Litúrgicos

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Posted by: | Posted on: maio 31, 2018

A Devoção ao Sagrado Coração de Jesus

U Carlo Maria Martini

Lembro-me muito bem do tempo em que saiu a encíclica Haurietis aquas in gaudio. Eu era então estudante de Sagrada Escritura e membro da comunidade do Pontifício Instituto Bíblico, onde era professor o ilustre biblista padre Agostino Bea, depois criado cardeal pelo papa João XXIII. Padre Bea era um estreito colaborador do papa Pio XII, e na comunidade se dizia, penso que com boas razões, que ele havia contribuído para preparar esse documento. Certamente impressionava a orientação bíblica de todo o texto, a partir do título, que é uma citação do livro de Isaías (12,3). Por isso, a encíclica (que trazia a data de 15 de maio de 1956) foi lida com muita atenção pela comunidade do Instituto Bíblico, que apreciava em particular o seu embasamento nos textos da Escritura. No passado, essa devoção, que de per si tem uma longa história na Igreja, se desenvolveu entre o povo a partir sobretudo das chamadas “revelações” de tipo particular, como a revelação a Santa Margarida Maria, no século XVII. A percepção de como nessa devoção tradicional estava sintetizada concretamente a mensagem bíblica do amor de Deus era algo que nos reaproximava dela, uma devoção que no passado recente havia sido muito cara sobretudo à Companhia de Jesus, em particular em sua luta contra o rigorismo jansenista. Read More …

Posted by: | Posted on: maio 30, 2018

O sentido do banquete, jantar ou ceia fraterna.

Frei Alberto Beckhaüser

A ceia ou banquete é o sinal mais imediato, mais fácil de se perceber. A Eucaristia celebra-se em forma de ceia, como o fez Cristo antes de ser entregue. Esta forma ele a transmitiu à Igreja para que repetisse em memória de sua morte e ressurreição. A Constituição Litúrgica do Concílio Vaticano II diz: “A Eucaristia é o memorial de sua Morte e Ressurreição, sacramento de piedade, sinal de unidade, vínculo de caridade, banquete pascal, em que Cristo nos é comunicado em alimento, o espírito é repleto de graça e nos é comunicado o penhor da futura glória” (SC, nº 47).

Vários são os elementos que lembram esta ceia. Temos o altar, a mesa do Sacrifício cristão, em torno da qual se congrega a assembleia dos fiéis. Os elementos mais significativos são, sem dúvida, o pão e o vinho – comida e bebida – apresentados em bandejas e cálices. Durante a Oração Eucarística repetem-se os gestos de Cristo na última Ceia. O sacerdote toma o pão e depois o cálice. Cristo declara que seu Corpo e Sangue seriam verdadeira comida e bebida (Cf. Jo 6) e São Paulo, interpretando o significado do Banquete Eucarístico, distinguindo-o de uma ceia comum, afirma: “Pois todas as vezes que comerdes este pão e beberdes deste cálice, anunciareis a morte do Senhor até que Ele venha” (1 Cor 11,26). Pelo fim das Orações Eucarísticas rezamos: “… para que, ao participarmos deste altar, recebendo o corpo e sangue de vosso Filho…” (I Or. Euc.). “E nós vos suplicamos, que, participando do corpo e sangue de Cristo, sejamos reunidos pelo Espírito Santo, num só corpo…” (II Or. Euc.). “…Alimentando-nos com o corpo e o sangue de vosso Filho …” (III Or. Euc.). “… e concedei aos que vamos participar do mesmo pão e do mesmo cálice… » (IV Or. Euc.). Read More …

Posted by: | Posted on: maio 30, 2018

Meu corpo, minha vida para o mundo

Frei Almir Guimarães, OFM

>> Houve a ceia de despedida. Os discípulos de Jesus de todos os tempos nunca se extasiam o suficiente diante dos gestos do Mestre naquela refeição de despedida. Uma sala preparada com esmero. Os apóstolos que chegavam de vários cantos. O Mestre com um manto de festa. Uns conversam com os outros. Há certa apreensão no ar. Antes de sentarem-se à mesa, o gesto do lava-pés. Aquele que os céus não podem conter dobra-se sobre as criaturas para lavar-lhes os pés. Os seus escutam que serão felizes na medida em que fizerem o mesmo.

>> Uma mesa… quantas mesas em nossa vida. A mesa da casa da infância, a mesa no refeitório do local de trabalho, a mesa de festa, mesa da casa pobre, a mesa dos presidiários, a mesa para os que têm fome. Jesus esteve sentado junto a muitas mesas: na casa de seus amigos Marta, Maria e Lázaro, numa festa de casamento em Caná da Galileia, com Mateus e Zaqueu, com pecadores e prostitutas. Nossas refeições têm qualquer coisa de sagrado. Read More …

Posted by: | Posted on: maio 29, 2018

Adoração Eucarística: uma reflexão teológico-espiritual

Frei José Ariovaldo da Silva, OFM

Adorar o Santíssimo Sacramento: o que é isso? E por que dizemos que adoramos a Hóstia? Um primeiro esclarecimento nesse sentido seria bom. Então vamos lá! Estamos diante de palavras importantes como “adorar”, “Santíssimo Sacramento”, e “Hóstia”.

Adorar

A palavra “adorar” é uma palavra que vem do latim “adorare”. Adorare, por sua vez, é uma palavra que se formou pela junção da partícula “ad” (que expressa movimento: “em direção a”) com o verbo “orare” (que vem de “os/oris”, significando “a boca” ou também “o rosto”, “a face”). Assim sendo, “adorare” significa no fundo o movimento de aproximar a boca, ou o rosto, ou a face, e até mesmo o coração e todo o ser; buscar colar-se ao objeto de imensa estimação. O beijo poderia representar tal movimento. Mas, na palavra “adorare” temos, sobretudo, o movimento de buscar se identificar, formar um só corpo, uma só carne, com o objeto ou pessoa amada e tudo o que ela significa. É o que a palavra “adorar”, na sua origem, parece evocar. E adorar a Deus? É ter tanta admiração por Ele e seu projeto de vida para todos, que o meu (ou nosso) desejo é estar n’Ele e Ele em mim (ou em nós), formando com Ele um só corpo e, de fato, me lanço na realização deste desejo, que é também desejo de Deus, em primeiro lugar. Eu o adoro porque, em primeiro lugar, ele me “adora”. Read More …

Posted by: | Posted on: maio 29, 2018

O sentido da adoração na Liturgia renovada pelo Concílio Vaticano II

Padre Gerson Schmidt

“Queremos aprofundar o verdadeiro sentido da Presença real de Cristo eucarístico – não simplesmente como adoração penitente, mas presença alegre e festiva, memorial do banquete sagrado.

A Constituição Sacrosanctum Concilium, no número 07, fala das diversas formas de Cristo estar presente na Eucaristia que aqui já explicitamos. Diz assim: “Para realizar tão grande obra, Cristo está sempre presente em sua Igreja, e especialmente nas ações litúrgicas. Está presente no sacrifício da missa, tanto na pessoa do ministro, pois aquele que agora se oferece pelo ministério sacerdotal é o “mesmo que, outrora, se ofereceu na cruz”, como sobretudo nas espécies eucarísticas” (SC, 07). Cristo está presente, portanto, nas espécies eucarísticas também para ser adorado, mas não só.

A presença real de Cristo no Sacramento Eucarístico é para ser celebrado como presença viva, transformadora – não simplesmente como uma presença de adoração anestesiante, estática, mirabolante ou manipulável. Deus está presente na hóstia consagrada, não há dúvida disso. A Igreja definiu que Cristo no sacramento da Eucaristia está real, verdadeira e substancialmente nas hóstias e vinhos consagrados.

Para tanto, recordamos aqui a Carta Encíclica MYSTERIUM FIDEI, DE SUA SANTIDADE PAPA PAULO VI, datada em 3 de Setembro de 1965, na conclusão do Concilio, que destaca essa presença real nesses termos:

  1. Esta presença chama-se “real”, não por exclusão como se as outras não fossem “reais”, mas por antonomásia porque é substancial, quer dizer, por ela está presente, de fato, Cristo completo, Deus e homem. Erro seria, portanto, explicar esta maneira de presença imaginando uma natureza “pneumática”, como lhe chamam, do corpo de Cristo, natureza esta que estaria presente em toda a parte; ou reduzindo a presença a puro simbolismo, como se tão augusto Sacramento consistisse apenas num sinal eficaz “da presença espiritual de Cristo e da sua íntima união com os féis, membros do Corpo Místico”.

Isso já dizia Paulo VI, no auge do Concílio. Mas, por vezes, entendemos muito mal esse sentido da presença concreta e palpável de Cristo na Sagrada Missa. Cristo está presente na celebração litúrgica não com a finalidade única de ser adorado. Também deve ser adorado. Mas sobretudo está presente de maneira real para celebrar a Páscoa conosco, para estar com a Igreja, para ser consumido como pão para a Vida Eterna, remédio para os pecadores.

O culto e adoração silenciosa às espécies eucarísticas cabem mais fora do banquete, no sacrário, do que dentro da missa em tom demasiadamente penitencial. Jesus Cristo está presente em função do Mistério Pascal e não para ser adorado pura e simplesmente. O pão e o vinho, uma vez consagrados em Corpo e Sangue do Senhor, estão feitos para serem comidos e bebidos e somente secundariamente para serem expostos em adoração.

A Eucaristia é fundamentalmente um banquete para conduzir todos à Pascoa, que é dinâmica, viva e celebrativa. Nós transformamos muitas vezes a Eucaristia em algo estático e manipulável à nossa devoção particular. Devido à controvérsia protestante, surgiram muitas devoções exageradas, antes do Concilio, ao “divino prisioneiro do sacrário”, reduzindo-se a missa ao fato de adorar e comungar e ter um encontro intimista com Jesus na hóstia consagrada, desvinculado do verdadeiro memorial da Páscoa do Senhor.

Foi por isso, que a partir do Concilio Vaticano II, se recomendou e se direcionou que o sacrário fosse colocado num ambiente lateral para priorizar o altar como foco principal da Santa Missa. No momento da Sagrada Eucaristia, o ponto central não é o sacrário, nem a adoração, mas o sacrifício eucarístico no altar, como banquete pascal repartido e oferecido para todos que celebram.”

[Pe. Gerson Schmidit é jornalista e sacerdote encardinado na Arquidiocese de Porto Alegre]

FONTE: Vaticans News

Posted by: | Posted on: março 2, 2018

Segunda Pregação de Quaresma 2018

Frei Raniero Cantalamessa, OFM

“QUE VOSSA CARIDADE NÃO SEJA FINGIDA”

O amor cristão

1. Indo às fontes da santidade cristã

Juntamente com a chamada universal à santidade, o Concílio Vaticano II também deu indicações precisas sobre o que se entende por santidade, no que consiste. Na Lumen gentium se lê: 

” Jesus, mestre e modelo divino de toda a perfeição, pregou a santidade de vida, de que Ele é autor e consumador, a todos e a cada um dos seus discípulos, de qualquer condição: «sede perfeitos como vosso Pai celeste é perfeito» (Mt. 5,48) (121). A todos enviou o Espírito Santo, que os move interiormente a amarem a Deus com todo o coração, com toda a alma, com todo o espírito e com todas as forças (cfr. Mc. 12,30) e a amarem-se uns aos outros como Cristo os amou (cfr. Jo. 13,34; 15,12). Os seguidores de Cristo, chamados por Deus e justificados no Senhor Jesus, não por merecimento próprio mas pela vontade e graça de Deus, são feitos, pelo Batismo da fé, verdadeiramente filhos e participantes da natureza divina e, por conseguinte, realmente santos. É necessário, portanto, que, com o auxílio divino, conservem e aperfeiçoem, vivendo-a, esta santidade que receberam.”(LG 40). Read More …

Posted by: | Posted on: fevereiro 23, 2018

I Pregação Quaresma do Frei Raniero Cantalamessa – texto integral

“Não vos conformeis com a mentalidade deste mundo” (Rm 12, 2), foi o tema da I reflexão da Quaresma do Frei Raniero Cantalamessa na Capela Redemptoris Mater a membros da Cúria do Vaticano. O Papa Francisco não participou por estar concluindo os Exercícios Espirituais em Ariccia.

 

Confira o texto na íntegra (A tradução é de Thácio Siqueira):

“Não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos pela renovação do vosso espírito, para que possais discernir qual é a vontade de Deus, o que é bom, o que lhe agrada e o que é perfeito.” (Rom 12, 2).

Numa sociedade em que todos se sentem investidos da tarefa de transformar o mundo e a Igreja, cai esta palavra de Deus que nos convida a transformar-nos a nós mesmos. “Não vos conformeis com este mundo”: depois dessas palavras, esperávamos ouvir: “mas transformai-o!”; em vez disso, se diz: “mas transformai-vos!”. Transformar, sim, o mundo, mas o mundo que está dentro de vós, antes de pensar em transformar o mundo que está fora de vós.

Será esta palavra de Deus, tirada da Carta aos Romanos, que nos introduzirá este ano no espírito da Quaresma. Como fazemos há alguns anos, dedicamos a primeira meditação a uma introdução geral à Quaresma, sem entrar no tema específico do programa, até mesmo por causa da ausência de parte do auditório envolvido nos Exercícios Espirituais. Read More …

Posted by: | Posted on: fevereiro 14, 2018

O sentido das Cinzas que recebemos no início da Quaresma

Ao impor essa cinza sobre nós, o sacerdote, ou ministro, dirá: “convertei-vos e crede no Evangelho”. Esta é a frase de Jesus, que sintetiza o desejo do Pai Celeste de que voltemos a Ele, nos recorda Padre Paulo de Souza, monge beneditino do Mosteiro de São Geraldo de São Paulo. 

Quarta-feira de Cinzas

 Bem vindos, irmãos e irmãs. Bem vindos à Quaresma. Bem vindos a este tempo de graça, de bênção e da Salvação de Deus. Nosso Pai Celeste está com muita saudade de nós. Ele sente falta de seus filhos amados, assim como todo pai e toda mãe anseiam pela volta dos filhos que estavam distantes. Ouçamos o convite que o próprio Deus nos faz, através do Profeta Joel: “voltai para mim com todo o vosso coração”.

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Posted by: | Posted on: fevereiro 13, 2018

TRAVESSIA DA QUARESMA

Frei Almir Guimarães

Como os hebreus que deixaram o Egito, hoje, no tempo da Quaresma, nós, discípulos do Senhor, somos convidados a atravessar outros desertos. As semanas que nos separam na Páscoa constituem oportunidade de renovação da caminhada do Povo eleito.  Assim como o Senhor acompanhou os seus diletos com a Nuvem e a Palavra no êxodo, da mesma forma, hoje, somos guiados nesse tempo favorável, nesse tempo de conversão que é a Quaresma pelas visitas do Senhor.

Cinza e pó

 Nossa caminhada quaresmal começa muito simplesmente. Caminheiros e peregrinos nos dirigimos ao templo no primeiro dia da Quaresma, na Quarta-feira da poeira, das Cinzas, das coisas insignificantes, exatamente quarta-feira do pó, do nada. Nada de vantagens a serem enumeradas. Nada de glórias a serem decantadas. Entramos humildemente diante do Senhor. Curvamos o corpo. Tomamos a decisão de recomeçar o processo de conversão.  Fizemos pouco, quase nada. Há que retomar tudo de maneira nova. Não somos os donos de nosso destino. Alguém que chamamos de Tu, de Mistério, de Abismo está pedindo que acolhamos seu amor, sua presença, seus projetos. Esse Alguém é o Senhor. Apresentamos nosso coração contrito, única fresta e porta que podemos abrir para que o Senhor tome conta de nós. Quarta-feira das coisas insignificantes.  Não adianta rasgar as vestes, como fala Joel.  É preciso rasgar o coração. Brado e apelo de conversão. O amargo precisa tornar-se doce e o doce, amargo. Mateus fala de oração, jejum e esmola. Read More …

Posted by: | Posted on: dezembro 20, 2017

O primeiro Presépio de São Francisco de Assis

Até o fim de sua vida, Francisco foi solícito em desejar acima de tudo o Espírito do Senhor. E o Espírito não cessou de conduzi-lo num caminho de renúncia de si sempre mais profunda. Mas este despojamento íntimo, longe de ser um empobrecimento de sua verdadeira personalidade, abria nele um espaço cada vez maior de acolhimento, uma capacidade crescente de comunhão e de fraternidade. Nada retendo para si, ele tornou-se presente a toda criatura. Sua pobreza era sua riqueza, a chave do Reino. No espírito de doçura, Francisco nascia ao mesmo tempo para Deus, para o mundo e para si mesmo.

Não há melhor maneira de compreender esse itinerário do que invocando aquele acontecimento que iluminou seus últimos anos. Mais que um simples episódio maravilhoso na sua vida, o Natal que ele celebrou, três anos antes de sua morte, entre as pessoas simples da montanha, foi uma experiência mística, um novo nascimento. Seu primeiro biógrafo não se enganou. Naquela noite, diz ele, Francisco se fez “menino com o Menino (2Cel, 35). O Espírito do Senhor renovava nele seu “advento de doçura”, no auge do rude inverno da natureza e dos homens. Read More …