Senhor, graças vos damos pelos novos caminhos que se abrem para ajudar catequistas no seu ministério.
Iluminai aqueles e aquelas que acessam nossas páginas em busca de apoio e auxílio para servir melhor às suas comunidades.
Protegei quem se dispõe a enriquecer este Blog com suas contribuições.
Abençoai todos e todas que nos visitam e fazei deste Blog um verdadeiro instrumento de formação de evangelizadores e educadores na fé.
E que o sol do vosso amor aqueça todos os corações para a glória do vosso Reino.
Isto vos pedimos, por intercessão de Maria, nossa Mãe e primeira Catequista, hoje e sempre. Amém!

Celebração do 5º Domingo do Tempo Comum

“Curou muitas pessoas de diversas doenças”

Leituras: Livro do Jó 7, 1-4.6-7; Salmo 146 (147) 1-2.3-4.5-6 (R/cf.3a); Primeira Carta de São Paulo aos Coríntios 9, 16-19.22-23; Marcos 1, 29-39 (curas na Galileia).

COR LITÚRGICA: VERDE

Na Eucaristia deste domingo, somos convidados a encarar o sofrimento de uma forma esperançosa, na certeza de que o Senhor não nos abandona, pois Ele quer a vida para todos. Que o Espírito Santo nos ilumine e fortaleça, para que nada, nem a dor, nem o sofrimento, abalem nossa fé.

1. Situando-nos brevemente

Nestes primeiros domingos do Tempo Comum, somos convidados a contemplar Jesus anunciando o Reinado de Deus mediante palavras e sinais de salvação. A Liturgia relaciona, então, sua Páscoa com o pleno desenvolvimento humano, ao qual Jesus ordena seu ministério. Para ele, a glória de Deus é, de fato, “o ser humano de pé” (Célebre expressão de Irineu Leão).

A Liturgia da Palavra e a eucologia deste domingo conduzem o olhar dos fiéis para reconhecer em Jesus o auxílio do Pai. Emblemático, neste sentido, é o prefácio da Oração Eucarística para as diversas circunstâncias VI-D: “com a vida e a palavra anunciou ao mundo que sois Pai e cuidais de todos como filhos e filhas”.

2. Recordando a Palavra

Se a sinagoga, no domingo precedente, foi o ambiente para a atividade exorcista de Jesus – com a autoridade da Palavra de Deus ele faz calar a maldade que habitava um homem presente à reunião da comunidade, agora seu ministério se dá em clima doméstico. Numa breve retrospectiva destes três domingos, somos testemunhas do trabalho de Jesus em três ambientes diferentes: à beira do mar da Galileia (lugar de trabalho); na sinagoga de Cafarnaum (lugar de culto e estudo da Palavra de Deus) e na casa da sogra de Pedro (lugar de convivência familiar).

Salta à vista o fato de estes dados sobre a abrangência da atividade de Jesus serem apresentados em um único capítulo do Evangelho de Marcos, lido de maneira contínua nestes três domingos (a conclusão do capitulo será lida no sexto domingo do tempo comum Ano B). Num único capítulo, portanto, já reconhecemos a intensidade e amplitude de seu ministério: ele entra na Galileia, vindo da região do Jordão, vai a Cafarnaum, sai em segredo e percorre “toda” a Galileia.

As demais leituras da Liturgia da Palavra nos dão a “moldura” para compreender esta intensa e ampla atividade de Jesus. A primeira leitura e o Salmo responsorial, lidos numa perspectiva antitética nos dão uma linha de compreensão quanto ao ministério de Jesus. Enquanto Jó apresenta uma perspectiva realista e crua da existência humana, caracterizando-a como uma “luta” comparada à vida sofrida de um mercenário (Mercenário, aquele que ganha a vida por jornada diária de trabalho) que vive na instabilidade, o Salmo 146 vai noutra direção confessando a bondade de Deus que reconstruiu Jerusalém e juntou os dispersos.

Angústia e dissabor estão lado a lado com o contentamento e o prazer de ser cuidado por Deus. É exatamente neste ponto que encontramos a síntese oferecida pela Aclamação ao Evangelho: “o Cristo tomou sobre si nossas dores, carregou em seu corpo as nossas fraquezas”.

O ministério de Jesus é a resposta fiel e confortadora de Deus à dimensão mais sofrida da existência. Por meio de palavras e sinais, se ocupa de expandir o Reinado daquele que o enviou, conforme escutamos no terceiro Domingo do Tempo Comum.

Assim, Jesus não se contenta nem com o ambiente sinagogal ou familiar, mas dilata seus cuidados, assumindo-os sob o aspecto da missionariedade: “’Vamos a outros lugares, às aldeias da redondeza! Devo pregar também ali, pois foi para isso que eu vim’. E andava por toda a Galileia…”. Aonde houver “Jó’s”, é para lá que Jesus se dirigirá, proporcionando-lhes entoar a benignidade e o conforto que vêm de seu Pai, do qual é sinal eficaz.

3. Atualizando a Palavra

A Igreja conhece profundamente o coração de seu Senhor e assume seu fardo. Por isso, vemos Paulo assumir com liberdade a “impossibilidade” de anunciar o Evangelho (Cf. 1Cor 9,16). Parece contraditório, mas não é. Sua liberdade consta de abraçar o encargo sem pretender honras, porque, como ele próprio afirma “por causa do Evangelho faço tudo, para ter parte nele”.

A comunidade cristã – a Igreja – existe para dilatar o trabalho de Cristo Jesus. Como Ele, não mede distâncias para transmitir a Boa Nova. Quem vive num país de dimensões continentais como o nosso, consegue compreender o esforço e a dedicação de milhares de homens e mulheres para fazer notável a páscoa de Cristo, mediante seu apostolado.

Gente anônima, oculta da mídia, mas que – ao exemplo do Senhor – carrega sobre si as dores dos irmãos, para que respirem aliviados. A Igreja, preconizada pelo Concílio Vaticano II, entende desta forma sua atuação no mundo contemporâneo.

“As alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje, sobretudo dos pobres e de todos os que sofrem, são também as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos de Cristo; e não há realidade alguma verdadeiramente humana que não encontre eco no seu coração” (Guadium et Spes. Constituição Pastoral sobre a Igreja no mundo de Hoje. Concilio Vaticano II)

4. Ligando a Palavra e a Eucaristia

A oração com a qual a Igreja abre a celebração deste Domingo diz o seguinte: “Velai, ó Deus, sobre vossa família, com incansável amor, como só confiamos em vossa graça, guardai-nos sob a vossa proteção”. A prece litúrgica se exprime como profissão de fé – Deus é incansável no amor – e, depois como uma súplica pela experiência deste mesmo amor, sob o aspecto de proteção. A comunidade reunida e presidida por Cristo está sob o seu olhar, sob sua vigilância. Não está sozinha e desamparada, mas sente-se beneficiária da mercê de Deus.

É gozoso lembrar os espaços sagrados que abrigam a comunidade de fé em assembléia, e trazem em suas absides ou cúpulas o Cristo Pantocrator (Pantocrator significa, em grego, “Aquele que tudo rege”). As construções contemporâneas em painéis ao fundo do santuário /presbitério. É uma imagem (ícone) padrão do Cristo muito divulgada na Igreja Oriental, que traz olhos de quem vigia, voltados para quem ocupa o espaço sagrado.

Como não sentir-se acariciado por Deus ao habitar um lugar no qual predomina a visão daquele que “tomou sobre si nossas dores” (Aclamação ao Evangelho) e que “deu de beber aos que tinham sede e alimentou os que tinham fome?” (Antífona da Comunhão). Afinal, foi Ele quem percorreu longas distâncias para pregar nas sinagogas e expulsar os demônios. Mas não só por toda a Galileia (Cf. Mc 1,39), sobretudo superou a distância ente o céu e a terra, a fim de promover sua comunhão.

O fiel que toma parte na celebração da Igreja, passa da condição de Jó, testificada pela I Leitura para a condição do Salmista, que reconhece nele (Jesus) a ação maravilhosa de quem “conforta os corações despedaçados (…) e chama a cada um por seu nome” (Sl 146, 3a.4b).

Noutras palavras, faz experiência da Páscoa. Contempla-se, como parte do Evangelho, como augura Paulo acerca de si mesmo. Como dissera uma senhora muito sofrida e já anciã ao adentrar a Basílica Nacional de Aparecida do Norte: “Quando eu entro aqui, me sinto embelezada (Testemunho de Claudio Pastro, artista plástico responsável pela iconografia do Santuário Nacional de Aparecida).

Enviado por D. Vilson Das de Oliveira, DC – Bispo da Diocese de Limeira

A CURA DA SOGRA DE PEDRO

Aproximando-se, ele a tomou pela mão e a fez levantar-se… (Marcos 1,29-39)

Texto de Ildo Bohn Gass para o CEBI

A passagem do evangelho segundo Marcos proposta para este final de semana está claramente dividida em três partes.

A cura de uma mulher para a diaconia, o serviço (1,29-31)

No Evangelho segundo Marcos, a primeira cura realizada por Jesus é a expulsão de um espírito impuro de um homem que está sob o domínio de escribas e da sinagoga de Cafarnaum, cidade onde Jesus foi morar, ao iniciar sua missão (Marcos 1,21-28). A lei imposta pelos escribas na sinagoga e no templo, além de ser um peso na vida das pessoas (cf. Mateus 23,1-4; Lucas 13,10-17), impedia que se pensasse e agisse orientado pelo Espírito de Deus. Pois, no dizer de Paulo, “a letra mata, o Espírito é que dá a vida” (2Coríntios 3,6). Por isso, Jesus salva as pessoas dessa força demoníaca que cria dependência e não liberta.

“Logo que saíram da sinagoga, foram com Tiago e João para a casa de Simão e André”(Marcos 1,29). Convém lembrar que, mais do que frequentar o templo, Jesus prefere as casas, prefere o encontro com povo nos caminhos. Ali, todas as pessoas têm acesso ao encontro com Deus. No templo, só podiam entrar os sacerdotes.

Esta narrativa relata a 2ª cura de Jesus, conforme Marcos. Agora, é a sogra de Simão que está doente (Marcos 1,30). Logo que soube, dirigiu-se à cama em que ela estava. Três coisas chamam a atenção. 1) “Ele aproximou-se” (Marcos 1,31). Mais que procurar quem é o próximo, Jesus se torna próximo. 2) “Tomando-a pela mão”, Jesus faz algo fundamental para quem trabalha com pessoas doentes e com quem está na exclusão. Valorizando o toque, o abraço, Jesus valoriza sobremodo as pessoas debilitadas. 3) Jesus “levantou-a”. Enquanto estava deitada, essa mulher não podia ser sujeito com agir próprio. Dependia de outras pessoas. Colocá-la em pé faz dela uma diácona, uma pessoa livre para servir. “E ela se pôs a servi-los”.

Convém lembrar que, se em Marcos a primeira pessoa curada foi um homem (Marcos 1,21-28), a segunda foi uma mulher. Jesus tratava as mulheres com a mesma dignidade com que se relacionava com os homens. Assim como tinha discípulos, tinha também discípulas. Quando Marcos menciona as mulheres que foram com ele até a cruz, cita Maria Madalena, Maria e Salomé, além de muitas outras mulheres que o seguiam, serviam e subiram com ele para Jerusalém como verdadeiras discípulas (cf. Marcos 15,40-41).

E o que nos resta senão também colocar-nos em pé e, com a força do Espírito de Jesus ressuscitado, tornar-nos pessoas livres para servir?

A prática de Jesus liberta de doenças e de possessões (1,32-34)

Naquele dia, depois do pôr do sol e junto à porta da casa de Simão e de André, Jesus ainda curou muitas pessoas enfermas e expulsou demônios, isto é, forças contrárias a Deus e que diminuem a vida de quem está sob seu domínio. As duas curas realizadas anteriormente, a do homem possesso e a da mulher enferma, são símbolos de toda prática libertadora de Jesus. E é prática que não para. Mesmo o sol já posto, Jesus continua libertando pessoas enfermas e endemoninhas.

A proibição de “falar, pois sabiam quem ele era” (Marcos 1,34) faz parte da intenção teológica de Marcos. Ele quer evitar a ideia de Jesus como um messias triunfalista, para reforçar a fé em Jesus como o ungido pelo Espírito de Deus (Marcos 1,10) que vence, aos poucos e de forma humilde como o servo sofredor, as forças contrárias ao espírito do Reino. Por isso, Marcos apresenta Jesus insistindo em que não se divulgue o seu messianismo aos quatro ventos. A proibição se estende aos demônios (Marcos 1,25.34; 3,12), às pessoas curadas (Marcos 1,44; 5,43; 7,36; 8,26) e a seus apóstolos (Marcos 8,30; 9,9), reservando essa revelação somente para o momento da cruz e pela boca de um estrangeiro: “Na verdade, este homem era Filho de Deus”(Marcos 15,39).

Senhor, Deus da vida,
ajuda-nos a acolher a tua graça que cura e liberta das enfermidades,
dos desejos egoístas e do consumismo individualista.
Ó Deus, livra-nos dessas forças que nos seduzem
e arrastam como possessão demoníaca,
forças que nos dominam e impedem de sermos pessoas livres
para, como criaturas novas, colaborar contigo
no serviço ao teu Reino de justiça, a exemplo da mulher que curaste.

De onde vem as forças para a nova prática de Jesus? (1,35-39)

Depois de um dia de atividades salvadoras e que vão noite adentro, Jesus descansa para estar com as energias renovadas para mais um dia de serviço à vida. Mas não basta novo vigor físico. Algo mais profundo é necessário.

Por isso, ainda de madrugada, Jesus se retira para um lugar deserto e ali cultiva sua íntima comunhão com o Pai, o Deus libertador do Êxodo. É que vai ao deserto, lugar por onde Deus guiou seu povo para a liberdade e “lá, ele orava” (Marcos 1,35).

A comunhão com o Pai é o segredo da força de Jesus na solidariedade com as pessoas mais desprezadas de sua época, entre elas as doentes e as possessas por todas as forças de alienação e que não permitem que sejam sujeitos de suas vidas. A intimidade com o Pai, essa espiritualidade de comunhão profunda com o sagrado, faz de Jesus uma pessoa radicalmente livre. A oração é a fonte onde Jesus bebe do mais puro Espírito que sustenta sua ação emancipadora junto às pessoas em estado de dependência, seja em relação às enfermidades, seja em relação às forças que nos alienam, impedindo-nos de sermos filhas e filhos livres e com dignidade.

Ó Deus,
concede-nos a graça que permite esvaziar-nos do espírito individualista,
das forças que geram discórdia, exclusão e sofrimento.
Senhor, que teu Espírito libertador do deserto nos transforme e impulsione,
tal como moveu Jesus de Nazaré,
ao ponto de sermos sempre mais semelhantes a ti,
pessoas livres para o serviço da vida,
da cura e de tudo que domina como possessão em nossas mentes e corações.
Amém!

Ildo Bohn Gass é bliblista, leigo católico. É autor da série Uma Introdução à Bíblia. Junto com o Pastor Carlos Dreher (IECLB) e a Revma. Lucia Sírtoli (IEAB), é autor do livro O pão nosso de cada dia dá-nos hoje.

(Fonte: CEBI – Centro de Estudos Bíblicos – www.cebi.org.br )

A prosperidade

Numa visão antiga, que vem sendo muito retomada nos últimos tempos, é a ideia de que Deus recompensa os bons e castiga os maus nesta vida. O que está claro é que a vida humana vive de altos e baixos, de alegrias e sofrimentos, o que constitui um mistério.

Pensando bem, não há explicação para o sofrimento. Jó nos mostra que Deus está presente onde o ser humano sofre. Nos evangelhos entendemos que Jesus cura quem sofre, mostra que Deus conhece o sofrimento do humano por dentro e o assume até o fim.

Falar de prosperidade é ater-se a uma vida sem sofrimento, de mirar para alvo que só ocasiona gozo e alegria. Esta pode ser uma visão cristã da vida, isto é, prosperidade significando intimidade com Deus, realizando o maior de todos os mandamentos, o amor.

É contra os princípios do evangelho ancorar-se na artimanha da prosperidade, para ferir a liberdade das pessoas, extorquindo delas bens materiais. Pior ainda quando isto é feito em nome de Deus. Isto passa a causar a queda de quem é “fraco na fé”.

O anúncio da Palavra de Deus pode estar cheio de ambiguidades, carregado de atitudes escusas. Ela pode ser instrumentalizada para atender aquilo que não favorece o bem comum. Deixa de ser uma Palavra de gratuidade e de transformação.

A Palavra de Deus é fonte de prosperidade espiritual. Ela aciona os corações e as mentes para a liberdade e abertura ao verdadeiro bem. Não pode ser “privatizada” para bens materiais e enriquecimento ilícito, explorando a sensibilidade das pessoas.

Não podemos ver nas doenças e sofrimentos um castigo. Aí acontece a manifestação do mistério divino. Sabemos que muitos sofrimentos são provocados por imprudências, vícios e atitudes irresponsáveis. Normalmente, o egoísmo aumenta o sofrimento.

É violência enganar as pessoas com falsas promessas de prosperidade, que até causam nos sofredores um sentimento de culpa. Muitos se perguntam: que fiz de errado? Por que mereci isto? O importante é dar sinais do amor de Deus, que é nosso Pai.

Dom Paulo Mendes Peixoto - Bispo de São José do Rio Preto.

Celebração do 4º Domingo do Tempo Comum

“Um ensinamento novo, dado com autoridade”.

Leituras ano B: Livro do Deuteronômio 18, 15-20; Salmo 94 (95) (R/ 8); Primeira Carta de São Paulo aos Coríntios 7, 32-35; Marcos 1, 21-28.

COR LITÚRGICA: VERDE

Só teremos a felicidade verdadeira se crermos no único Deus que se revelou a nós, primeiro através dos profetas e, finalmente, através de seu próprio Filho, Jesus Cristo. Vamos manifestar nossa fé celebrando o mistério pascal.

1. Situando-nos brevemente

O evangelho narra o início das atividades de Jesus depois do chamado dos discípulos. Seu ensinamento ressoa de modo diferenciado aos seus contemporâneos que o reconhecem com admiração e espanto. O próprio espírito impuro reconhece Jesus como “o santo de Deus” que veio para destruí-los (os espíritos impuros).

Mas sobressai no pequeno relato a autoridade com que Jesus ensina, expressa pelos seus admiradores ao fim e no início desse trecho. A autoridade de Jesus é colocada em contraste com a autoridade dos mestres da lei, identificado como ensinamento novo que não repete as coisas do passado, ao modo dos outros mestres.

Também a figura do homem possuído por um espírito mau, sobressai ao relato. É aí que se demonstra a autoridade de Jesus, pois até ele obedece o Messias, isto é, Jesus tem o poder sobre ele. Seu ensinamento produz libertação do homem e decreta o final do reinado do mal.

Não é um ensino inócuo, vazio, realizando a novidade messiânica. De fato, o Messias, segundo a esperança judaica, teria atribuições apotropaicas. A inauguração desse novo tempo se realiza em Jesus e o reconhecimento de Jesus por parte do povo se espalha. Contudo Jesus rejeita o falso testemunho do espírito impuro, ordenando que ele se cale.

2. Recordando a Palavra

A primeira leitura torna mais claro o sentido do ensinamento feito com autoridade: Jesus é o profeta enviado por Deus e por Ele autorizado a falar em seu nome. A profecia o diferirá dos demais notáveis do povo, pois o situará em atitude não condicionada e livre para ser o legítimo porta-voz de Deus. A leitura do Deuteronômio ainda diz que tal profeta é uma atenção à solicitação do povo que não desejava mais passar pela experiência do Horeb, quando temia morrer.

O profeta, afirma o texto, será como Moisés (cf. v.15), o legislador soberano de Israel. Tomando em consideração o precioso versículo da aclamação ao evangelho (Is 9,1), que recorda a primeira leitura da noite de natal, tem-se a exata noção de quem vem a ser esse profeta: o próprio Filho de Deus. Tais informações concorrem para reforçar o ensino autoritativo de Jesus.

Também a oração após a comunhão ajuda a compreender a extensão do ensinamento autorizado de Jesus: ele nos alcança na celebração por meio dos sacramentos da redenção, produzindo a fé. De fato, a fé é fruto da escuta da Palavra de Deus (cf. Rm 10,17). Mas também os sacramentos são frutos da mesma Palavra. É a Palavra revestida de sinal, ensinamento em gesto, realização e manifestação do anúncio da salvação.

O alimento de que fala a oração é o ensinamento autorizado de Jesus que se converte em o pão e vinho, alimento da fé autêntica da comunidade cristã. Nesse sentido, o evangelho narrado prolonga-se na Eucaristia, pois o reconhecimento da autoridade de Jesus, demonstrada pela libertação do homem possesso, isto é, ensinamento que se traduz em fato, que produz vida e liberdade, mais uma vez se converte em salvação, renovação, progresso na fé.

3. Atualizando a Palavra

Na liturgia deste domingo, Jesus começa sua missão ensinando com autoridade. A autoridade de Jesus é realizada por meio de sua fala e de sua ação. A relação entre o Evangelho e a primeira leitura realça o caráter profético da vida de Jesus. O profeta é uma pessoa de Deus, que fala e faz o que Deus quer.

A revelação da autoridade divina é o centro da liturgia de hoje. Jesus confronta-se com os poderes do mal e vence. O povo que ouviu e viu o que Jesus fez, constata que Ele ensina com autoridade; mesmo espantadas, com dúvidas, ainda permanecem, e anunciam a Boa Noticia de Jesus por toda parte. Provavelmente a admiração do povo por Jesus se origina do fato que Ele não se restringia a repetir o que outros falaram antes dele, mas fazia comentário livre e original das Escrituras.

O Evangelho começa, então, a mostrar sinais do Reino de Deus acontecendo no meio do povo. Nós, cristãos, seguidores de Jesus, devemos estar comprometidos em todo tipo de luta para vencer tudo aquilo que divide e oprime o ser humano. A Palavra de Deus nos faz renovar nossa vocação profética: anunciar, denunciar e mais que tudo, ser sinal do Reino no meio em que vivemos.

Tentemos aproveitar os ensinamentos que Marcos transmite no Evangelho e aplicá-los na nossa vida: a situação do homem possuído pelo demônio representa a condição daquele que ainda não encontrou Cristo, vive sob um conjunto de tudo aquilo que desumaniza a pessoa. São os sentimentos racistas, de ódio, ansiedade pela bebida, pelas drogas, a ganância do poder e do ter para si. É possível também que este homem citado no Evangelho, esteve presente na liturgia celebrada, mas não estava de coração e ouvidos abertos para receber o que Deus falava, pois se verificou nele nenhuma transformação. Ao ouvir a Palavra de Jesus, a reação dele é violenta.

Por isso nosso empenho deve estar direcionado para a realização da libertação e da cessação do mal: tudo o que desfigura a vida humana, convertendo-a em prisioneira e vítima dos atuais “espíritos impuros”, deve ser cessado pela força da Palavra de Deus.

Ações que minimizem a fome, o egoísmo, a indiferença, bem como todos os efeitos do mal, são ações do Cristo Libertador que continua a expulsar de nosso meio o fermento da maldade. Acontece também em nossos dias, quando a Palavra de Deus anunciada perturba, provoca, denuncia, há aqueles que dizem que a Igreja não deve se importar com a política, com a economia, com os problemas sociais. Diante de tantas situações adversas à prática de Jesus, como ser profeta no mundo hoje, na família, na comunidade e na sociedade?

4. Ligando a Palavra e a Eucaristia

Toda a ação celebrativa é manifestação do ensino autorizado de Jesus. Se, por contraste, pensamos que a cultura e a sociedade atuais promovem o individualismo, a reunião da comunidade demonstrará que esse mal foi banido pelo Evangelho de Jesus.

Também foram banidos a indiferença, quando na oração suplicamos pelas necessidades do mundo; o egoísmo, quando partilhamos do mesmo pão e do mesmo vinho, nos esforçando de tornar nossa vida verdadeiramente partilhada pela salvação do mundo: a violência e a inimizade vencidas pelo gesto simples, mas significativo da saudação da paz; a tristeza convertida em alegria nas aclamações e confissão da nossa fé, no canto, no credo; a falta de fé vencida pela reconciliação com Deus em torno do altar da Nova Aliança na busca sincera do seu amor que se manifesta na celebração da Igreja.

A antífona de entrada revela esse caráter performativo da celebração que realiza o anuncio evangélico quando afirma que o povo vai se gloriar no louvor de Deus. “A glória de Deus é o homem vivo”, dizia Irineu de Lião. A celebração concorre para essa vida, para essa glória.

Enviado por D. Vilson Dias de Oliveira – Bispo Diocesano de Limeira – SP

Catequese Sacramental Mistagógica

Nossa igreja está propondo um novo caminho para a Catequese, o caminho mistagógico, onde o catequizando deve fazer a experiência do amor de Deus e da presença de Jesus no meio de nós. Sem dúvida nenhuma esse é o caminho ideal, o retorno ao processo de evangelização das primeiras comunidades, que transforma verdadeiramente a vida dos cristãos, tornando-os testemunhas ativas do Evangelho. E essa é a exigência cristã, que os discípulos de Jesus sejam testemunhas vivas dos ensinamentos do Mestre, vivendo a radicalidade da sua opção de vida.

No entanto, longo é o caminho a ser percorrido para alcançarmos essa meta, que foi se perdendo ao longo do tempo. A catequese das primeiras comunidades, um processo catecumenal de iniciação cristã que exigia a total conversão de vida, acabou se perdendo no decorrer da história, sendo transformada em mera instrução para receber os sacramentos.

A volta às origens da catequese não é uma busca nova. No Brasil, desde a publicação do Documento “Catequese Renovada”, em 1983, há quase 30 anos, inspirado nos documentos da Igreja (Vaticano II, Medellin, Puebla, Evangelii Nutiandi e Cathechesi Tradendae), já se tem orientações que visam uma catequese como processo de “educação permanente para a comunhão e participação na comunidade de fé” (CR 1.4). Na conclusão desse documento, os Bispos do Brasil afirmaram que a catequese é um processo de educação comunitária, permanente, progressiva, ordenada, orgânica e sistemática da Fé, cuja finalidade é a maturidade da Fé num compromisso pessoal e comunitário de libertação integral da pessoa (cf. CR 318).

Foi um caminho árduo o de transformar a catequese de instrução, onde catequistas eram vistos como professores de catequese que reuniam os catequisandos em salas de aulas para ensinar os preceitos e a doutrina; para uma catequese como processo de educação, onde o catequisando deveria ser o protagonista da sua própria transformação e o catequista ser apenas um pedagogo que conduzia o catequizando ao Mestre (o significado original da palavra pedagogo, no grego, é “aquele que leva a criança até seu mestre”).

Mas, como em todo processo aberto e dinâmico, o caminho foi sendo percorrido passo a passo, aproximando-se da meta a cada objetivo alcançado, além de abrir também novas perspectivas diante das transformações do mundo e da sociedade humana. E nesse contexto, hoje é imperativo um novo passo, uma catequese voltada ao reencontro com Jesus Cristo, à experiência que faz perceber a sua presença viva na própria vida humana: a Catequese Mistagógica.

Surge então a questão: como fazer isso acontecer na catequese sacremental, que prepara adolescentes e jovens para receber os sacramentos. Esse é uma grande desafio, que deve ser vencido a partir do testemunho da comunidade catequisadora. A Catequese é um processo educativo permanente, comunitário; e como tal deve ser assumido por todos os que participam da comunidade.

É preciso trasformar a estrutura catequética que ainda prevê inscrição (como se fosse escola), formação de turmas e divisão de catequista (alunos e professores), período de formação que segue o calendário escolar, etc. A formação sistemática é necessária, mas deve ter uma estrutura própria, condizente com um processo de educação na fé, onde a comunidade e o catequista dão testemunho do que pregam: amor, caridade, perseverança, determinação e comprometimento.

Sugestões para as comunidades:

  1. A coordenação da Catequese Paroquial, juntamente com o pároco, deve planejar um encontro com pais que desejam participar ou que seus filhos participem da formação catequética oferecida pela comunidade. Esse encontro terá a finalidade de explicar o significado da catequese, seus objetivos e os compromissos que deverão ser assumidos pela família. Pode-se marcar diversas datas para esse encontro, de forma a possibilitar que as famílias possam optar por um deles.
  2. Nas celebrações dominicais, convidar as famílias que buscam um sacramento (batismo, preparação à primeira eucaristia, crisma) para participar de um desses encontros, agendando a melhor data e horário.
  3. Esse encontro pode ser feito na comunidade, para um grupo maior de famílias (até 50 ou 60 famílias), ou em algumas casas da comunidade, para um grupo menor (até 4 ou 5 famílias).
  4. O encontro deve ser bem acolhedor, em clima de alegria. Mas deve também ser claro em relação aos compromissos e deveres tanto da comunidade como da família, mostrando o comprometimento da comunidade com a formação de verdadeiros cristãos e não como mera distribuidora de sacramentos.
  5. No final do encontro, após uma palestra esclarecedora e algumas dinâmicas, entregar a cada família um folheto onde estarão escritos os compromissos que devem assumir e também uma ficha com os dados da família e da criança ou adolescente que irá participar do processo catequético. Esse folheto deverá, exclusivamente e pessoalmente, ser devolvido assinado pela família, em uma celebração eucarística, durante o ofertório ou em outro momento da celebração a critério da comunidade.
  6. De posse dos folhetos de compromisso, a coordenação da Catequese irá distribuir os mesmos entre os catequistas, levando em consideração a proximidade da região de residência de cada um. Assim, cada catequista terá a incumbência de cuidar de um grupo de famílias que residem próximo da sua casa, o que facilita o entrosamento e a convivência.
  7. Cada catequista deverá visitar as famílias que vão ficar sob a sua tutela, para conhecê-las e também para dar as primeiras informações sobre o processo catequético em questão.

Nas próximas semanas vamos dar sequência a este artigo, trazendo outras sugestões que possam ajudar catequistas e comunidades na implantação de uma Catequese Mistagógica.