Celebração do Terceiro Domingo do Tempo Comum

“Eles, deixando imediatamente as redes, seguiram a Jesus”

Leituras – Ano B: Jonas 3, 1-5.10; Salmo 24 (25), 4ab-5ab.6-7bc.8-9 (R/ 4a.5a); Primeira Carta de São Paulo aos Coríntios 7, 29-31; Marcos 1, 14-20.

COR LITÚRGICA: VERDE

Animador: Nesta Eucaristia, fazemos memória do chamado feito por Jesus aos seus apóstolos, dando início à sua missão de profeta e servidor do Pai. Recordamos todas as pessoas e comunidades que se sentem chamadas e, sem mania de grandeza, colocam-se a serviço do evangelho e da construção da paz. Hoje o Senhor nos visita e, nesta celebração, renova seu chamado a cada um de nós. Ele quer nos livrar da tentação de poder e grandeza, nos dar a graça de confiar na sua força, que sempre se revela nos fracos e pequenos, para sermos anunciadores e anunciadoras humildes, disponíveis e alegres no seu Evangelho: “novos pescadores de gente”.

1. Situando-nos brevemente

“O Ano Litúrgico é Cristo”, afirma Bergamini. Bem mais do que um calendário que coleciona festividades, é uma realidade sacramental, símbolo do Cristo que se faz, Ele mesmo, caminho de conversão. Assim, começamos o Tempo Comum com um apelo firme e exigente de conversão ao Reinado de Deus.

Vislumbramos durante todo o Ano Litúrgico as passagens de Jesus por entre as pessoas, atravessando cidades e povoados, percorrendo seu país de uma extremidade a outra, rompendo fronteiras e criando laços apoiados na fé do Deus, a quem chama de Pai. Deste modo, diante de nossos olhos, o tempo cronológico vai sendo vivido na perspectiva litúrgica e se torna itinerário para conformar a nossa existência ao Espírito de Jesus no qual fomos mergulhados pelo Batismo.

A cada semana, o Domingo quer ser esta “brecha” de acesso ao mistério que impregna tudo e todos, mas que nos escapa em meio às tribulações cotidianas. Por isso, no intuito de sermos reintroduzidos na dinâmica do Reinaldo de Deus ao celebrarmos o Dia do Senhor, a Igreja, através dos ritos iniciais da Eucaristia nos exorta: “No dia, em que celebramos a vitória de Cristo sobre o pecado e a morte, também nós somos convidados a morrer ao pecado e ressurgir para uma vida nova” (Primeira fórmula de convite ao ato penitencial).

2. Recordando a Palavra

A I Leitura (Jn 3,1-5.10) pode ser lida em chave tipológica: aquilo que se diz de Jonas se realiza em Jesus. Jonas, a mando de Deus põe-se a caminho para anunciar a palavra de conversão que lhe é confiada: Jesus se põe a caminho na Galileia para anunciar a plenitude dos tempos, a iminência do Reinado de Deus e a conversão.

Temos, assim, estabelecido o enfoque da Liturgia da Palavra e o elo entre 1ª Leitura e Evangelho. O Salmo Responsorial aprofunda esta relação quando insiste no conhecimento das estradas do Senhor, que dão acesso à verdade e à justiça. Mas, a ligação fica mais óbvia ao afirmar a misericórdia e compaixão divinas que conduzem o pecador ao bom caminho.

A II Leitura (1Cor 7, 29-31) encaminha o nosso olhar para a noção do tempo e sua relação com a realização do Reinado de Deus. Por isso, São Paulo comunica à comunidade de Corinto a urgência da conversão. Resumiríamos suas preocupações em duas afirmações que emolduram seus conselhos: irmãos, “o tempo está abreviado (…) pois a figura deste mundo passa” (1Cor 7,29.31). Examinando melhor a primeira expressão, descobrimos que Paulo não está falando do tempo cronológico, pois não usa seu equivalente grego “chronos”, mas “kairós” que significa, nos escritos paulinos, uma relação entre o mundo presente e o seu destino aos olhos de Deus, isto é, a salvação.

A afirmação “o tempo está curto” refere-se à proximidade da salvação que exige a relativização de todo e qualquer “esquema” de vida. Neste sentido, nossa atenção recai sobre a segunda expressão – “a figura deste mundo passa”. A palavra grega usada para “figura” é “schema”, que pode ser traduzida por esquema ou forma, mas também por atitude (Cf. BALZ, Horst. SCHNEIDER, Gerard. Dicionario Exegetico Del Nuevo Testamento. Volumen II. Salamanca: Ediciones Sigueme, 2022, p. 1630). É uma palavra rara no NT, aparece só duas vezes.

Tendo em conta a primeira leitura em que se reconhece a acolhida da palavra de Deus anunciada por Jonas e a conversão dos ninivitas, o mesmo se espera da comunidade cristã perante a iminência do Reinaldo de Deus e da manifestação de sua Palavra salvadora. É uma maneira de afirmar a necessária relativização do mundo, que deverá ceder lugar a um outro mundo pautado no Governo de Deus.

No Evangelho, o anúncio do Reinado de Deus, ao qual se tem acesso pela conversão, exige a destruição de um tipo de existência para dar lugar a outra; aquela que o seguimento de Jesus exemplifica e antecipa: os pecadores deixam as redes, os pais e empregados, leia-se, abandonam um “esquema” de vida em função da salvação contemplada em Jesus.

3. Atualizando a Palavra

A leitura tipológica dos textos bíblicos nos ajuda a perceber a boa ação de Deus na história, oferecendo por sua palavra a oportunidade de regeneração, na qual os seres humanos poderiam voltar à sua condição original, ao “esquema” primordial intuído pelo Criador.

Homens e mulheres de outras épocas souberam captar o interesse divino de sermos cuidados por Deus, e esta percepção os levou a assumir mudanças fundamentais na maneira de conduzir suas vidas. E isto se tornou mais claro, pleno e disponível para nós em Jesus Cristo e sua Páscoa.

A aclamação ao Evangelho, pelo vocativo “irmãos”, nos indica que esta experiência situada no passado é também uma possibilidade para nós que estamos no limiar da plenitude dos tempos: “O Reino de Deus está perto! Convertei-vos, irmãos, é preciso! Crede todos no Evangelho“. A Liturgia deste domingo, nos faz pensar que toda ordem deve ser posta em crise perante o Evangelho. Todo esquema deve ser posto sob suspeita, a fim de que se verifique se sua direção está conforme o amor de Deus que, de diversas formas se mostrou na história e em Jesus se tornou tão obvio que é capaz de modificar nossa vida, frutificando em boas obras (cf. Oração do Dia).

4. Ligando a Palavra e a Eucaristia

Antes do Concílio Vaticano II não havia um “Ato Penitencial” da assembléia. Tinha-se um rito penitencial particular, feito pelo padre ao pé do altar e consistia, basicamente, no uso de fórmulas de contrição, como o Confiteor (Eu confesso). Com a reforma da Liturgia, incrementou-se o Rito Penitencial com três formulários, transformando-o numa ação ritual de toda a assembleia e não apenas do padre.

Sua colocação antes da Liturgia da Palavra (ou, antes da Liturgia Eucarística, como se pretendia em alguns esquemas da reforma) visa que os fieis tenham em conta a necessária crise de sua existência perante o Mistério Pascal de Cristo. Favorece que se experimente ritualmente o que se anuncia com as narrativas e profecias bíblicas para que se desdobre na vida: por em debate os nossos esquemas e atitudes vaidosas perante aquele que é único em majestade e beleza (Cf. Antífona de Entrada).

Só se pode celebrar “dignamente” os Mistérios, conforme nos lembra um dos convites do Ato Penitencial, se vislumbrarmos no horizonte da celebração a transformação de nós mesmos segundo o Evangelho. Com isso, se espera a certeza de que “tendo recebido a graça de uma nova vida, sempre nos gloriemos dos vossos dons” (Oração depois da comunhão).

Enviado por D. Vilson Dias de Oliveira, DC – Bispo Diocesano de Limeira