continua doando sua vida, manifestando seu carinho e sua atenção por nós, pelas comunidades, em especial, por doentes e sofredores. Estes são os privilegiados da ternura e do cuidado do Bom Pastor.

4. Ligando a Palavra com ação litúrgica

Ser cristão é conhecer e ouvir a voz do Bom Pastor. É participar do rebanho de Jesus ressuscitado. Participar da ação litúrgica é entrar na relação de comunhão que acontece entre o rebanho e o Bom Pastor: acolher, ouvir e ser reconhecido. A liturgia é, essencialmente, diálogo comunitário com o Senhor ressuscitado, com os momentos nos quais o pastor escuta o seu povo em oração e a comunidade acolhe a palavra de seu pastor.

A ação litúrgica, em especial a Eucaristia, é memorial do Bom Pastor que, no alto da cruz, ofereceu sua vida pela salvação do rebanho. Na hora da entrega da vida, o mercenário foge! O Bom Pastor se entrega sem limites. “Pai, não seja feita a minha vontade, mas a tua!” (Lc 22,42). “Meu alimento é fazer a vontade daquele que me enviou e levar a termo a sua obra (Jo 4,34|). Por isso recorremos ao Pai, na oração depois da comunhão: “Velai com solicitude, ó Bom Pastor, sobre o vosso rebanho, e concedei que vivam nos prados eternos as ovelhas que remistes pelo sangue do vosso Filho”.

A celebração eucarística torna presente o amor oblativo do Bom Pastor para com todos os filhos de Deus. Ele não só se entrega pelas ovelhas, mas, em sacramento, continua presente, doando-se como alimento e bebida. A Eucaristia é Cristo, o Bom Pastor, que se dá a nós, edificando-nos continuamente com seu rebanho, seu povo sacerdotal.

O Cristo ressuscitado, como Bom Pastor está no meio de nós, caminhando à nossa frente, conduzindo-nos às pastagens férteis e às águas refrescantes, isto é, à vida verdadeira e plena. Neste sentido, podemos cantar com Santo Tomás de Aquino: “Bom Pastor, pão de verdade, tende piedade de nós. Conserva-nos na unidade. Extingue nossa orfandade e conduze-nos ao Pai”.

Nossa participação na Eucaristia deveria suscitar em nós uma corajosa avaliação de nossa ação pastoral, do modo como realizamos os serviços pastorais, em nome do Bom Pastor, em favor do seu rebanho. Quem toma parte na Eucaristia, insere-se no dinamismo do Bom Pastor e aprende a se tornar promotor de comunhão, de paz, de solidariedade, em todas as circunstancias da vida.

Enviado por D. Vilson Dias de Oliveira - Bispo da Diocese de Limeira

CELEBRAÇÃO DO TERCEIRO DOMINGO DA PÁSCOA

“Em meio a um mundo marcado por tantos sinais de mortes e inúmeras formas de exclusão, ‘a Igreja, em todos os seus grupos, movimentos e associações (…), tem a importante missão de defender, cuidar e promover a vida, em todas as suas expressões” (CNBB. DGAE. DOC. 94, n.106)

Leituras: Atos 3, 13-15.17-19; Salmos 4, 2.4.7.9 (R/7a); 1 João 2, 1-5a; Lucas 24, 35-48.

COR LITÚRGICA: BRANCA OU DOURADA.

Aleluia irmãos e irmãs! “Cristo ressuscitou verdadeiramente. Aleluia!”. Esta afirmação de fé deve ser feita por nós em cada dia de nossa vida, pois a fé não é uma entrega diante de uma evidência, mas uma resposta livre diante de um chamado. E Jesus nos chama para testemunhar sua presença viva entre nós. Sempre que nos reunimos em comunidade, sempre que escutamos sua Palavra, “ele está no meio de nós!”.

1. Situando-nos brevemente

O terceiro domingo da Páscoa nos apresenta Jesus ressuscitado dos mortos, revelando-se novamente à comunidade dos discípulos, desejando-lhe: “a paz esteja convosco!”.

A morte e a ressurreição do Senhor ocupam o centro da história da salvação. A escuta da Palavra de Deus suscita a fé em Cristo ressuscitado. Como outrora os discípulos, hoje, nós também experimentamos sua presença por meio da Palavra e do Pão da vida. Ele nos comunica a paz e nos confirma como testemunhas do mistério de sua Páscoa. Confirmados na fé pelos sinais sensíveis e instruídos pelas palavras da Escritura, podemos perceber a sua presença viva na comunidade e na história.

Na celebração comunitária deste domingo, entoemos nossos louvores ao Pai que nos faz passar, com Cristo, da morte para a vida e nos torna promotores da Boa Nova a reconciliação e da paz, dons da Páscoa.

2. Recordando a Palavra

A comunidade dos discípulos está reunida em Jerusalém, ouvindo “o que tinha acontecido no caminho de Emaús, e como o tinham reconhecido ao partir o pão”. Jesus se manifesta e deseja: “a paz esteja convosco!”. Todavia, o ambiente ainda é de medo, de insegurança e de dúvida. “Ficavam todos assustados e cheios de medo, pensando que estavam vendo um espírito”.

A intenção do evangelista é de revelar como os discípulos, face às manifestações do Ressuscitado, foram, progressivamente, descobrindo e aderindo na fé. “Vede minhas mãos e meus pés, sou eu mesmo! Tocai em mim e vede!”.

Lucas recorre a elementos sensíveis e materiais, como tocar e comer peixe assado, para sublinhar que o encontro com o Ressuscitado foi uma experiência marcante e única. Ela não se constitui numa miragem (fantasia), mas em realidade viva e incontestável, que a comunidade vai descobrindo e experimentando ao longo de uma caminhada, em meio a dúvidas e incertezas.

É todo um processo em que os discípulos, movidos pela escuta da Palavra e abrindo sua inteligência, vão sendo inseridos e, ao mesmo tempo, vivenciando na fé, o mistério da ressurreição: “o Cristo sofrerá e ressuscitará dos mortos ao terceiro dia e, no seu nome será anunciada a conversão, para o perdão dos pecados, a todas as nações”.

O Jesus que se “manifesta no meio da comunidade reunida” é o mesmo que percorreu com os discípulos os caminhos da Palestina, pregando a Boa Nova do Reino. Como Ressuscitado, ele continua presente, no meio dos seus, animando sua caminhada, seus projetos, suas esperanças. A fé na ressurreição e o tornar-se sua testemunha exige uma mudança radical no modo de viver.

A pregação do apóstolo Pedro parte de uma experiência feita em nome de Jesus: a cura do aleijado. “Ouro e prata não tenho, mas o que tenho eu te dou: em nome de Jesus Cristo: levante-te e anda!” Jesus está vivo e continua agindo. A ação do apostolo está em continuidade com a missão de Jesus. Evocando os acontecimentos da morte e da ressurreição, dos quais afirma ser testemunha (“Disto nós somos testemunhas!”), convoca a todos a mudar de vida e aderir à Boa Nova do Ressuscitado (1ª Leitura).

No canto do salmo, a comunidade expressa sua confiança no “Deus da História” que defende e salva por Jesus Cristo, vencedor do pecado e autor da vida. Contemplando a ação do “Deus de nossos pais”, a assembléia canta: “sobre nós fazeis brilhar o esplendor de vossa face, ó Deus do universo!” Salmo 4,2.4.79 (R/7a).

A primeira carta de São João afirma que conhecer a Deus é guardar seus mandamentos. O conhecimento de Deus requer atitudes concretas de envolvimento, escuta e vivência dos projetos de Deus, revelados em Jesus Cristo (2ª Leitura).

3. Atualizando a Palavra

Como Igreja, seguimos a caminhada pascal com as manifestações de Jesus ressuscitado em meio à comunidade de seus seguidores. O medo e a incerteza de outrora e de hoje levantam algumas interrogações: Jesus ressuscitou verdadeiramente? Como podemos fazer uma experiência de encontro com Jesus ressuscitado? Como podemos mostrar ao mundo que Jesus está vivo e continua a oferecer aos seres humanos a salvação?

O Apóstolo Pedro afirma ser testemunha vida da ressurreição: “Deus ressuscitou Jesus dos mortos” (cf. At 3,15). Esse acontecimento é a Boa Nova para o mundo. Por isso, os apóstolos são, em primeiro lugar, testemunhas e anunciadores da ressurreição de Jesus Cristo. “Disto nós somos testemunhas”.

O Evangelho de hoje pode ser chamado de “a prova dos sentidos”. Os sentimentos dos discípulos são de medo, susto, surpresa, alegria. Para que eles possam entender o que está acontecendo, o Ressuscitado fala, deixa-se ver, pede para ser tocado e come na presença deles. A seguir, para levar seus ouvintes a crerem, o Ressuscitado passa a fazer memória do que está escrito sobre ele na Lei de Moisés, nos profetas e nos salmos. A argumentação a partir das Escrituras, como palavra inspirada, torna-se uma fonte indispensável para compreender os acontecimentos relacionados ao Ressuscitado.

São Jerônimo, o “Leão do Deserto”, alerta: “Desconhecer as Escrituras é ignorar o próprio Cristo”. “Quem conhece a Palavra divina conhece plenamente também o significado de cada criatura” (Verbum Domini, n.10). “Desde o início, os cristãos tiveram consciência de que, em Cristo, a Palavra de Deus está presente como Pessoa. A Palavra de Deus é a luz verdadeira, de quem o homem tem necessidade. Sim, na ressurreição, o Filho de Deus surgiu como Luz do mundo. Agora vivendo com ele e para ele, podemos viver na luz” (Verbum Domini, n.12). No Mistério Pascal, realizam-se “as palavras da Escritura” (Verbum Domini, n.13).

Ocorre que o mistério da ressurreição de Jesus somente é compreensível na perspectiva da lógica da fé e do testemunho e não das evidências materiais, das provas sensíveis e das demonstrações cientificas. A lógica da fé é um caminho que se faz com o coração aberto à Palavra de Deus, sempre atento para acolher os apelos em favor da vida.

Os discípulos iniciaram o caminho da fé e do testemunho da Ressurreição entre incertezas e alegrias. Na experiência do encontro com o Ressuscitado, chegaram à certeza: “ele está vivo!”, “Realmente o Senhor Ressuscitou!”. “Nós o reconhecemos ao partir o pão!”. “Disto nós somos testemunhas”.

Observemos que o encontro e a experiência, que asseguram a presença de Jesus ressuscitado efetuam-se na comunidade reunida. É ainda desse lugar primordial, que emerge a urgência missionária. “Vocês são testemunhas disso!”. Esta é a nossa certeza e esse deve ser o nosso compromisso: sermos testemunhas do Ressuscitado, oferecendo aos povos o maior tesouro que possuímos: Jesus Cristo ressuscitado, nosso Salvador. Aleluia!

Quem dera que, no amor fraterno de nossas comunidades eclesiais, a sociedade possa ver e sentir a presença atuante do Cristo vivo!

4. Ligando a Palavra com ação litúrgica

Na comunidade reunida, acolhemos e nos encontramos com o Senhor ressuscitado que nos saudando – “a paz esteja convosco” – nos envia e nos confirma no testemunho da Boa Nova da ressurreição. A celebração dominical “é o momento privilegiado do encontro das comunidades com o Senhor Ressuscitado” (DAp, n.305).

O Cristo ressuscitado continua presente e vivo no meio da comunidade que, apesar das dificuldades e incertezas, se congrega. Também nós experimentamos sua presença em nossas assembléias, por meio da proclamação da Palavra, da oração e da partilha do pão. Ele abre nossa inteligência e elimina nossos medos, para que sejamos testemunhas ardorosas de seu mistério pascal.

A presença do Ressuscitado na comunidade da nova aliança realiza-se nos sinais da Palavra e do pão partilhado: palavra para instituir a mente e animar o coração; pão para saciar quem tem fome. Foi assim que ele foi sendo reconhecido pelos discípulos e eles entenderam o testemunho que deviam dar ao mundo, anunciando a palavra da paz e da reconciliação.

Que o Senhor ressuscitado, pelo seu Espírito, nos reanime e nos fortaleça nesta celebração e em todas as celebrações, a fim de que, alimentados pela Palavra e pela Eucaristia, sintamos sempre o Senhor em nosso meio. Com ele, não nos faltará o ardor para evangelizar, apesar das contradições da sociedade em que estamos inseridos.

Enviado por D. Vilson Dias de Oliveira, DC – Bispo da Diocese de Limeira

CELEBRAÇÃO DO 2º DOMINGO DA PÁSCOA

“A fé cristã é, antes de tudo, adesão pessoal à pessoa de Jesus Cristo e ao seu Evangelho, acolhida do dom gratuito que vem de Deus” (CNBB DGAE. DOC 94, n.130A)

Leituras: Atos 4, 32-35; Salmos 117 (118), 2-4.16ab-18.22-24 (R/1); Primeira Carta de João 5, 1-6; João 20, 19-31.

COR LITÚRGICA: BRANCA OU DOURADA

Aleluia irmãos e irmãs! Neste segundo domingo da Páscoa, refletiremos sobre a fé no Cristo ressuscitado, no Cristo misericordioso, que nos dá o perdão e a paz, como fez com seus discípulos. Que possamos viver essa fé plenamente para sermos misericordiosos, a exemplo do Ressuscitado.

1. Situando-nos brevemente

Estamos no 2º Domingo do Tempo Pascal. Tempo no qual celebramos a ressurreição do Senhor, como único e grande dia, que se estende desde o domingo da Páscoa ao domingo de Pentecostes. “Os cinquenta dias entre o domingo da Ressurreição e o domingo de Pentecostes sejam celebrados com alegria e exultação, como se fossem um só dia de festa, ou melhor, como um grande domingo” (Normas Universais do Ano Litúrgico e Calendário Romano Geral n.22).

Hoje, domingo da Divina Misericórdia, instituído pelo Beato João Paulo II, damos graças ao Senhor por seu eterno amor por nós, sempre disposto a nos perdoar, sempre que nosso coração arrependido volta-se para ele. Como Tomé, exclamamos maravilhados: “Meu Senhor e meu Deus”.

Reunidos em assembleia, motivados pela fé no Ressuscitado, celebremos, neste dia, sua manifestação na comunidade de seus discípulos. Acolhamos o dom da paz e do Espírito que nos constitui em artífices de relações novas, reconciliadas e fundadas na justiça e na misericórdia.

2. Recordando a Palavra

Jesus ressuscitado vai ao encontro e manifesta-se à comunidade reunida de portas fechadas e lhe deseja a paz: “A paz esteja convosco”!

Ele mostrou os sinais da paixão nas mãos e no lado. O Ressuscitado é o crucificado! E repete: “a paz esteja convosco!” A comunidade acolhedora do Ressuscitado tem a missão de construir a paz, impulsionada pelo Espírito Santo. Missão que se traduz na construção de novas relações reconciliadas pelo perdão.

Tomé está ausente e não crê no testemunho da comunidade. Durante uma semana ele sustenta sua opinião e para crer no Ressuscitado, exige provas. Novamente, durante a reunião da comunidade, o Senhor ressuscitado se manifesta, saudando: “A paz esteja convosco”!

Sem repreendê-lo, Jesus convida Tomé a averiguar os sinais de sua paixão. Ante a evidência de ser o “Senhor crucificado e ressuscitado”, Tomé exclama: “Meu Senhor e meu Deus!” Esta exclamação revela atitude ideal da fé. Jesus completa com a mensagem final: “acreditaste porque me viste. Bem-aventurados os que não viram e creram!”. Felizes são todos aqueles que, sem terem visto, sem exigir provas materiais, acreditam que Jesus está nomeio de nós e é o mesmo que morreu crucificado (Evangelho).

O livro dos Atos dos Apóstolos ressalta que a experiência de amor da comunidade de fé no Senhor ressuscitado manifesta-se no espírito de comunhão fraterna e na partilha dos bens. A comunidade, alicerçada no amor fraterno e na partilha dos bens, constitui-se em testemunho credível da presença do Ressuscitado entre os seus discípulos, ao longo dos tempos (1ª Leitura).

Pelo banho batismal nos tornamos “filhos de Deus” e irmãos uns dos outros. Por conseqüência, não se pode amar a Deus, sem amar aqueles de quem ele é Pai. O sinal que atesta a caridade fraterna é a observância dos mandamentos de Deus. Quem cumpre a vontade de Deus, o Espírito Santo o levará ao conhecimento de toda a verdade sobre Jesus, o Filho de Deus, crucificado e ressuscitado (2ª Leitura).

3. Atualizando a Palavra

O primeiro encontro de Jesus ressuscitado com seus discípulos é marcado pela saudação feita por Ele: “A paz esteja convosco”. Por duas vezes o Ressuscitado deseja a paz a seus amigos. Em seguida, os envia em missão, soprando sobre eles o Espírito. Buscar e construir a paz é a missão dos seguidores do Ressuscitado, pois o Reino de Deus, anunciado e realizado por Jesus e continuado pelas comunidade animadas pelo Espírito, manifesta-se na paz.

Reino de justiça, paz e alegria como frutos do Espírito Santo. O Apóstolo, amigo de Jesus, ressalta que a paz, para ser autêntica, deve ser trazida pelo Cristo. Uma paz diferente da paz construída pelos tratados políticos. Paz (Shalon) significa integridade da pessoa diante de Deus e dos irmãos. Significa também uma vida plena, feliz e abundante.

Paz é sinal da presença de Deus, porque o nosso Deus é um “Deus da paz” (Rm 15,33). Paz significa muito mais do que ausência de guerra. Significa construir uma convivência humana harmoniosa, em que as pessoas possam ser elas mesmas, tendo o necessário para viver, convivendo felizes.

A comunidade, que abre suas portas, acolhe o Senhor e o segue é enviada pelo Espírito do Ressuscitado a testemunhar o amor do Pai, isto é, a prolongar, no curso dos tempos, a oferta da vida que, em Jesus, Deus fez à humanidade. O reino da vida que Cristo veio trazer é incompatível com as situações desumanas em que vivem mergulhados milhões de seres humanos. “Como discípulos e missionários, somos chamados a intensificar nossa resposta de fé e a anunciar que Cristo redimiu todos os pecados e males da humanidade” (DAp, n.134)

Tomé não estava presente e não aceitou o testemunho do encontro com o Ressuscitado. Para crer, exigiu provas. Ele não desejava ver milagres, algo espetacular. Ele não acreditava num Jesus glorioso, vencedor da cruz. O discípulo personifica a dificuldade de muitos em acreditar na ressurreição. Oito dias depois, eis o Ressuscitado saudando a comunidade reunida e com ela, o discípulo Tomé. Jesus sem repreender, aceita a provocação do discípulo e o convida a tocar nos sinais de sua paixão. Isto é, Jesus confirma a convicção de Tomé, que era também a convicção de fé da comunidade, a saber: “o ressuscitado glorioso é o crucificado torturado”.

A exclamação “meu Senhor e meu Deus!” reflete a atitude ideal da fé. De incrédulo, Tomé se transforma em exemplo de quem deseja viver a fé em profundidade. Fé que liberta e introduz na comunhão.

O cristão isolado (ausente da comunidade) é vitima do egoísmo e exige provas para crer. É na vida da comunidade que encontramos as provas de Jesus que está vivo. Ser cristão, hoje, requer e significa pertencer a uma comunidade concreta, na qual se pode viver uma experiência permanente de discipulado e de comunhão.

Por esta razão, a marca registrada deste segundo domingo de Páscoa é a fé, vivida em comunidade. É em comunidade que se realiza o encontro com o Ressuscitado e a experiência de uma nova vida.

A comunidade eclesial é, portanto, o lugar primordial onde, na fé, se acolhe e se reconhece a presença e a atuação do Ressuscitado, onde se manifesta e se irradia seu amor. A figura de Tomé personifica aqueles que não valorizam o testemunho comunitário e são insensíveis aos sinais da presença do novo.

Pensam apenas em si mesmos e exigem demonstrações particulares. O Ressuscitado, por sua vez, nos assegura: “Felizes serão os que acreditarem sem ter visto”. Felizes são aqueles que aderem à pessoa de Jesus e, no cotidiano da vida, se empenham na esperança de um novo modo de viver.

A Igreja, como comunidade unida em um só coração, vivendo o amor, a partilha e a fidelidade à Palavra de Deus, é testemunha credível da ressurreição de Jesus, o Filho de Deus.

4. Ligando a Palavra com ação litúrgica

“Era o primeiro dia da semana”. O domingo é o dia da reunião da comunidade. Neste dia, o cristão reencontra a forma eucarística própria da sua existência, segundo a qual é chamado a viver constantemente: viver segundo o domingo, significa viver conscientemente a libertação e a realizá-la como oferta de si mesmo, para que a sua vitoria se manifeste plenamente a todos, através de uma conduta intimamente renovada (cf. Sacramentum Caritatis, nº72).

A comunidade de fé edifica-se pela participação daqueles que crêem na presença e aderem ao novo inaugurado pelo Ressuscitado. A ação litúrgica é o lugar privilegiado do encontro dos discípulos com Jesus Cristo. O Ressuscitado nos atrai para si e nos faz entrar no dinamismo das relações com Deus e com o próximo (cf. DAp, n. 250). É ele que, pelo Espírito, nos reúne e, como outrora à comunidade dos discípulos, nos deseja: “A paz esteja sempre convosco”. Reanima nossa fé e nos confirma na missão.

Assim como a comunidade dos discípulos ouviu o Senhor ressuscitado, na Liturgia da Palavra, pela proclamação das leituras bíblicas, é Jesus quem nos fala novamente. Como Tomé, somos convidados a manifestar nossa fé, rezando o Credo.

A comunidade assídua na escuta da Palavra e na Oração, consciente das maravilhas realizadas pelo Pai, em especial a Ressurreição de seu Filho, eleva hinos de ação de graças, pois “o Senhor, é bom, eterna é a sua misericórdia”!

A Eucaristia é o sacramento da paz. Ela atualiza a graça que o Senhor ressuscitado exprimiu com as palavras “a paz esteja convosco”. A Eucaristia oferece aos fieis a graça para viverem o espírito das bem-aventuranças e, de modo especial, a proclamação de Jesus Cristo: “Felizes os que promovem a paz” (Mt 5,9). Com o sacrifício da cruz, Jesus vence o pecado, a morte e toda espécie de divisão e ódio. Ressuscitado, concede a sua paz aos que promovem relações reconciliadas e reconciliadoras.

Hoje, Jesus ressuscitado se faz presente entre nós, quando nos reunimos para a oração; para a celebração da comunhão e da unidade cristã; para a partilha de vida; para gestos e ações de solidariedade com os menos favorecidos e em busca de soluções em favor de saúde e vida dignas.

Como Tomé e sua comunidade reunida num só coração, testemunhemos nossa fé na ressurreição do Senhor, pela unidade, vivendo o amor, a partilha e a fidelidade à Palavra de Deus.

Enviado por D. Vilson Dias de Oliveira, DC – Bispo da Diocese de Limeira