A Festa de Pentecostes - Blog da Catequese

A Festa de Pentecostes

Posted by: | Posted on: maio 17, 2018
Frei Neylor J. Tonin, OFM

1. A festa de Pentecostes, originariamente conhecida como a festa da colheita (cf. Ex 23,16) era, no Antigo Testamento, uma celebração da bondade de Deus que dera a seu povo “uma terra de trigo e cevada, vinhos, figueiras e romãzeiras, uma terra de óleo de olivas e de mel” (cf. Dt 8,8). Como resposta de ação de graças, os israelitas ofereciam-Lhe, entre cantos de alegria, as primícias de suas colheitas.

No Novo Testamento, a festa de Pentecostes também canta as maravilhas e a abundância de Deus, já não nas sementeiras das searas, mas na messe íntima dos corações. Os Apóstolos “estavam reunidos num mesmo lugar” (At 2,1), quando “de repente veio do céu um ruído”(v. 2) e eles “ficaram cheios do Espírito Santo”(v. 4). O fiel, que atualmente levanta seus braços para o céu, agradece não “uma terra de trigo e cevada, vinhas, figueiras e romãzeiras”, não dons materiais e riquezas da terra, mas o maior presente que Deus nos comunicou nesta festa: seu próprio Espírito Santo.

Com a efusão do Espírito Santo, realizou-se a palavra de Jesus, que prometera enviar um Consolador. Derramou-se sobre os apóstolos, em línguas de fogo, a força de Deus. Inaugurou-se o tempo da Igreja, a quem se deu o dom definitivo do Espírito, que faz de todos um só povo, uma só ecclesia, reúne gregos e gentios, escravos e livres, judeus e cristãos numa única, santa e litúrgica kahal, debaixo do sacramento da nova aliança. Com a efusão do Pentecostes, Cristo coroou sua obra e a festa da Páscoa recebeu seu último toque, completando a obra salvífica do Senhor Jesus.

Uma vez mais irrompeu a eternidade para dentro do tempo e o homem experimentou, entre maravilhado, espantado e feliz, os desvelos, as novas manifestações do eterno amor do coração de seu Deus. Na festa de Pentecostes, Deus volta já não mais a sentar-se na mesa dos homens, mas faz a estes prelibar o banquete do Reino dos Céus, onde todos viverão embriagados com o vinho doce que Ele prepara para seus eleitos.

2. A festa de Pentecostes desperta em mim duas idéias principais. A primeira é que Pentecostes não é a resta de um dia, mas que toda a vida é um grande Pentecostes. Continuadamente, sem cessar, Deus derrama seu Espírito na argila informe da existência para teo-morfi-zá-la (diviniza-la). Deus não criou o mundo para o caos, mas os elementos do mundo existem para que o homem em sua necessidade possa servir-se deles “como benefício” (cf. Sb 11,5). Por outro lado, o mundo não foi criado de uma vez por todas, mas Deus continua a recriá-lo constantemente. Sua palavra – Faça-se! – é de valor eterno e ação perene.

3. Mas pensemos esta ideia de forma diferente. Imaginemos a surpresa e o espanto que nos assaltariam se, diante dos nossos olhares atônitos e ouvidos incrédulos, se levantasse, em meio a uma de nossas celebrações litúrgicas,  uma voz louca ou profética que proclamasse: “Tenho o prazer de vos anunciar uma grande alegria: O Reino de Deus está entre vós!” O que, num primeiro momento, poder-nos-ia causar um calafrio e até uma certa alegria, pois estaria respondendo a um desejo que, quem sabe, o temos enfraquecido dentro de nós, mas que nos é conatural e imortal, tal sentimento, sem dúvida, seria suplantado por uma venenosa descrença, tão logo confrontássemos o teor do anúncio com o mundo-cão em que vivemos. Sem muitas dificuldades, concluiríamos que o Reino de Deus não pode conviver com o pecado e as injustiças, com o rancor, o ódio e as mais diversas formas de hipocrisias, com a cizânia da maldade e o demônio das rivalidades que tem como fermento comum um egoísmo mortífero e insensato.

Esta descrença, no entanto, é palpável, e é fruto de um comportamento carnal, como diz São Paulo. Ela é um dos aspectos do pecado contra o Espírito Santo. Tal descrença coloca em xeque a base de relacionamento da criatura com o Criador. E na medida em que tal descrença toma conta do fiel,  faz-se impossível, como diz a Escritura, o perdão para o pecado contra o Espírito Santo. Pois a graça de Deus só pode medrar onde o homem coloca a aceitação da fé.

Nossa insensibilidade espiritual leva-nos a inflacionar ou a dar vulto à ação do Maligno e a menosprezar o eterno e continuado trabalho pentecostal do Espírito de Deus no coração de suas criaturas. Nestas palavras “O Reino de Deus está entre vós” sente-se pulsar, como diz o teólogo  russo Paulo Evdokimov, “o coração do Evangelho”. Vivemos, no entanto e infelizmente, como se isto não fosse verdade. A dificuldade que sentimos em viver o Reino de  Deus deixa-nos insensíveis à sua presença. Nosso debruçar-se sobre as mazelas do mundo anestesia em nós a ação do Espírito Santo. Convivemos com dificuldade com o mundo do mal. Alimentamos ansiosamente uma mentalidade judaica, sempre à cata de milagres. Somos, também, vítimas de uma mentalidade grega que, prometeicamente, se lança na conquista utópica de frutos proibidos e crê apenas na  extensão de seus braços e na argúcia de sua inteligência. O drama da cruz continua a ser um escândalo que nos machuca e que piedosamente confinamos às celebrações da  Semana Santa. Nosso mundo técnico e lógico termina nos limites onde se entrechocam luz e trevas, e nossos passos acompanham Cristo até às ruas de Jerusalém, sentindo-se  fracos para ir com Ele até fora da cidade, ao lugar  do crâneo.

4. E, no entanto, dezenas de anos antes de Cristo, a alma religiosa do Povo Eleito já era bastante espiritual para discernir, por entre as mazelas humanas, a presença do Espírito de Deus, pairando sobre as águas, a trabalhar no barro caótico do gênese. O caos ainda não terminou, inclusive porque esta é a hora das trevas. E é nesta hora que se faz presente a festa de Pentecostes. Deus continua pairando sobre o abismo do pecado e das incertezas, insuflando na fraqueza das decisões humanas o calor de seu coração e sua Palavra criadora. Cinqüenta dias depois da Páscoa, esta presença apenas se adensou para confirmar a fé dos discípulos que, por medo dos judeus, haviam-se retirado para a intimidade do Cenáculo que, se por um lado coloca a pessoa sob a proteção do Deus dos Exércitos, por outro visibiliza e inapelavelmente denuncia a fraqueza do homem.

5. A vida do fiel é uma contínua festa de Pentecostes. O suceder-se dos séculos é o Pentecostes eterno que os homens não devem perder de vista quando colocam, revoltados e escandalizados, seus olhares na cizânia que o inimigo semeia na seara do bom trigo que o Pai de Família fez crescer em seu campo. O esforço e desafio do homem espiritual estarão sempre endereçados na tentativa de vislumbrar e descobrir a ação de Deus na coragem dos jovens que cantam na fornalha ardente da Babilônia  e no arrependimento do Rei Davi. A força do “Totalmente Outro” está irrompendo continuamente na história sagrada dos homens. Ele continua a sentar-se à mesa com Abraão, o armar o braço de uns poucos contra a prepotência dos tiranos, a sacramentar o testemunho de sangue dos irmãos Macabeus, a quebrar o orgulho e a impiedade de todos os Antíocos, a caminhar com os seus mesmo quando eles se afastam, sem esperanças, pelas estradas de Emaús.

6. Antigo Testamento tem uma visão profética da festa de Pentecostes no livro do Profeta Ezequiel. A nação apostara e o Faraó, que era visto como a salvação, se banqueteava iniquamente nas portas da cidade. A esposa do profeta, símbolo daquilo que seria a delícia para os  olhos e imagem da felicidade de uma nação, lhe é roubada. E, no entanto, o Senhor lhe pede para que não a chore,  para que não celebre o luto ritual. “Conserva o teu turbante na cabeça, põe o calçado nos pés, não cubras a tua barba, não comas o pão das gentes’ (Ez .24,17). Porque Israel será restaurado.

A mão do Senhor, então, arrebatou o Profeta e o colocou no meio de uma planície “que estava coberta de ossos”. A continuação da história todos a conhecemos, e o seu simbolismo também. Deus manda que o Profeta fale sobre os ossos “a palavra do Senhor”, aquela mesma palavra que tirou do nada toda a criação. O Profeta obedece E confessa: “Vi que se formavam sobre eles músculos, que nascia neles carne, que uma pele os recobria” (Ez 37,8). Daí a pouco, o “o espírito penetrava neles” (v. 10).

E o Espírito do Senhor abre-lhe os olhos para a verdade “Filho do homem, esses ossos são toda a raça de Israel. Eles  dizem: Nossos ossos estão secos, nossa esperança está morta; estamos perdidos” (v. 11). Mas a mão do Senhor abre os túmulos (v. 12), fá-los ser um só  coração (v. 19) e estabelece no meio dele o seu santuário, pois eles serão o seu povo (vv. 26-27).

No simbolismo de um sonho, eis a prefiguração e realismo de Pentecostes. Deus tirou a vida do caos: Deus  deu vida a um útero estéril; Deus ressuscitou seu Filho das trevas da morte; e Deus fez de um monte de ossos o seu povo. É este o milagre de Pentecostes que se renova de mil formas diversas, em mil situações impossíveis e que só os puros de coração tem olhos para ver, segundo o Sermão das Bem-aventuranças.

7. A segunda idéia que a festa de Pentecostes me sugere é a da comunidade perfeita, daqueles que, segundo a descrição dos Atos, “perseveravam na doutrina dos Apóstolos, nas reuniões em comum, na fração do pão orações” (2,42). Eles viviam “unidos e tinham tudo comum” (v. 44); “tomavam a comida com alegria e singeleza de coração, louvando a Deus e cativando a simpatia de todo o povo” (vv. 45-47). Para melhor apreendermos a dimensão desta comunidade pentecostal, seria útil meditar sobre a  “comunidade infernal”. As cores sombrias de um quadro que nos apresenta o inferno poderão nos ajudar a entender melhor o esplendor da festa de Pentecostes.

8. O inferno é o oposto do Reino dos Céus. Tanto para um quanto para o outro valem as palavras de Isaías e São Paulo: “Olho humano jamais viu, nem ouvido ouviu, nem o coração imaginou o que Deus preparou para aqueles que o amam” (1 Cor 2,9), e para os malditos que não O acolhem. O homem tem dificuldade de compreender um e outro porque ainda não compreendeu o próprio coração.

Qualquer reflexão sobre o inferno e o céu, por isso mesmo, será sempre uma meditação sobre as possibilidades dum inferno e dum céu que carregamos dentro de nós mesmos. Tem toda razão o místico alemão Angelus Silesius quando afirma: “Se o paraíso, ó homem, não estiver, antes de tudo, em você, creia-me que nele, seguramente, você não entrará jamais”. Ou ainda: “O céu encontra-se em você, assim como as torturas do inferno. O que você escolher e quiser, isto você o terá por toda a parte”. A Bíblia é a meditação que agora estamos tentando fazer. Ela olhou para dentro do homem e ali encontrou o céu e o inferno. Viu Deus criando o homem à sua imagem semelhança e o demônio tentando desencaminhá-lo.

O que é o inferno? O inferno é a busca desgraçada de si mesmo. Uma busca sofrida, sem tréguas, insatisfeita, perturbadora; é um girar sem paz, um buscar sem encontrar um torturar-se sem sentido, um morrer angustiante sem fim. Angelus Silesius retrata o maldito muito bem: “Se o diabo – diz ele – pudesse abandonar a busca de si mesmo, tu o verias, de imediato, assentar-se no trono de Deus”. O Professor de Mística, Padre Deblaere, costumava dizer que o demônio é o mais religioso dos seres, com o problema de não querer abandonar o próprio eu. Santo Agostinho, retratando a cidade dos homens, mostrou-lhe o aspecto trágico, que residia exatamente na busca neurótica de si mesmo até o ponto de perder-se. E São Paulo anota, com fineza psicológica, que quando Deus quer perder o homem, entrega-o aos descaminhos dos próprios desejos.

O inferno, por isso, é uma solidão não redemida, um abandono cheio de revolta (o abandono de Cristo foi vencido pela fé!), um deserto sem a presença do Bem-Amado. Os místicos preferiam o inferno com Deus, que o céu sem Ele. Outros queriam ser tão livres, no amor de Deus, que continuariam a amá-lo mesmo que Deus não fosse a recompensa que lhes era prometida.

O inferno nasce de um amor sem forças de expressão, ou cuja expressão é a estéril projeção do próprio eu. Nesta  projeção ansiosa, o homem se martiriza inutilmente e devora o próprio coração, sacia-se não do pão vivo na casa do Pai, mas com a comida que seus cuidados terrenos preparam para os animais que ele alberga no fundo de si mesmo. Esta comida nunca será suficiente. Ele, então, em vez de transformar-se no “templo vivo de Deus”, converte-se numa “babel onde o demônio faz o seu carnaval”. E as características desta babel não a irreconciliação trágica consigo mesmo, mundo interior fracionado e desajustado, insatisfação neurótica, incoerência, pulsão dos desejos, auto-imagem distorcida e não-ok.

Um homem assim não pode cantar e para ele Pentecostes não é uma festa, pois ele está perdido na incomunicação consigo mesmo e com o mundo. Ele não conhece a alegria da adoração, a gratuidade do testemunho, a pureza da acolhida e a festa da comunhão.

9. Mas tudo isto conhece o homem pentecostal. Seu olhar não se perde nas baixas planícies dos dividendos terrenos, mas ele está sempre à espera do Senhor que está para vir. Sua oração não se centra sobre suas necessidades, mas é uma súplica para que venha o Reino Deus, para que volte o Cristo Senhor: Maran-atha! Ele é um adorador do Pai, o homem do “Sanctus”, sempre pronto a descalçar as sandálias e a despojar-se das próprias vaidades, para revestir-se da força da Palavra de Deus. Ele é o “auditorium Spiritus” (auditório do Espírito) e o “vere recipiens Spiritum Dei” (o verdadeiro receptáculo do Espírito de Deus). Nele já foram silenciados os desejos e afeições passageiras e sua vida é o anfiteatro onde Cristo já venceu o demônio da tríplice tentação. Porque morreu para si, de seu túmulo a mão toda-poderosa de Deus ressuscitará sua verdadeira imagem e semelhança. “Todos – dizem os Atos – ficaram cheios do Espírito Santo” (2,4). Assim é o homem pentecostal que se esvaziou de si, fazendo espaço para o Deus de toda consolação.

10. O homem pentecostal fala a língua de seus irmãos. Fala e entende. Não se perde num monólogo estéril, compreende o que lhe dizem e faz-se entender pelos que o escutam. Sua identidade é a pobreza e sua linguagem, o amor. Não usa armas para dominar, apenas vive na admiração das “maravilhas de Deus” (2,11). O ruído do milagre lhe é inteligível, porque já silenciou dentro de si o ruído das paixões. Não fala de si, fala do outro, do grande outro, em nome de quem ele se reúne para rezar e comungar.

Em qualquer lugar onde esteja, o homem pentecostal vive casa do Pai, que criou todas as coisas para que lhe cantassem sua glória. Tudo lhe é irmão e o mais ínfimo ser é digno de seu desvelo. Em todos eles faz-se presente, constantemente, a festa de Pentecostes. Eles são vivificados pelo sopro criador do Espírito de Deus e línguas  de fogo aquecem-lhes o coração para a vida.

[Texto publicado na Revista Grande Sinal, de propriedade da Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil, editada pela Vozes.]





Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *