Papa Francisco: Igreja em saída de onde para onde?

Artigo de Leonardo Boff

Celebrando ainda a extraordinária encíclica sobre “o cuidado da Casa Comum”, voltamos a refletir uma perspectiva importante do Papa Francisco, um verdadeiro logotipo de sua compreensão de Igreja: “uma Igreja em saída”. 

Essa formulação encerra uma velada crítica ao modelo anterior de Igreja que era uma Igreja “sem saída” devido aos diversos escândalos de ordem moral e financeira, o que forçou o Papa Bento XVI a renunciar, uma Igreja que perdeu seu melhor capital: a moralidade e a credibilidade dos cristãos e do mundo secular. Continue lendo

A paz perene com a natureza e a Mãe Terra

Leonardo Boff

Um dos legados mais fecundos de Francisco de Assis e atualizado por Francisco de Roma é a pregação da paz, tão urgente nos dias atuais. A primeira saudação que São Francisco dirigia aos que encontrava era desejar “Paz e Bem” que corresponde ao Shalom bíblico. A paz que ansiava não se restringia às relações inter-pessoais e sociais. Buscava uma paz perene com todos os elementos da natureza, tratando-os com o doce nome de irmãos e irmãs.

Especialmente a “irmã e Mãe Terra”, como dizia, deveria ser abraçada pelo amplexo da paz. Seu primeiro biógrafo Tomás de Celano resume maravilhosamente o sentimento fraterno do mundo que o invadia ao testemunhar:”Enchia-se de inefável gozo todas as vezes que olhava o sol, contemplava a lua e dirigia sua vista para as estrelas e o firmamento. Quando se encontrava com as flores, pregava-lhes como se fossem dotadas e inteligência e as convidava a louvar a Deus. Fazia-o com terníssima e comovedora candura: exortava à gratidão os trigais e os vinhedos, as pedras e as selvas, a plantura dos campos e as correntes dos rios, a beleza das hortas, a terra, o fogo, o ar e o vento”. Continue lendo

Papa Francisco e a despaganização do papado

Autor: Leonardo Boff

Já se fazem ouvir vozes dos mais radicais que pedem, para o “bem da Igreja”(a deles obviamente) orações nesse teor:”Senhor, ilumine-o ou elimine-o”. A eliminação de papas incômodos não é raridade na longa história do papado. Houve uma época entre os anos 900 e 1000, chamada de a “idade pornocrática” do papado na qual quase todos os papas foram envenenados ou assassinados.leonardoboff1As inovações nos hábitos e nos discursos do Papa Francisco, abriram aguda crise nos araiais dos conservadores que seguiam estritamente as diretrizes dos dois papas anteriores. Intolerável para eles foi o fato de ter recebido em audiência privada um dos inauguradores da “condenada” Teologia da Libertação, o peruano Gustavo Gutiérrez. Se sentem aturdidos com a sinceridade do Papa ao reconhecer erros na Igreja e em si mesmo, ao denunciar o carreirismo de muitos prelados, chamando até de “lepra” ao espírito cortesão e adulador de muitos em poder, os assim chamados  “vaticanocêntricos”. O que realmente os escandaliza é  a inversão que fez ao colocar em primeiro lugar, o amor, a misericórida, a ternura, o diálogo com a modernidade e a tolerância para com as pessoas mesmo divorciadas, homoafetivas e  não-crentes e só a seguir as  doutrinas e disciplinas eclesiásticas. Continue lendo

Frei Gilberto Gorgulho OP (1933-2012)

autor: Domingos Zamagna

Faleceu em São Paulo, às 6,20 hs de quarta-feira, festa do Proto-mártir Santo Estevão, o exegeta Frei Gilberto da Silva Gorgulho.

Durante seis décadas Frei Gorgulho, da Ordem dos Frades Pregadores, foi um incansável Pregador da Palavra de Deus.

Natural de Cristina-MG, de família muitíssimo cristã, que deu à Igreja também duas religiosas da Congregação da Providência de Gap, desde que se decidiu pela vida sacerdotal, cursou seminários clássicos e deles herdou o que eles tinham de muito bom: espírito de pobreza e serviço evangélicos, disciplina intelectual, fé sólida vivenciada na oração, espiritualidade, cultura, erudição.

Entrando na Ordem dos Dominicanos, os superiores acolheram seu desejo de especializar-se em Sagradas Escrituras, enviando-o para estudos avançados na França, em Saint-Maximin (Provence) e Toulouse (Haute Garonne). Em seguida passou pela Universidade Santo Tomás de Aquino (Angelicum) de Roma para a obtenção dos graus acadêmicos em Sagrada Escritura na Comissão Bíblica da Santa Sé. Especializou-se em seguida na École Biblique et d’Archéologie Française de Jerusalém (fundada pelo Pe. Marie-Joseph Lagrange OP e até hoje mantida pelos Dominicanos), filiada à École Pratique des Hautes Études, da Sorbonne-Paris. Durante os três anos que viveu no Oriente, residiu no Convento de Santo Estevão, santo que o acolheu, liturgicamente, no dia de seu falecimento.

Retornando ao Brasil, a partir da década de 60, Fr. Gorgulho se dedicou intensamente ao magistério, principalmente na Escola Dominicana de Teologia, na Faculdade de Teologia Nossa Senhora da Assunção e no Instituto Teológico Pio XI, em São Paulo, mas sempre dando cursos regulares em Petrópolis (RJ), Viamão (RS) e cursos e palestras em vários estados brasileiros e no exterior. Foi colaborador assíduo da CRB e da CNBB e sempre muito engajado nos trabalhos ecumênicos.

Durante décadas, Fr. Gorgulho orientou centenas de dissertações e teses em estudos bíblicos, formando pelo menos duas gerações de biblistas brasileiros e latino-americanos.

Fr. Gorgulho participou ativamente da preparação e difusão do Concílio do Vaticano II. Recordo-me de vários arcebispos e bispos que passavam horas em seu escritório no Convento de Santo Alberto Magno estudando com ele os documentos preparatórios do Concílio, dentre eles o então arcebispo de Ribeirão Preto, D. Agnelo Rossi, que mais tarde se tornou cardeal-arcebispo de São Paulo e lhe abriu as portas da arquidiocese para um trabalho qualificado de evangelização. A partir de 1971, quando D. Paulo Evaristo Arns OFM substituiu D. Agnelo, entre o novo arcebispo e o frade desenvolveu-se intensa colaboração pastoral, especialmente na evangelização das periferias, para a qual Fr. Gorgulho não mediu esforços, colocando a serviço dos pobres seus conhecidos dons intelectuais, sua ousadia pastoral, seu discernimento teológico e sua liberdade de fiel Pregador da Palavra de Deus.

Teve colaboradores e bons companheiros, porque sempre soube trabalhar em equipe e fiel às amizades: D. Luciano Mendes de Almeida SJ, D. Cândido Padin OSB, D. Tomás Balduíno OP, D. Valdir Calheiros, Frei Carlos Josaphat OP, Pe. José Comblin (hoje no ostracismo em certas dioceses), Frei Carlos Mesters, O. Carm., Pastor Milton Schwantes, Profa. Ana Flora Anderson, Pe. Ticão, Mons. Lancelotti, Prof. Alfredo Bosi, o jornalista Evaldo Dantas e uma plêiade de leigos e leigas que se beneficiavam de seus ensinamentos.

Durante vários anos Fr. Gorgulho dirigiu os trabalhos de tradução da Bíblia de Jerusalém, editada pela Paulus, editora pela qual lançou uma dúzia de títulos. Colaborador de várias revistas, teve também uma coluna no jornal “O São Paulo”. Na década de 70 era um prazer ouvir seus comentários na TV Record, rápidos e profundos, num quadro chamado “Esta cidade tem alma”.

Intelectual finíssimo, e todavia sempre um homem de hábitos simples, modos de homem do povo do sul de Minas.

Como infelizmente sói acontecer, toda vez que alguém se dedica de corpo e alma, fielmente, à evangelização, aparecem alguns que o acusam de heterodoxia etc. Às vezes isso até pode ser verdade, mas é difícil conhecer alguém mais evangelicamente ortodoxo do que Fr. Gorgulho! No entanto, isso é um leit-motiv na História da Igreja: aconteceu com Santo Tomás de Aquino, com Pe. Lagrange, Pe. Lyonnet… Essas indignidades fizeram com que Fr. Gorgulho precisasse abandonar a cátedra na Faculdade de Teologia Nossa Senhora da Assunção, em São Paulo, sem solidariedade dos professores, num momento em que esta instituição rompia com a Teologia da Libertação.

Foi acolhido durante alguns anos no Programa de Estudos Pós-Graduados em Ciências da Religião, da PUC-SP, orientando dezenas de trabalhos e publicando muitos artigos, até que a idade avançada começou a limitar seus empreendimentos. Poucos sabem, mas a demissão da PUC-SP, numa vala-comum típica do capitalismo que justamente as instituições católicas gostam de criticar, juntamente com centenas de outros professores, causou-lhe profundo desgosto, sobretudo quando soube que o motivo alegado, mas que o burocrata de plantão não teve coragem de lhe dizer, foi que “o seu tempo tinha passado”.

Ora, Fr. Gorgulho jamais pregou a si próprio: deu o melhor de seu tempo, de sua vida, para pregar a pessoa e a missão de Jesus, e Jesus Crucificado (cf 1Cor. 1,23). É lamentável, é obsceno achar que tal tempo passou!

Mas, sob outro ponto de vista, de fato, agora são outros tempos, conduzidos por outros agentes, outras lideranças. Devemos ser humildes, o tempo passa para todos. Que isto seja dito para contemplarmos a suprema verdade: somente o Reino é eterno! “A erva seca e a flor fenece, somente a Palavra do Senhor permanece eternamente” (Is 40,8).

Esperemos que sejam tempos melhores para a Igreja, isto é, de mais liberdade e ousadia (parressia), mais lucidez, mais justiça e menos autoritarismo, mais solidariedade, mais caridade, mais paz, mais alegria. Foi para isso que Fr. Gorgulho, qual semeador, como varão evangélico, passou a vida, pobremente, sem os aparatos do poder, pregando a Palavra de Deus.

Autor: Professor Dr. Domingos Zamagna 

Jornalista e professor de Filosofia em São Paulo

Fonte: ADITAL - http://www.adital.com.br/site/noticia.asp?lang=PT&langref=PT&cod=73028

Frei Gorgulho: ler a Bíblia com o coração comprometido com os pobres

Jung Mo Sung

Faleceu hoje, 26/12/2012, às 06h20minhs da manhã, em São Paulo, o frei Gilberto Gorgulho (dominicano). É provável que muitos dos leitores não o conheçam ou nunca tenham ouvido falar no seu nome. Ele nunca foi uma “estrela” no campo da teologia, nem escreveu grandes livros ou esteve envolvido em alguma polêmica que tenha ido parar nos meios de comunicação. Mas, ele foi alguém que marcou gerações de cristãos que se comprometeram com a causa da justiça social e a defesa da vida dos pobres nas décadas de 1980 a 2000.

Acima de tudo, ele foi um professor de Bíblia que ensinou gerações de estudantes de teologia, agentes de pastoral, lideranças populares, sem falar nas irmãs e padres que fizeram cursos de aprofundamento na leitura “popular” da Bíblia. A sua prioridade na formação de agentes de pastoral e lideranças populares das comunidades eclesiais aparece na forma de publicação que ele – e sua parceira de muitos anos no ensino bíblico, Ana Flora – mais se dedicou: cadernos populares de guia para leitura de textos bíblicos. É claro que ele também publicou livros na forma clássica, mas as suas intuições e textos mais vibrantes se encontram ou eram publicados em primeiro lugar nesses cadernos.

Além de biblista, ele era um intelectual erudito capaz de lidar com filósofos, teólogos ou com grandes questões do mundo científico ou político. Tenho orgulho de dizer que fui seu aluno por 6 anos (4 na graduação e 2 no mestrado em teologia) e que ele foi um dos professores que mais marcou a minha formação. Lembro-me de um curso especial que lhe pedimos: São Tomás de Aquino e Teologia da Libertação. Foi marcante! Durante um semestre, ele nos explicou os 10 artigos da primeira questão da Suma Teológica de S. Tomás mostrando o que estava em jogo ou em discussão por detrás de cada afirmação. Mais do que isso, ele nos fez ler textos da teologia da libertação e da tradição marxista para aprofundar no final do século XX as questões estudadas por Tomás no seu tempo. Ele nos introduziu no caminho denso, longo e difícil de reflexão teológica séria, interdisciplinar e, acima de tudo, comprometida com as questões reais e fundamentais do nosso tempo.

Foi em curso sobre profetas e a reforma deuteronomista, que tive com ele, que escrevi meu primeiro texto acadêmico na direção que tenho seguido desde então: reflexão teológica sobre economia. Estimulado por suas aulas e por suas provocações, escrevi um trabalho semestral sobre a reforma deuteronomista e o modo de produção tributário. Como texto de exegese, é claro, deixa muito a desejar, mas foi o meu primeiro passo nesse caminho que tenho percorrido há mais de 20 anos.

A influência de um professor não se mede somente por aulas que ele dá, mas pelas “janelas” que abre aos seus alunos. No segundo ano de teologia, ele me disse: “Jung, você precisa ler o livro ‘As ideológicas da morte’, de Franz Hinkelammert!”. Li e isso fez a grande diferença na minha vida intelectual. No mestrado, ele me indicou outro autor que eu não poderia não estudar: René Girard. Esses dois autores fazem parte do meu modo de pensar e refletir o mundo e a teologia. E isso eu devo ao frei Gorgulho.

Frei Gorgulho, ou simplesmente “frei” como eu costumava me dirigir a ele, fez muitos dos seus alunos e alunos a ver como a questão da “justiça e direito em favor dos pobres, órfãos, viúvas e estrangeiros” é o tema central da Bíblia, que perpassa todos os seus livros da Bíblia; e que, como nos ensina profeta Jeremias, fazer essa justiça é conhecer a Deus.

Que Deus o receba nos seus braços e nos envie mais pessoas como ele que articule seriamente a reflexão teórica com a “meditação” bíblica no serviço à vida das comunidades e das pessoas mais pobres e vulneráveis do nosso mundo.

Autor: Jung Mo Sung - Diretor da Faculdade de Humanidades e Direito da Univ. Metodista de S. Paulo, autor com Hugo Assmann, de “Deus em nós: o reinado que acontece no amor solidário aos pobres”. Twitter: @jungmosung)

Fonte: ADITAL - http://www.adital.com.br/site/noticia.asp?lang=PT&cod=73020

NOTA DA AUTORA DO BLOG DA CATEQUESE: Faço minhas as palavras do Professor Dr. Jung Mo Sung, do qual fui aluna na Pós-Graduação.

Frei Gorgulho foi meu professor de Bíblia, Antigo Testamento, durante meu curso de graduação em Teologia, na EDT – Escola Dominicana de Teologia. Conhecer Frei Gorgulho e olhar para a Bíblia através dos seus ensinamentos abriram para mim uma nova perspectiva de vida cristã à luz da Palavra de Deus.

Com o retorno do nosso querido Frei Gorgulho à Casa do Pai, ficamos órfãos da sabedoria daquele que soube servir a Deus não apenas anunciando a sua Palavra, mas desvendando em parte os seus mistérios escondidos por trás das palavras humanas que a ela deram forma.

Saudades é a única palavra que encontro para falar do sentimento que vai no coração de todos os seus alunos que beberam e se embebedaram na fonte de sabedoria de Frei Gorgulho, iluminado pela luz daquele que o chamou para fazer dele um instrumento de sua Paz. Os céus estão em festa pela volta desse filho que soube honrar o nome de Deus e ser um servidor fiel de Jesus na terra.

FESTA DE CRISTO, REI DO UNIVERSO

Marcel Domergue

por Instituto Humanitas Unisinos (IHU)

O poder do Cristo se exerce suprimindo do universo a própria raiz da violência. É preciso, aqui, entender a violência, em sentido bastante amplo, como a tentativa de fazer substituir por nossa vontade a liberdade dos outros. Mas como será possível reinar sem se impor?

1. O poder.

A expressão “Cristo Rei” é, na verdade, um pleonasmo. Mas significa que o Cristo de Israel assume um poder universal sobre a humanidade e sobre a natureza à qual a humanidade está vinculada. Não há nada de mais inquietante do que a possibilidade humana de uns pesarem sobre a liberdade dos outros; de uns dirigirem os outros. Com que direito? A que título? A humanidade, desde sempre, tem inventado sistemas para designar quais devam ser os detentores da autoridade: se por herança, por eleição… Pois parece ser indispensável haver uma autoridade, para poder se conter os riscos da violência nascidos da selvagem competição. Cada um de nós aspira, de fato, a deter algum poder, porque, além de outras vantagens, isto nos dá segurança com respeito à nossa importância, ao nosso valor, e nos põe no centro das atenções. Existe, sim, uma busca pelo poder. Como dizia um político: “uma vez experimentado o poder, não se pode mais passar sem ele”. O poder é uma droga que faz o homem esquecer a sua fragilidade. A busca pelo poder vicia, porque o que justifica o poder é, antes de tudo, “a desigualdade”; ou seja, a superioridade. E uma superioridade que deve ser real: a de quem sabe mais, é mais inteligente, tem maior espírito de decisão… Coisas todas que podem justificar o exercício um poder sobre os outros, ao menos provisoriamente, e, melhor, sendo aceito este poder. Todos nós exercemos poderes, em virtude de nossas competências ou responsabilidades: poderes que exercemos dentro dos nossos domínios e à medida de nossa condição (em casa, na família, na profissão, etc.). Qual seria então o poder do Cristo?

2. Qual poder?

Jesus disse a Pilatos que a sua realeza não é deste mundo. Significa que não lhe foi conferida pelos homens. Não a recebeu nem de sua nação nem dos chefes dos sacerdotes. Significa também que não a exerce como os outros soberanos normais. Ele não tem guardas nem exércitos e não faz “sentir o seu poder”. A sua realeza não é, enfim, da mesma natureza que as outras: não visa a conter nem reprimir a violência possível nas relações humanas, projeto este que supõe o exercício de uma violência superior, o exercício da sujeição. O poder do Cristo se exerce suprimindo do universo a própria raiz da violência. É preciso, aqui, entender a violência, em sentido bastante amplo, como a tentativa de fazer substituir por nossa vontade a liberdade dos outros. Mas como será possível reinar sem se impor? É o que Jesus responde a Pilatos: “Vim para dar testemunho da verdade“. E o que é a verdade? Num certo sentido, é o próprio Deus, mas podemos tentar ser mais precisos: para o homem, a verdade é o que o faz existir realmente, o que o põe em direção à sua criação. A mentira, pelo contrário, é o que o engana, levando-o a uma via sem saída e a enredar-se em impasses. Existe, pois, uma conivência entre o homem e o testemunho do Cristo: a verdade se impõe (poder) porque ela é a própria vida do homem. Como diz Paulo (2Cor 13,8): “Não temos poder algum (…) exceto pela verdade”.Verdade que ultrapassa quem a anuncia. O que justifica o poder do Cristo é que Ele convoca o homem à sua plena realização.

3. Qual tomada do poder?

Cristo toma o poder – em parte, mas é fundamental – através de uma demonstração: submetendo-se à violência (submissão que é o contrário do poder). Ele mostra publicamente que o poder verdadeiro não é poder-dominação, manifestando assim a vaidade e a perversidade das condutas que visam a dispor-se dos outros. Este aniquilamento do Cristo foi apresentado por João como um “elevar-se”: o Cristo crucificado foi levantado da terra e, naquele momento, os olhares todos se voltam para ele. Ele atrai todos os homens, porque a verdade atrai tudo o que em nós existe de verdadeiro. Por que a palavra “demonstração”? Porque Jesus põe a nu, diante dos nossos olhos, o pecado do homem, a sua mentira, e a verdade do amor. Ele não nos impõe a verdade, pois isto seria voltar às atitudes de violência que são o contrário da verdade; sem sentido, portanto. Ele nos mostra a verdade: “Todo aquele que é da verdade escuta a minha voz” (Jo 18,37) e se torna seu discípulo. Esta é a Realeza do Cristo, não semelhante a nenhuma outra, uma vez que se apresenta sob a figura do contrário da realeza. O senhor é aquele que se faz o servidor e só pode ser senhor quem se faz servidor.

 Fonte: CEBI – Centro de Estudos Bíblicos – www.cebi.org.br

Somos todos irmãos!

É triste pensarmos que é necessário se destacar um dia no calendário para que seja dedicado a uma causa que lute pela igualdade racial, principalmente em um país onde a maioria é cristã. Isso mostra o quanto há de pessoas que apenas usam o rótulo de “cristão”, seja por tradição familiar, seja por conveniência social ou pessoal.

Ser cristão é ser discípulo de Jesus Cristo, o que significa acreditar nos seus ensinamentos e colocá-los em prática. Ora, olhando para Jesus e para a sua pedagogia, percebemos claramente que Ele não faz qualquer acepção de pessoas e trata como iguais todos aqueles que dele se aproximam, sejam eles cobradores de impostos e prostitutas (considerados pecadores), doentes e leprosos (vistos como párias da sociedade), estrangeiros e pessoas de outras raças (que não faziam parte da casta do povo judaico que era o escolhido), mulheres e crianças (considerados incapazes de compreensão).

Assim, aqueles que se dizem cristãos não podem fazer qualquer descriminação de pessoa, seja por qualquer motivo, ao contrário, deve sempre promover a igualdade de direitos e de oportunidades em suas comunidades.

Porém não é isso que se vê. O que podemos perceber é a luta silenciosa de grupos que desejam sobrepor-se a outros, menos favorecidos e que na luta pelo poder usam armas invisíveis aos olhos, mas que degradam a pessoa.

As estatísticas mostram a injustiça no pagamento de salários, com diferenças significantes entre pessoas que exercem o mesmo cargo ou função, definida pela raça (brancos x negros) ou pelo sexo (homens x mulheres); Mostram a diferença de oportunidades na área educacional, ocasionada pela péssima qualidade do ensino público gratuito; mostram a marginalização que os menos favorecidos sofrem pela falta de moradia digna, sendo obrigados a viverem em condições degradantes (nas ruas e nas favelas) sujeitos à discriminação.

Essa não é a imagem do Reino de Deus que Jesus veio anunciar, mas é a condição de inferno social que gera violência devida às estruturas diabólicas (que dividem).

O Reino de Deus que Jesus veio anunciar é oposto a esse, e todo cristão tem a obrigação de lutar por ele, mas principalmente tem o dever de vivê-lo no cotidiano, em todas as esferas sociais. E se todo cristão tiver a convicção dessa verdade, não haverá a necessidade de “lutas paralelas” de grupos minoritários, não haverá a necessidade de “cotas” para os menos favorecidos, não haverá a necessidades de “bolsas” para acabar com a pobreza e a fome.

A vida plena que Jesus anuncia e que é a vontade de Deus para todos é a vida digna de quem trabalha e ganha pelo trabalho que faz e não pela sua condição social; é a vida de quem pode estudar nas melhores escolas públicas por mérito pessoal e não pela sua raça; é que todos possam ter moradias dignas, com estruturas de serviços adequadas.

Cristão que honra os ensinamentos de Jesus luta por vida digna para todos, não por benefícios paliativos que apenas subjugam as pessoas, dando-lhes a falsa esperança de que estão melhorando de vida, quando na verdade estão apenas sendo usados, tornando-se alienados dos seus verdadeiros direitos. Luta para que todos tenham voz e vez reais, em igualdade de condições, isto é, que tenham o poder de escolha livre, com discernimento e sabedoria.

No dia em que todos os cristãos, independente da sua denominação religiosa, viverem como verdadeiros discípulos de Jesus, não haverá mais a necessidade de “dias especiais”, de “cotas” ou de “bolsas” e o Reino de Deus será uma realidade em expansão.